No Brasil de Machado não será diferente!

Bolsonaro parece não ter o que fazer, além de persistir em sua saga frenética pelo extermínio dos brasileiros.

Edição sobre ilustração de Danilo Zamboni

Hoje, terça-feira, primeiro dia de expediente do ‘novo’ ministro da Saúde, cuja estreia foi marcada pela prescrição da cloroquina, o país bate novo recorde de mortes pelo coronavírus: 2.798!

O bolsonarismo, definitivamente, não tem limites!

À marcha incontrolável do genocídio, a esmola de R$ 175 aos que tudo perderam e ainda não morreram, durante longos quatro meses!

A morte de quase 300 mil brasileiros e brasileiras é um dado menor. “Faz parte”, como disse a Ludhmila Hajjar, referindo-se aos ataques dos milicianos espalha-vírus à médica que fora convidada para assumir o lugar de Pazuello, declinando do convite por não aceitar a mitigação da ciência pelo obscurantismo bolsonarista, como parece ter feito seu colega Queiroga, outro cardiologista.

A vida é mesmo assim: sobrevivem os mais fortes e sucumbem os mais fracos. Afinal, nessa sociedade de classes hegemonizada pelos megamonopólios privados, notadamente os das rendas fáceis, não há espaço para todos e, não havendo, que sobrevivam os que mais podem e os que mais têm.

Outro dia, um camarada me lembrava de uma passagem por uma das obras primas da literatura machadiana que bem ilustra o que estamos vivendo nesses tempos sombrios.

Machado de Assis, no romance Quincas Borba, narra a trajetória de Rubião, professor que se torna rico do dia para a noite ao receber a herança deixada pelo filósofo que dá nome ao livro, criado de uma filosofia chamada humanitismo.

De posse do espólio, Rubião deslumbra-se com a nova vida e acaba traído por um casal de amigos, que rouba sua fortuna. No final de seus dias, pobre e doente, ele relembra um ensinamento de Quincas Borba, que sintetiza seu ensinamento filosófico.

Para explicar sua teoria, evoca uma história sobre duas tribos famintas diante de um campo de batatas, suficientes para alimentar apenas um dos grupos.

Com as energias repostas, os vencedores puderam transpor as montanhas e chegar a um campo onde há uma grande quantidade de batatas. Então, Quincas Borba finaliza: “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas!”

O filósofo, diante da cena, faz um comentário revelador: “A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação”.

A tribo mais poderosa renega a paz e opta pelo caminho da guerra para a superação do dilema da insuficiência alimentar, pois a eliminação dos mais fracos representa a revigoração da vida dos vencedores, ou seja, o que predominou, ao fim e ao cabo, foi a vida e não a morte.

Essa mesma concepção, guardadas as devidas proporções no tempo e no espaço, representou a base ideológica do nazi-fascismo que eclodiu nos anos 30 do século passado na Europa, cuja ascensão resultou no maior conflito bélico de nossa história, a Segunda Grande Guerra.

Derrotada naquela contenda, a ideologia da barbárie, oxigenada pela implosão do campo socialista no final do mesmo século, ressurgiu na garupa do hegemonismo do capital financeiro monopolista das economias centrais, replicando-se em várias partes do mundo.

O bolsonarismo, no Brasil, representa a caricatura mais grotesca dessa ideologia – se é que podemos denominar esse fenômeno como um conjunto de ideias, após a falência dos projetos social-democratas, à direita e à esquerda, que vigoraram nas últimas duas décadas no país e que fizeram a opção da conciliação com a dependência econômica com o mercado dominado pelos monopólios privados, cada um a seu modo. 

O bolsonarismo é a expressão mais eloquente dos interesses dos setores mais putrefatos do capital, externo e interno. Sua lógica, em tempos de pandemia e de grave crise econômica e social, impõe a necessidade de políticas de extermínio em massa, condição para a preservação de seu domínio, ainda que às custas da ruína de outros.

Não por outro motivo, como em Quincas Borba, a vitória de uma das tribos provoca hinos, alegrias e outros afeitos das ações bélicas que apontam a conquista de outro território.

Os encontros festivos promovidos nos dias de hoje pela casta, em plena pandemia, impelidos pelo desprezo do chefe da Nação aos milhares que perdem a vida todos os dias no confronto com o vírus, representam a comemoração dos mais fortes diante dos que fenecem.

O ódio é camuflado por gestos de cínica compaixão, como em Quincas Borba. 

O maior de todos os literatos brasileiros, ainda no final do século 19, já ilustrava o drama de uma sociedade de classes que se reproduziu abundantemente ao longo do século seguinte, durante o qual a civilização prevaleceu à barbárie, a despeito dos contratempos e retrocessos, até porque a história não caminha linearmente.

No Brasil de Machado não será diferente!

Como na interpretação dos versos de Drumond, em E Agora José: “quer ir para Minas / Minas não há mais”, numa alusão à volta de Rubião a Barbacena, tentando recuperar a vida que perdera.

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