Origem & Consequências do caos sanitário em Manaus

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Sepultamentos no Cemitério Nossa Senhora Aparecida de Manaus (Foto: Alex Pazuello/Semcom)

Populares disputando tubos de oxigênio para tentar salvar a vida de seus familiares e profissionais de saúde abanando enfermos para tentar compensar a falta de ar, tem sido a imagem mais dantesca do que vem ocorrendo em Manaus, cujo caos é a síntese de três tragédias combinadas: anticiência, neomalthusianismo e incompetência governamental no plano federal, estadual e municipal.

A negação da ciência

As epidemias surgiram quando a humanidade, a partir do desenvolvimento das forças produtivas, começou a abandonar a perambulação (nomadismo) e se fixar em torno de residências mais duradouras. Esse fenômeno provoca a aglomeração, amplia o contato, facilita o contágio e potencializa a multiplicação e a replicação dos patógenos em torno de distintas variedades, que nada mais é do que a “defesa” das espécies em busca de uma variedade que melhor se adapte a uma nova realidade, como acaba de ocorrer em Manaus.

Isso é ciência. Está nos ensaios de Darwin, nos tratados de Morgan e na brilhante sistematização de Marx & Engels, dentre outros notáveis cientistas que ajudaram a assentar os princípios essenciais do materialismo histórico e, portanto, possibilitar que a humanidade compreendesse sua trajetória e seu desenvolvimento ao longo do tempo.

Mas diante de algo aparentemente tão simples e de fácil compreensão, como se explica que gestores públicos, além de não adotarem qualquer medida preventiva, disseminem mentiras e induzam a população quase que a um suicídio coletivo e, igualmente grave, ainda encontrem profissionais das mais variadas áreas para darem “suporte” a esse tipo de estupidez?

Não há surpresa. Marx dizia que “se conta nos dedos de uma mão os cientistas que pensam dialeticamente”, ou seja, que se orientam pela ciência e não por “crendices”, sendo fácil deduzir que ideias obscurantistas, atrasadas, reacionárias, anticientíficas vicejam em diferentes partes e ambientes do mundo (do acadêmico ao lugar comum) exatamente porque o desenvolvimento da sociedade se dar de forma completamente assimétrica. É o que explica porque já existem sociedades experimentando os prenúncios do socialismo enquanto outras sustentam que a terra é plana, para ficar apenas numa caricatura.

O neomalthusianismo

Como se sabe, Thomas Malthus sustentava que a população de pobres deveria ser regulada por um rigoroso controle da natalidade imposto aos pobres e pela eliminação de uma parcela através das guerras e epidemias. Por essa lógica macabra as mortes deveriam ser “naturalizadas”, como Bolsonaro sempre alardeou, ao declarar, ainda no início da pandemia, de que “alguns vão morrer, e daí?”.

Assim, as pessoas foram criminosamente induzidas a seguir o “líder” nessa estupidez, o que nos faz relembrar do suicídio de mais de mil pessoas, num ritual macabro induzido pelo pastor americano Jin Jones, aqui próximo na Guiana. Primeiro as pessoas foram levadas a negar a pandemia, repetir que isso era coisa da esquerda e outras sandices quaisquer; depois a subestimar seus efeitos (apenas uma “gripezinha”, como pregava o presidente) sem terem presente que o Bolsonaro podia se dar ao luxo de ser irresponsável porque dispõe de um aparato médico e hospitalar a sua disposição para tratar de qualquer “gripezinha”, enquanto ele, cidadão comum de Manaus ou de qualquer outra parte do Brasil, não tem sequer oxigênio para respirar quanto mais leito ou UTI hospitalar para receber um tratamento minimamente adequado; e, por decorrência, foi induzido a não adotar qualquer medida ou cuidados sanitários elementares, como evitar aglomerações, lavar as mãos e usar máscaras, etc., medidas vistas pelo presidente como coisa de “maricas” – ofensa suprema a um caboclo amazônico.

E a incompetência gerencial

A falta de insumos básicos, como oxigênio nos hospitais de Manaus, é apenas o exemplo mais grotesco mas não o único a demonstrar a incompetência do governo federal, estadual e municipal, igualmente incapaz de garantir vacinas, logística, equipamentos básicos de proteção para os profissionais e os pacientes, além de leitos e UTI para salvar vidas.

Se cada estupidez dessa, por si só, já seria suficiente para provocar uma crise sanitária, é fácil imaginar a consequência e a extensão do caos quando todas essas três concepções estão associadas: a TRAGÉDIA que se abateu sobre Manaus.

Os fatos a demonstrar essa incompetência estão à vista de todos. Se os artistas e populares conseguem comprar oxigênio para ajudar nessa cruzada em defesa da vida aqui em Manaus, como se explica que o governo federal, estadual e municipal, que administram orçamentos bilionários, não consiga abastecer sequer seus hospitais com esse insumo essencial? Não é apenas incompetência. É deliberada decisão de matar o povo, diminuir a população de pobres, como sustentava Malthus.

Ademais, incompetente, como regra, só contrata incompetente. E é exatamente o que explica as gestões desastradas, em toda a cadeia, no plano federal e local.

O amazonas desativou (julho a outubro de 2020) 85% dos leitos de UTI que havia criado no auge da pandemia, na medida em que a situação de UTI aqui sempre foi crítica, agravada pelo fato de que nenhum município do amazonas, afora a capital, tem leito de UTI, o que leva todos os municípios a ter que recorrer a Manaus, num estado de 1.570 km² e cujos municípios são ligados basicamente por viagens fluviais, com distâncias, não raro, mensurada em dias e mesmo semanas, agora agravados com a proibição de viagens em decorrência da pandemia.

Avisados por cientistas e profissionais da área que haveria recrudescimento de casos nada fizeram. Debocharam, perseguiram quem sustentava essas teses e não tomaram, por óbvio, nenhuma providência. O ministro as saúde veio aqui fazer deboche: a vacina será no dia D e na hora H sentenciou para uma imprensa compreensivelmente ávida por alguma resposta decente. A TRAGÉDIA foi a consequência.

E essa TRAGEDIA é a expressão de três concepções estúpidas e criminosas: anticiência, descompromisso com a vida das pessoas e incompetência e, em grande parte, decorreu de atos criminosos praticados por Bolsonaro (ex-PSL), Wilson Lima (PSC) e David Almeida (Avante), que acertarão contas em breve, seja por impedimento legislativo ou popular.

Nem tudo, todavia, é tragédia. O apoio nacional e internacional que estamos recebendo, desde pessoas simples a artistas e governadores de estados com economias modestas que estão nos ajudando a salvar vidas indica que a humanidade tem saída, basta se livrar dos tapirus terrestris que atualmente lhe conduzem.

E é inspirado na trajetória de Ajuricaba – líder da confederação do rio negro – que preferiu a morte a escravidão, que nós enfrentaremos e venceremos mais esse desafio.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho
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