Mano Brown e hip hop; Fafá de Belém e Diretas Já, destaques no Carnaval de São Paulo

Com o Sábado das Campeãs, termina oficialmente dos desfiles das escolas de samba 2024

Alegoria da Vai-Vai denunciou o racismo estrutural. Foto: Wagner de Alcântara Aragão

Todo Carnaval tem seu fim, diz a música, e o de 2024 teve no Sábado das Campeãs, 17 de fevereiro, o encerramento dos desfiles das escolas de samba deste ano, em São Paulo.

A Mocidade Alegre ficou merecidamente com o título no grupo especial. Na avenida, desenvolveu muito bem o enredo sobre Mário de Andrade. Competências técnica e artística evidenciadas no samba, nas alegorias, nas fantasias, do ritmo da bateria. E muito engajamento da comunidade – percebida na vibração dos componentes que contagiava a Passarela do Samba Adoniran Barbosa, o sambódromo do Anhembi.

Mas, aqui, queremos deixar registrados destaques que não voltaram à avenida para a apoteose, contudo que na segunda noite dos desfiles oficiais – de sábado, dia 10, para domingo, dia 11 – foram de encher os olhos e sacudir o coração.

Mano Brown e denúncia politica

Fizemos a cobertura in loco dessa segunda noite. Logo de cara, o impacto pelo desfile do Vai-Vai. Assim que o sistema de áudio da pista foi acionado, ouviu-se vir da concentração um chamado de Mano Brown. O rapper, que veio no chão, acompanhando a equipe de canto no carro de som, deu a letra: prepare-se que vem impacto.

O enredo “Capítulo 4, versículo 3 – Da rua e do povo, o hip hop: um manifesto paulistano”, embalado pelo belo samba homônimo, rendeu homenagens ao gênero musical e seus artistas. Mas expressou em alas e alegorias muita denúncia política e social também.

Críticas à repressão policial sofrida pelas comunidades na periferia, à desigualdade econômica que marca a sociedade brasileira e ao racismo estrutural foram apresentadas de forma contundente e explícita. Não à toa, a partir do dia seguinte emergiram de segmentos reacionários suas típicas reações a qualquer contestação do status quo.

Em um desfile técnica e artisticamente disputado e equilibrado, o Vai-Vai não conseguiu ficar entre as cinco primeiras colocadas e voltar para o Sábado das Campeãs. Terminou na oitava posição, mas marcando posição. Para sempre sua apresentação será lembrada, resgatada, revista.

Fafá de Belém e Diretas Já

Tida como uma das favoritas ao título, pela imponência e luxo de alegorias e adereços; pelo samba-enredo (um dos mais belos em letra e melodia, do ano); e pela fibra de seus componentes, a Império de Casa Verde bateu na trave: ficou em sexto, com a mesma pontuação da quarta e da quinta colocadas, respectivamente Gaviões da Fiel e Mancha Verde: 269,6 pontos. Nos critérios de desempate, levou a pior.

Levou o melhor, porém, à passarela do samba: um dos mais envolventes desfiles da temporada – com Tinga e a bateria conduzido muito bem harmonia e evolução. Em enredo homenageando Fafá de Belém, não faltaram referências à paisagem e à cultura amazônicas.

A escola fez questão também de tratar da história política nacional: uma ala fez menção às Diretas Já, movimento eclodido há 40 anos na luta pela redemocratização do Brasil, e que teve atuação protagonista de Fafá de Belém. A imagem da cantora entoando “Menestrel das Alagoas” para uma multidão em comício em São Paulo, em 1984, é uma das mais reproduzidas quando se faz menção àquela mobilização popular.

Desfile de escola de samba é essa mistura: de devaneio com realidade, de diversão com consciência.  Cabe um pouco de tudo. Já iniciamos a contagem regressiva para 2025. Todo Carnaval tem seu fim, mas ainda bem que logo vem o começo do próximo.

Autor