3 de Março de 2017 - 18h48

Frente Ampla e eleições

Elder Vieira *

 - Ô, sujeito, não vai sair da Frente não? - perguntará o enfarado leitor.
Enquanto 'tiver esse saco de temeridades estorvando o caminho, não - ripostarei, o renitente escriba.


De modo que peço vênia , porque o assunto é momentoso. Diz respeito aos caminhos para o Brasil sair do atoleiro em que o meteram os representantes do imperialismo, do latifúndio e dos especuladores que pululam nos diferentes poderes de nossa combalida República. E a constituição de uma Frente Ampla em Defesa do Brasil e da Democracia é esse caminho, ao mesmo tempo em que no meio do caminho desta Frente está 2018.

Se haverá ou não eleições no ano que vem, depende: de um lado, do resultado do choque de interesses dentro do bloco golpista (também do grau de desfaçatez de seus atores, que já é desmedido) , e, do outro, do nível de união e da capacidade de mobilização das correntes democráticas e patrióticas. Aumentam a incerteza as espumas produzidas pela Lava à Jato de Moro, amplificadas pelas togas do Judiciário e pela mídia grande; as manobras do governo ilegítimo em função de sua cada vez maior ilegitimidade; os casuísmos da maioria no Congresso Nacional, preocupada em atender as urgências do Tio Sam, dos especuladores e do patronato obtuso; o comportamento incógnito da maioria do povo, que ainda não aquilatou o peso dos grilhões que tornaram a lhe meter nos tornozelos.

Em face dos riscos, a vigilância e a luta pela garantia de eleições livres, dentro de parâmetros democráticos, com ampla participação popular, passam a ser, portanto, uma das linhas de construção da Frente Ampla, nacional e democrática; e um dos elementos da constituição da unidade das forças populares.

- Ah, entendi: a gente junta todo mundo, garante as eleições e lança um candidato da Frente.
Não necessariamente.

Diz nossa Constituição que todo o poder emana do povo. Logo, toda legitimidade, também. Para garantir legitimidade aos que devem comandar seus destinos, é preciso garantir ao povo as condições para o exercício de sua soberania. Por isso a gente deve juntar o máximo de forças para lutar em defesa da soberania, dos direitos do povo e das liberdades civis e políticas, e buscar garantir as condições as mais democráticas para a disputa eleitoral - condições que permitam, a todas as legendas que o desejem, lançar, coligadas ou solteiras, suas plataformas ao debate nacional e posicionar suas forças o melhor que puderem.

Frente Ampla, na conjuntura que está desenhada e se projeta, não se confunde com frente eleitoral. Não cabe - ao menos, por ora, não vemos como caiba - a definição de uma candidatura única. Há muita movimentação de areia por sob a maré. Ademais, há um reclamo antigo por alternativas, ao lado de um frenético reposicionamento de forças políticas e sociais, produto do desvelamento de limites e potências de conceitos, ideários, posturas e projetos de País - desvelamento este que vem amadurecendo ao longo das duas últimas décadas e que foi explicitado pelo golpe de 2016.

O golpe encerrou um ciclo. Ao encerrar-se um ciclo, antigos arranjos se desfazem. Certas plataformas, bases de parcerias politicamente produtivas no passado, mostram-se insuficientes na nova quadra da vida nacional, e acabam por sufocar os parceiros. Quem era protagonista ontem já não consegue reunir as condições de ocupar a boca da cena hoje. Novos talentos são chamados a clarear caminhos - ou, parafraseando o autor de Os Lusíadas, um valor mais alto é convocado a se alevantar.

Portanto, meu paciente leitor, a hora é de unir forças para proteger e mudar o Brasil. É hora de edificar uma ampla frente nacional, que mobilize os brasileiros e seja capaz de se opor, de resistir a um governo entreguista, traidor da Pátria, sustentado por potências estrangeiras e banqueiros; um governo antidemocrático e antipopular. Ao mesmo tempo, é preciso construir politicamente um ambiente institucional e eleitoral que resgate a soberania popular e permita a escolha de um novo projeto de desenvolvimento e legitimação da força que o liderará.

- Seremos bem sucedidos neste duplo movimento?

Só o povo dirá.

* Escritor, servidor público, militante do PCdoB desde 1983

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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