23 de Agosto de 2017 - 10h41

Não basta ir às ruas

Luciano Rezende *

Há um sentimento quase irrefreável que impele amplos setores da esquerda brasileira a exigir a volta do povão às ruas como se ele tivesse de fato saído de casa na última década.


A não ser para ir ao trabalho, o chamado povão, em sua imensa maioria, esteve longe de protagonizar as multitudinárias manifestações que culminaram por derrubar a presidenta Dilma Rousseff.

Todas as pesquisas feitas que revelaram os perfis dos manifestantes desde o primeiro ato contra o reajuste de 20 centavos no transporte público do município de São Paulo em 2013 - onde o Ibope registrou que 43% tinham curso superior e a metade renda acima de 5 SM - até os que foram às ruas comemorar a sua queda, mostraram que essas hordas eram compostas basicamente por setores desta classe média. O povão, caracterizado como tal, ou seja, a grande maioria dos assalariados, nem de longe foi protagonista destas jornadas.

Justamente esse público dificilmente voltará às ruas por, entre outros motivos, ter se sentido frustrado quando 94% de seus componentes acreditavam que suas reivindicações seriam atendidas. Depois de perceberem que, ao invés de terem suas demandas contempladas estão, na verdade, tendo direitos subtraídos, perderam o encanto com o tal “gigante” que havia acordado. Se o elemento espontâneo sobrou, o fator consciente foi exíguo.

Mas mesmo que as multidões voltem às ruas será necessário a construção de bandeiras unitárias, capazes de propor uma saída para a atual crise. As palavras de ordem das grandes jornadas de 2013, por exemplo, foram extremamente contraditórias, superficiais, ocas e difusas. Havia gente protestando contra a realização da Copa do Mundo como se o seu cancelamento fosse resolver todos os problemas do país.

Portanto, fica evidente uma vez mais a tese leninista de que “sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário”. Em outras palavras, mesmo que as ruas sejam tomadas, é necessário liderar essa massa rumo aos objetivos centrais em defesa da democracia, da soberania, do desenvolvimento e do progresso social.

A condução desta ampla maioria do povo caberá não mais a um partido apenas, mas a uma frente ampla - com grande protagonismo de toda a esquerda, mas sem exclusividade dela. Haveremos de construir um grande movimento nacional, típico de outros momentos cruciais de nossa história, como foi a Aliança Nacional Libertadora ou o Movimento das Diretas já. E essa Frente Ampla necessita discutir urgentemente um programa que unifique o país em torno desse projeto básico de nação desenvolvimentista e democrático.

Já passou a hora de findar as lamúrias e arregaçar as mangas, deixando de lado a mágoa contra vários “golpistas” arrependidos que nesse momento devem ser “perdoados” e convidados a somarem forças nessa difícil caminhada. A bem da verdade, a julgar por quem apoiou o impeachment de Dilma no dia da votação final na Câmara dos Deputados, a maioria do povo brasileira receberia a chancela de golpista.

O desafio que nos é imposto na atual quadra política é, assim, muito mais importante que cobrar a volta do povo para as ruas. Mas, antes disso, definir o projeto político capaz de unir amplos setores políticos em torno de uma Frente Ampla que irá liderar as novas multidões em torno de objetivos bem definidos e atraentes aos trabalhadores e à nação.

* Diretor de Temas Ecológicos e Ambientais da Fundação Maurício Grabois
É professor na Universidade Federal de Viçosa, campus Florestal.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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