24 de Agosto de 2017 - 14h28

Enquanto as caravanas passam...

Elder Vieira *

 Nos anos 80, enquanto trabalhadores de diferentes tendências políticas laboravam por construir uma central unitária, o PT reuniu sua tropa e fundou uma central só para eles e a chamou de central única. Uma confederação de tendências, agrupadas em partido político, racha assim, em nome de seus interesses particulares (travestidos em interesses de classe), o movimento sindical, que de muita unidade precisava para enfrentar a Ditadura em seus estertores e o que viria adiante.


Nos mesmos 80, o mesmo PT caracterizava as Diretas como bandeira burguesa, depois, diante da maré unitária e das praças cheias, aderiu e fez o que pôde e o que não pôde para se adonar da pauta. José Dirceu chegou a chamar a polícia para tirar uma faixa do PCdoB estendida nas grades do Viaduto do Chá voltada para o local do comício que veio a ser de um milhão e meio de pessoas no Anhangabaú. Derrotada a emenda das Diretas, foram contra a Frente Democrática e a Candidatura Única das Oposições no Colégio Eleitoral.

Apesar disso, a Ditadura foi derrubada e o PT seguiu sua estrela, até que, após anos de combate das forças nacionais e democráticas ao neoliberalismo, ele é conduzido ao comando da República. Não obstante os programas distributivos e a política externa que liderou, ambas joíssimas, cometeu dois pecados, que lhe parecem congeniais: estreiteza na política e vacilação na estratégia. Conduziu o executivo com os seus já oscarizados hegemonismo e exclusivismo, o que mais uma vez comprometeu a unidade das forças populares e democráticas, e manejou a economia de forma vacilante, tentando conciliar o inconciliável - desenvolvimento soberano com fundamentos macro-econômicos neoliberais - apesar dos insistentes avisos e críticas dos aliados. Errando feio na política e na condução econômica, o PT facilitou um bocado a vida das forças golpistas.

Apeado do poder por um golpe de Estado, o PT trata de cuidar... de si, lógico. Sai em caravana pelo Brasil expondo seu líder máximo. Nos ajuntamentos, frases de efeito e evocação do que foi bom e poderia ter sido sempre bom, não fossem essas elites preconceituosas; apelos emotivos com ares de messianismo. Quem quiser, ou não puder resistir, que siga a estrela. A ribalta é dela. Os demais que se resignem ao papel de coadjuvantes.

Há quem veja nisso o caminho irrecusável de todos os democratas, progressistas, patriotas e revolucionários. Os lulistas de todas as agremiações (porque não os há somente no PT) e alguns auto-proclamados realistas dão como favas contadas, fato consumado, que o presente e o futuro do País estão com a estrela-guia. Não há que resistir: plano A, ou plano B, o Brasil vai de PT.

Esse reles escriba não quer ser desmancha prazeres, mas vê-se compelido a lembrar que nem só de caravanas vive um nação. Teve uma que levou quarenta anos perdida num deserto até achar um tal monte e construir um programa de dez pontos. Pactuado o programa, contornada a montanha, partiu em demanda de sua terra prometida e deixaram seu líder pra trás. (Vamos combinar, né: quarenta anos sem rumo, comendo areia e pão asmo...). Um tocador de trombetas é que assumiu a batuta. Até muro de arrimo o sujeito derrubou - dizem que no grito.

Com essa digressão bíblica - não sabemos se pertinente, mas é a que tínhamos à mão -, queremos dizer: 1. Sem programa, qualquer adesão é um cheque em branco, que pode custar décadas; 2. As caravanas passam, assim como o tempo e seus líderes; 3. Uma nação é maior que um homem e um partido; 4. O dono da festa agradece a presença, mas não pense que você vai poder apagar a velinha com ele. No máximo, róla uma selfie.

- Por mode de que dize-nos vós isso, ó, impertinente teclador?

Além de não apreciar o 'vale a pena ver de novo', esse que aqui vos enfara, assim como não crê em sarças ardentes, não bota fé no 'até que a morte vos separe'. Aquele que se crê o caminho, a verdade e a vida, nunca se ligou, e, preocupado agora com sua sobrevivência, não parece ter intenção ou mesmo condição de se ligar no bem estar geral.

Mas isso não é o mais importante. O que mais importa agora é compreender que as tábuas da lei foram partidas e um deserto se descortina diante de nós. A marcha será longa e forçada. O olhos não podem alcançar apenas o ano que vem, por mais que ele seja decisivo. Há que se posicionar bem agora, com independência, e construir caminhos alternativos, próprios de quem quer ir mais longe.

Por outras palavras: Tá na hora de deixar de ser mariposa e propor-se lâmpada.

* Escritor, servidor público, militante do PCdoB desde 1983

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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