Brasil

15 de maio de 2016 - 12h30

“Aqui jaz a Cultura brasileira”, por Toni C.

Ministro da Cultura Juca Ferreira, durante cerimônica de Posse do Conselho Nacional de Cultura Ministro da Cultura Juca Ferreira, durante cerimônica de Posse do Conselho Nacional de Cultura

Têm uns seis meses em que disponibilizei meu nome na disputa por uma vaga no Conselho Nacional de Cultura. Fiz campanha, submeti a avaliação minha trajetória, pedi voto a cada um com o compromisso de contribuir com a discussão, elaboração e denúncia quanto cidadão da sociedade civil nos temas culturais. Disputei com outros 13 candidatos no setorial de literatura e recebi 49% dos votos no Estado de São Paulo.

Daqui pra lí, assisti o país virar de ponta cabeça:

Lavajato é a lavagem cerebral em tempos de falta d’água.
Gordos interesses em suas varandas entoando panelas.
Petrolão uma mancha para esconder o crime da Vale em Mariana.
Sequestro de um ex-presidente para abafar o bolsa à família extraconjugal de outro ex-presidente.
Um tríplex em Guaruja fazendo sombra no tríplex de Paraty.
Vazamentos de ligações pra diluir a lista com mais de 300 ladrões.
A Copa do Mundo foi a “revolta” de quem dizia preferir saúde e educação.
Protestam com a camisa da Nike / CBF, não ria, contra a corrupção.
Mas quando os estudantes ocuparam as salas de aula, para mantê-las abertas e contra o desvio da merenda, os mesmos preferiram acompanhar a final do Paulistão.
Assistimos um bando de criminosos, em nome da família, condenar uma mulher por sua não cumplicidade, saudação ao torturador e um beijo a esposa e ao filho.
E nessa brincadeira, a democracia é assassinada por bala perdida.

Por muito menos, revoltosos dos 20 centavos queimaram ônibus, pararam o país. Exigiram passe livre e conquistaram... aos golpistas.

Bom, até aqui nada que você não saiba, alardeado em manchetes envenenadas.

O meu testemunho é de uma cena que o telejornal não mostrou. Convivi por estes dias com famílias acampadas vindas de todas as partes do Brasil. Abandonaram suas vidas para assegurar o voto que deram ou não deram, mas que precisa ser assegurado. Conversei com líderes e pessoas anônimas, negros e sindicalistas, padres e indígenas, periféricos e sertanejos. Ouvi a poucos metros o discurso da presidenta diante do Palácio do Planalto, dizendo um “até logo”, sem abaixar a guarda. Olhei no olho de cada um e o que enxerguei bem lá no fundo foram histórias mais nobres que esta que vou contar, a minha:

Finalmente chegou o grande dia, todos orgulhosos para o ato solene de posse com a presença do Ministro que faz questão de receber um a um. Flashes, selfies, sorrisos. Eu, entreguei um livro que trazia em minha mochila ao Juca (nunca ví ministro ser tratado de modo tão informal). Poesia Pra Encher A Laje, é o título do meu parceiro INQUÉRITO, Renan que convoca um multirão para um novo patamar... a laje é teto mas também é chão, mirante da quebrada.

Tranquilo, favorável. #SQN

Meu nome no Diário Oficial como conselheiro empossado, 48 horas depois era questionado pelo vice-presidente conspirador golpista Michel Temer.

A primeira ação de um autoritário antidemocrático é abolir os espaços construídos democraticamente. Temer faz isso com uma medida provisória que extingue o Ministério da Cultura.

A sexta-feira 13

Para supersticiosos esta é uma data de mau agouro. O dia 13 de maio historicamente é o dia em que negros devem ser eternamente gratos pela princesa branca ter feito a benevolência de nos libertar, segundo a versão oficial. Nesta sexta-feira 13 de maio, uma Lei Áurea às avessas nos devolve a escravidão em forma de um governo ilegítimo.

Amigos às vezes falam o que você sente e não sabe como dizer: “Tem gente reclamando da ausência das minorias participativas na composição dos ministérios de Temer. Eu não! Ao contrário, acho bom! Me orgulho em saber que mulheres e negros estão fora dessa cretinagem golpista. Ainda bem!
E tem mais, incluo nessas minorias os homossexuais e honestos. Sim, "honestos" pois pessoas honestas são tão minorias na política quanto os demais grupos que citei.
Portanto, parabéns às mulheres, aos negros e homossexuais e também aos honestos por não participarem dessa coisa nojenta.” (Demetrios dos Santos)

Não foi a única presidenta mulher que foi deposta nesse dia, foram as políticas sociais que permitiram a dignidade dos mais pobres, o extermínio da miséria e porque não os votos que recebi como conselheiro de um ministério que poucas horas depois foi extinto.

A Cultura não precisa de um ministério, ela é definida pelo núcleo artístico das organizações Globo, a metralhadora do golpe.

Aqui jaz a cultura.
Descanse em paz!


Leia também:
Ouça essa delação senhor Moro
“Hora da merenda”


* Autor dos livros: Sabotage - Um Bom Lugar, e do romance O Hip-Hop Está Morto, integrante do Conselho Nacional de Cultura na área de Livro, Leitura e Literatura, membro da direção da Nação Hip-Hop Brasil, diretor de cultura da ORPAS, diretor do coletivo LiteraRUA, e integrante do Portal Vermelho.




  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR

Últimas Mais