Contra o preconceito: conhecimento
Quatro livros lançados recentemente destacam a importância da luta pela igualdade racial no país: da história do continente africano à vinda forçada dos negros para o Brasil, passando pela literatura e pela lei 10.639/2003, sobre ensino da história dos afro-brasileiros
Por Marcos Aurélio Ruy*
Publicado 24/11/2010 16:11
A África Explicada aos Meus Filhos (Editora Agir, 160 páginas), de Alberto da Costa e Silva, discorre de maneira didática sobre a história da África e todas as suas vicissitudes, tal e qual qualquer outro continente. Ele fala sobre guerras, disputas por terras e sobre a colonização europeia retalhando o continente, fala ainda sobre a escravização de povos africanos e da vinda de milhões para o Brasil, sendo preponderante na formação do país e do povo brasileiro como conhecemos hoje.
Ele conclui que “é raro um brasileiro adulto cujos bisavós já viviam no Brasil que não tenha pelo menos um antepassado africano. A África está, portanto, no sangue da grande maioria do nosso povo. E, ainda que disto muitos não tenham consciência, na alma de quase todos.”
Outra obra retrata a experiência de um Centro de Integração de Jovens e Adultos (Cieja) que seguiu a determinação da lei 10.639/2003, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino.
O livro História da África e Afro-brasileira, em Busca de Nossas Origens (Selo Negro Edições, 126
páginas), de Elisabete Melo e Luciano Braga, traz histórias reais de preconceito e discriminação. Relatam também a importância da educação para os negros conhecerem a história da contribuição que deram para a formação do país, nas lutas contra o escravismo, na cultura, entre diversos outros fatores da vida nacional.
Numa das tarefas escolares uma aluna escreveu uma carta: “Sou A. F. S., negra. Conheci um rapaz de família branca e nos apaixonamos. Começamos a namorar e fizemos muitos planos, até que um dia, fomos a uma festa na casa de um parente dele (…) Percebi olhares de espanto (…) De longe eu reparava nos olhares reprovadores e nos comentários em voz baixa.” O protagonista da história conclui que “acima de tudo aprendi a acreditar em mim, a dar valor às pequenas ações, a olhar para o próximo com humildade, sempre sabendo que todos têm muito a oferecer e podemos aprender o tempo todo”.
Em Literatura Negro-brasileira (Selo Negro Edições, 152 páginas), Cuti dimensiona a literatura produzida por autores que se assumem como negros e retratam em suas obras as vivências da população afro-descendente. O autor explica que “o assunto deste livro é a literatura brasileira.
A proposta é iluminar um de seus múltiplos aspectos, que é a literatura negro-brasileira” e diz ainda que “destacar este veio da literatura brasileira tem o mesmo objetivo que tiveram outras áreas ao deitarem luz sobre aspectos importantes da cultura nacional que, por motivos de dominação ideológica, restaram abafados durante séculos ou décadas. Afinal, o Brasil é dos brasileiros, porém é preciso acrescentar que é de todos os brasileiros”. Para ele, “à obra, cumpre a função principal de furar as resistências para nutrir a memória afetiva dos leitores”.
Lugar de negro
O quarto livro traz a vida e a obra de um dos maiores nomes do movimento negro brasileiro
contemporâneo. Alex Ratts e Flavia Rios apresentam Lélia Gonzalez (Selo Negro Edições, 173 páginas). O livro nos traz o panorama das lutas através da vida de uma figurinha carimbada dos movimentos negro e feminista, participou do PT, do PDT, do Movimento Negro Unificado (MNU) e das lutas pela emancipação feminina, levando a voz da mulher negra ao movimento feminista.
“Além de atuar diretamente na formação, consolidação e difusão do movimento negro, que reapareceu no Brasil no final dos anos 1970, em pleno regime militar, Lélia analisou e interpretou sua formação”, dizem os autores.
Lélia mostrou que o “lugar de negro”, desde a escravidão foi “o espaço social e as áreas de trabalho e moradia inferiorizadas”, afirmam os autores. Para o grupo de intelectuais, ao qual Lélia se ligava, “a ausência da memória e da história da África e de referências adequadas ao africano”, dizem Ratts e Rios, “constituem fator de alienação e de desfiguração do negro no Brasil”.
Para ela “esse problema é muito mais antigo que o próprio sistema capitalista, e está de tal modo entranhado na cuca das pessoas, que não é a mudança de um sistema para outro que vai determinar o desaparecimento da discriminação racial”.
Os livros apresentam um panorama importante para entendermos o racismo brasileiro e ressaltam a necessidade da luta pela igualdade racial no país. Hoje a luta é pela efetivação e aperfeiçoamento do Estatuto da Igualdade Racial e pelas políticas afirmativas, fatores fundamentais para acelerar a diminuição da desigualdade.
*Marcos Aurélio Ruy é jornalista