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Sudão do Sul: o nascimento de uma nação

O içar da bandeira, no sábado (2), marcou o nascimento do 55º país da África e também a posse do seu primeiro presidente, Salva Kiir Mayardit. O governo do Sul do Sudão é desafiado com questões como a pobreza, insegurança e falta de infraestruturas. A estes, junta-se o desafio de criação de instituições embrionárias, mas a ONU afirmou haver condições para que o país se transforme numa nação próspera e auto-sustentável.

Em janeiro, o país com 8 milhões de habitantes votou num referendo que ditou a separação do resto do Sudão. A realização da consulta popular foi decidida no Acordo Abrangente de Paz que, em 2005, assinalou o fim da guerra civil que, durante 21 anos, envolveu o norte e o sul.

A forma pacífica com que decorreu o referendo conquistou créditos para os dois intervenientes. O embaixador António Monteiro, foi membro do Painel de Alto nível da ONU sobre o Referendo do Sudão. O também antigo ministro das Relações Exteriores de Portugal fala de aspectos que marcaram o que considera ‘caso sudanês’.

“O caso do Sudão é único. Teve que se solucionar através da separação mas foi uma exigência imposta para alcançar a paz. Isso com plena consciência tanto a norte como o sul. Ao mesmo tempo, penso que o Sul do Sudão é um exemplo claro de como África pode ganhar em encontrar vias para a sua estabilidade porque o continente está a se a desenvolver muito rapidamente”, apontou.

O Sul do Sudão nasce com o peso de dezenas de milhares de deslocados do conflito, aliados ao baixo índice de desenvolvimento humano. De acordo com a ONU, o novo país vai apresentar a mais alta taxa de mortalidade materna do mundo.

A taxa de analfabetismo entre a população feminina é superior a 80 % e mais de metade dos seus cidadãos vive com menos de 1 dólar por dia.

Experiência Africana

Para o trilho, seguido por vários países do continente, o representante da União Africana junto das Nações Unidas, Tete António, disse estar esperançado que o Sul do Sudão possa servir-se da disponibilidade da “experiência africana”.

“Há uma noção que se está a desenvolver de conferências de solidariedade sobre alguns países que saem de conflito, dentre os quais o Sul do Sudão, que é um caso particular – não é a noção clássica de pós-conflito. É um país que está a nascer e precisa de tudo praticamente. Já se fala de alguns africanos, sobretudo da África Ocidental, a investir em Juba, no Sul do Sudão. Penso que está toda a África mobilizada para o nascimento deste Estado”, afirmou.

O governo do Sul do Sudão é desafiado com questões como a pobreza, insegurança e falta de infra-estruturas. A estes, junta-se o desafio de criação de instituições embrionárias.

Por outro lado, vários factores revelem o potencial do Sul do Sudão, dentre os quais as reservas de petróleo, quantidades de terra arável e a prosperidade do Nilo, que atravessa o país.

O Secretário-Geral da ONU afirmou haver condições para que o país se transforme numa nação próspera, auto-sustentável e capaz de proporcionar segurança, serviços e emprego para sua população.

O professor Manuel João Ramos, de Lisboa, do Instituro Português das Relações Internacionais, aponta lacunas na criação do novo Estado, incluindo a tensão no relacionamento com o Sudão.

Conflitos Regionais

“O petróleo, em si, não chega para fazer nação. Parte dos problemas de algumas décadas dos conflitos regionais – nomeadamente entre os quais entre os grupos Nuer e Dinka – foram amenizados. Mas o perfil deste país é de uma enorme variedade cultural e política com grandes distinções regionais e com pouca história de cooperação entre as diversas componentes culturais e geográficas para uma identidade nacional e para a harmonização de mecanismos de administração do Estado, a nível nacional”, explicou.

O exemplo mais da instabilidade foi a explosão de confrontos, em princípios de Junho, entre forças do Norte e do Sul do Sudão no estado de Kordofan-Sul e na região de Abyei, rica em recursos naturais.

Expectativas

Após visitar recentemente o continente africano, numa missão do Conselho de Segurança, a embaixadora do Brasil junto da ONU, Maria Luiza Ribeiro Vioti, falou das expectativas da comunidade internacional em torno da tensões no momento do nascimento da nova nação.

“Que o processo de emergência de um novo Estado no Sul do Sudão seja um processo pacífico e que leve a essa visão de dois Estados convivendo, lado a lado, em paz e em cooperação. Estamos convencidos de que há possibilidade de que a situação evolua nesse sentido, é o que esperamos”, sublinhou.

Além de ter de lidar com os laços históricos, económicos e culturais partilhados com o Sudão, diante da nova nação está o desafio de cooperar com os países vizinhos, num continente que aposta em abraçar a via das parcerias regionais.

Fonte: ONU