Um conflito internacional transformado em “guerra civil”

O presidente da Comissão Independente de Investigação da ONU, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro apresentou perante o Conselho de Direitos Humanos o seu relatório sobre as violações dos direitos humanos cometidos no país nos últimos 18 meses.

Por Claude Fahd Hajjar*,

“A comissão confirmou a presença crescente de elementos estrangeiros, incluindo militantes jihadistas, na Síria. Alguns se unem às forças anti-governamentais enquanto outros estabelecem seus próprios grupos para atuar de forma independente”.
A comissão pôde comprovar que a presença “destes elementos está levando os combatentes anti–governamentais a assumir posições muito mais radicais”, concluiu a pesquisa, que também alerta sobre o “aumento dramático” das tensões sectárias.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (ICRC) é o guardião das Convenções de Genebra, que estabelece as regras de guerra e, como tal, é considerado a referência na qualificação quando a violência evolui para um conflito armado.”

A agência baseada na Suíça, ao concluir que a disputa chega ao limiar de um conflito armado interno deve informar às partes envolvidas no conflito sobre a sua análise e das suas obrigações legais.

“Há um conflito armado não-internacional na Síria”.

Inconsistência do Relatório

Chama a atenção quando lemos trechos publicados do relatório, que o conflito na Síria é classificado de “conflito armado não internacional”, o que significa “guerra civil”.

Como o conflito é não internacional e foi constatada a presença de combatentes jihadistas, salafistas e estrangeiros na Síria, conforme consta no relatório?

Intencionalidade

Ao afirmarem os organismos internacionais (CDH ONU e ICRC) legitimados e autorizados a atuar na Síria de que: “Há um conflito armado não internacional na Síria.”

A classificação significa que as pessoas que ordenam ou executam ataques contra civis, incluindo assassinato, tortura e estupro, ou usam força desproporcional contra áreas civis podem ser acusadas de crimes de guerra em violação à lei humanitária internacional.

Eles estão intencionalmente criminalizando os envolvidos no conflito dentro da Síria e negando o crime dos países da Otan, EUA e CCG além da Turquia que descaradamente apoiam o ELS e colocaram toda a sua logística a serviço dos combatentes. Vamos ver do que eles não falam:

Conforme a imprensa europeia o conflito é internacional

“O jornal Britânico Sunday Times e o alemão Bild am Sonntag e a rádio francesa Bfmtv- Rme (2/9/ 2012) revelaram que os governos da Grã-Bretanha, da Alemanha e da França, autorizaram a intervenção de seus serviços especiais para sustentar os rebeldes do ELS, formado por mercenários (estrangeiros), opositores e desertores sírios pagos pelo Qatar e comandados por oficiais da Arábia Saudita, monitorados por agentes da CIA”.

Os “007 de Londres” assim chamados no Sunday Times, trabalham para organizar os bandos armados que são trazidos da Líbia, e junto com as” tropas especiais do SAS e os agentes especiais M15 que monitoram os ataques das tropas do ELS no enfrentamento contra unidades do exército regula sírio…”

Invasão Síria por procuração

A invasão da Síria por procuração se processa da seguinte forma, isto relatado por um dos “007 de Londres”: “…diz ter dirigido e participado em uma emboscada nos arredores de Alepo contra 40 blindados do exército regular sírio…”

Estamos falando de monitorar brigadas mecanizadas de 500 a 1000 homens, armados de canhões anti-tanques, foguetes RPG-7 e metralhadoras pesadas de 50mm. Armas que saem das bases britânicas, francesas, italianas e alemães da Otan e chegam a Bengasi na Líbia, para depois ser transportadas até a base turca da Otan, em Adana, onde os rebeldes do ELS mantém seu comando geral.

O jornal alemão Bild AM Sonntag, confirmou o que o governo Sírio já havia denunciado: “…um navio espião alemão, do BND ( Bundesnachrichtendienst), equipado com várias centrais para espionar telecomunicações sírias, continua navegando nas águas territoriais da Síria. A função deste navio espião é de gravar todas as mensagens e as comunicações militares e dos membros do governo e do Estado-maior e também descobrir com o scanner satelitizar movimentação das tropas sírias até um raio de 600 quilômetros da costa.”

“As informações e vídeos são depois, despachados para o comando operativo regional da CIA e do M125 britânico que, após ter executado uma leitura estratégica transmitem ao Comando Militar turco as orientações que devem ser repassadas aos comandantes do ELS….”

Para a vergonha da Comunidade Internacional, e verdade revelada pela imprensa europeia em três países da Otan, sobre a Síria, contradiz tudo o que foi divulgado pela imprensa-empresa há 18 meses.

Não é o veto de China e Rússia no Conselho de Segurança da ONU que dificultam o dialogo e a busca de uma solução civilizada para o conflito na Síria, mas sim: a ingerência descarada da Otan, EUA e CCG (Conselho de Cooperação do Golfo) que desde o início arquitetam a derrubada do governo Sírio apoiando criminosamente o ELS e infiltrando na Síria grupos salafistas (extremistas da Irmandade Muçulmana) e instigando os desertores mediante somas pagas pelo Qatar (10.000 dólares mês pagos ao simples soldado e até 100.000 para coronéis e generais).

Infelizmente o Relatório da Comissão Independente dos Direitos Humanos, não cita esta violação dos Direitos Humanos. Considerando que são os mesmos “atores”, que financiam as atividades da Comissão e que indicam seus informantes (sempre da oposição) e, que até hoje esta comissão não esteve na Síria, podemos concluir que o seu relatório, já nasceu tendencioso. Foram os mesmos “atores democráticos” que não permitiram que o Relatório do General Mood sobre o massacre de Hula pudesse ser lido no Conselho de Segurança da ONU em 26 de maio de 2012.

Direitos humanos: negócio lucrativo

O brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro entregará a ONU uma lista confidencial de nomes de indivíduos e de unidades militares que teriam cometido crimes contra a humanidade na Síria. Um amplo banco de dados… base para um eventual processo no Tribunal Penal Internacional.

O governo americano e os seus aliados do CCG, já indicaram que irão propor uma ampliação e fortalecimento do mandato de Pinheiro para continuar a investigar os crimes cometidos na Síria. “A crise não acabou e o que o comitê de inquérito fez foi fundamental para reunir dados sobre crimes”, explicou a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Eileen Donahoe. “Queremos renovar o mandato da investigação e dar apoio financeiro para que possam fazer seu trabalho”, indicou a diplomata.

Washington não nega que o trabalho de Pinheiro tem ajudado o país.

* Autora de “Imigração Árabe, cem anos de reflexão”; vice-presidente da Fearab-América
Fonte: IAnotícia