As mulheres não dizem “nós”?

“Apenas reconhecendo as condições socioeconômicas que separam as mulheres e impedem muitas delas de acessar direitos básicos é que podemos construir um feminismo para todas”.

Mulheres se mobilizam no Brasil de 2020 - Ilustração: Bonbon Oiseau

Esta segunda década do século XXI, através da ampliação do acesso à internet, testemunhou a disseminação de conteúdo “feminista” e a associação desta categoria a uma perspectiva identitária. Os sentidos da palavra foram (e ainda são) objeto de uma acirrada disputa, porém, feminista deixou de ser ofensa para muita gente. O esteriótipo da feminista feia (e todos os estereótipos que esta ideia acarreta) encontrou oposição no ideal da “feminista e feminina”, o que se verifica principalmente na rápida captura de termos e ideias por parte da mídia e marcas.

Em suma, nestes últimos anos, a internet proporcionou às mulheres (talvez majoritariamente às mais jovens, escolarizadas e de renda média) o acesso a discussões urgentes, mas silenciadas ou desnomeadas. E isso tem um importante impacto geracional. É preciso reconhecer, porém, que feminismo é esse que chega à maioria das mulheres? Um feminismo insuficiente, que propõe supostamente igualdade, mas que se resume a uma brecha para ascensão socioeconômica de uma parcela limitada de mulheres. Esse feminismo que ignora as questões de raça e classe, que vende soluções individuais para problemas coletivos, que faz vista grossa para o papel do Estado na promoção dos direitos humanos das mulheres, esse feminismo é a armadilha que engole o futuro.

É preciso questionar as simplificações alardeadas por este feminismo midiático. Ele nos faz crer que o passo primeiro de uma é muito, quando podemos sonhar alto e para todas. Não apenas aborto legal e seguro, mas um sistema de saúde que garanta os direitos sexuais e reprodutivos para todas e todos aqueles que precisam. Não apenas salários iguais, mas salários dignos para todas e todos os trabalhadores. Não apenas terceirizar os trabalhos domésticos e trabalhar fora, mas reorganizar a divisão sexual do trabalho que desvaloriza e invisibiliza o trabalho exercido por mulheres, seja ele remunerado ou não. Estes são apenas alguns dos pontos de reflexão possíveis e imediatos.

Um importante exercício mental que talvez sensibilize as mulheres que se sentem inspiradas pelo feminismo individualista é o de pensar na sua própria genealogia. Quem são as mulheres que te precederam? Sua mãe e tias, suas avós, bisavós, quem foram essas mulheres? Elas puderam estudar? Até que nível educacional? Trabalhar fora? Quantos filhos tiveram? Foram casadas? Puderam escolher? Contaram com a colaboração dos pais de seus filhos nos cuidados das crianças? E nas tarefas domésticas? Dispunham de pessoas que faziam o trabalho doméstico por elas? Administraram o próprio dinheiro? Elas possuíam dinheiro ou propriedade? Elas puderam dizer o que pensavam? Puderam pensar em voz alta? Estas são algumas perguntas importantes na reconstrução de trajetórias das mulheres que te precederam e as respostas podem te fazer refletir sobre como a condição de vida que você, enquanto mulher, tem hoje, é resultado dos avanços proporcionados por suas ancestrais. Portanto, você pode até estar convencida que o feminismo pode ser uma prática individual, mas há de concordar comigo que a sua própria história é permeada por esforços coletivos anteriores à sua existência.

Reconhecer-se mulher neste mundo significa que a sua condição de mulher influenciou e influencia a forma como você existe e em diferentes níveis, determinou o acesso que você teve a certos recursos (educacionais, políticos, econômicos e sociais). Ninguém existe mulher sem que isto signifique algo, nem mesmo as mulheres mais privilegiadas, que não experienciaram quaisquer tipos de violência, opressão ou limitação, escaparam da socialização feminina e seus processos de adequação e domesticação (que variam, obvia e culturalmente, no tempo e espaço).

O principal desafio diante deste cenário talvez seja uma prática feminista efetivamente solidária e para as mulheres que se encontram em lugar de privilégio isto significa repensar discursos colonialistas e de salvação, aprofundar os debates sobre direitos para além dos desejos individuais e utilizar os próprios privilégios para colaborar com a luta coletiva. Apenas reconhecendo as condições socioeconômicas que separam as mulheres e impedem muitas delas de acessar direitos básicos é que podemos construir um feminismo para todas.

Ananda Beatriz Marques é cientista política, professora e feminista.