A China obriga-nos a mudar, para melhor!

A China constitui, para nós ocidentais, uma oportunidade de redenção por nos obrigar a adotar mudanças drásticas de comportamento.

Chineses mobilizados para conter o coronavirus

Um dos primeiros livros com o qual tive contato quando cheguei na China, em 2012, foi a obra do português Carlos Frescata “A China Obriga-nos a mudar”. O livro, publicado em junho de 2008, é fruto da pesquisa do autor em solo chinês realizada a partir de 1992 em função do seu doutorado em engenharia agrônoma pela Universidade Técnica de Lisboa. Apesar da leitura prazerosa, a discussão ambiental não criou raízes em mim. Entretanto, o seu título – curto, afirmativo e enfático – nunca mais saiu da minha memória.

Uma das teses principais contidas ali e que mais me chamou atenção é a de que a China constitui, para nós ocidentais, uma oportunidade de redenção por nos obrigar a adotar mudanças drásticas de comportamento. Isso pode parecer óbvio hoje, mas era algo ainda muito vago há oito anos. Quem dirá em 2008, a partir da leitura de uma realidade chinesa do início da década de 1990! 

Hoje, quem poderá afirmar que a China não nos obrigou a mudar quando o governo brasileiro se viu impelido a enviar ao Congresso um projeto de lei de quarentena para os nossos compatriotas que estavam em Wuhan precisando ser repatriados imediatamente? Estamos falando do Brasil, um país de 211 milhões de habitantes em pleno século 21 e com uma parte importante de sua população engajada num mundo globalizado. Como assim não tínhamos uma lei de quarentena para resgatar brasileiros no exterior em situações como essa e garantir, ao mesmo tempo, a saúde das pessoas no nosso país? 

Veja, para nós acostumados a viver uma vida de desalento quando o tema é política, testemunhamos um governo tendo de sair de trás de desculpas esfarrapadas e enviar ao Congresso uma lei para ser aprovada em regime de urgência. E os representantes oficiais do povo, os tais congressistas, sempre tão indiferentes ao povo, tiveram de se mexer (e rápido!) pelo interesse da população. Não foi esta uma vitória da nossa democracia conquistada a partir do nosso relacionamento com a China? Vimos, inclusive, a representação consular do Brasil na China percorrer de carro uma distância enorme para ir em socorro dos brasileiros em Wuhan, estabelecendo um exemplo dentro do Itamaraty. 

Vimos, também, o presidente brasileiro e a ministra da agricultura se solidarizarem publicamente com o governo e o povo da China na sua dura e longa luta contra o coronavírus. Isso fez com que o Brasil aplicasse uma política externa independente livre de ideologias e pautada nos nossos interesses concretos e de longo prazo. A China não mudará seu sistema político por causa do Brasil. A China, do jeito como é, é fundamental para nós. Mudarmos nosso comportamento em relação a ela é agirmos em favor do nosso povo.  

Outra mudança de comportamento que vamos começar a experimentar muito em breve é a desconstrução da parte sensacionalista da nossa mídia. Refiro-me àquela parte irresponsável da mídia que aterrorizou nosso povo pintando um quadro falso da realidade na China nesses dias de coronavírus. A maioria dos veículos de comunicação que querem nos ouvir aqui na Ásia chegam com suas pautas já prontas. Querem nos usar para mostrar uma China caótica, em pânico e colapsando. Nada disso é verdade, não até agora. A verdadeira China, ordeira e comprometida com sua a luta contra o vírus, e apoiando o seu governo forte e centralizador [sim!] de recursos e esforços, irá começar a aparecer no Brasil muito em breve. A verdade vai se impor e a mídia vai ter de construir outra narrativa que não essa apocalíptica que estão vendendo agora. E essa mudança, para uma mídia que relata e informa a realidade como ela é, é basilar se quisermos avançar rumo a um Brasil melhor. 

Tudo isso, e muitos outros exemplos que pude presenciar aqui na China ao longo desses meus últimos oito anos, me fazem ter a certeza de que, como disse Carlos Frescata, a China obriga-nos a mudar. A China está ajudando o Brasil a amadurecer, a tomar decisões racionais e lógicas segundo os seus interesses. E esse é um caminho de amadurecimento grandioso que a nossa bela democracia tem o direito de percorrer. Sim! A China obriga-nos a mudar, para melhor! 

Natural de Campinas-SP, é analista de relações internacionais e há oito anos vive na China, onde fez seu mestrado em diplomacia pública. 

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