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Charles Darwin, 211 anos

Comemoramos hoje, 12 de fevereiro, o 211º aniversário do naturalista Charles Darwin, responsável pela maior revolução científica de todos os tempos, iniciada com a publicação de A Origem das Espécies, que desvendou de uma vez por todas a origem comum de todos os seres vivos e a sua evolução pelo mecanismo da seleção natural.

Foto: BBCMundo.com

Há 11 anos, eu publiquei na revista Reportagem, da Editora Manifesto, o artigo reproduzido abaixo, para comemorar os 150 anos de publicação da Origem, poucas semanas antes de eu viajar até a casa de Darwin, em Kent, nos arredores de Londres, onde passei todo o dia 24 de novembro, comemorando o feito. O artigo oferece algumas informações básicas sobre o grande cientista e a sua obra.

Desde então, houve muitos avanços nos estudos da evolução, destacando-se, por exemplo, a edição de genes pela técnica conhecida como CRISPR/Cas 9, um mecanismo que as bactérias já usam há milhões de anos para se defender de certos vírus, cortando trechos de sua sequência genética. Oportunamente, voltaremos ao assunto aqui no Jornal do Romário.

Na minha opinião, não existe área científica mais fascinante do que a biologia, por lidar com as engrenagens da vida, e não apenas da vida humana. O lamentável é que até hoje temos de combater ideias preconceituosas, regressivas, puramente ideológicas, disfarçadas em novas versões do velho criacionismo, um asilo da ignorância.  

150 anos de A Origem das Espécies, a obra-prima do capelão do Diabo.

Com esse livro, Charles Darwin desferiu um golpe profundo nas ideias religiosas que infestavam a ciência de sua época.

Imagine uma ex-aluna de Chopin tocando piano para minhocas. Isso mesmo, minhocas! O piano é um Broadwood, e a pianista, Emma Darwin, née Wedgwood, prima e mulher de Charles Darwin. A cena aconteceu no início de 1881, quando o naturalista inglês, com 72 anos, já alquebrado e sofrendo crises de angina, conduzia, com a ajuda da família, aquela que seria a sua última experiência científica.

Na ocasião, testava a sensibilidade das minhocas aos sons. Emma tocou o mais forte que pôde. O Estudo Revolucionário Op. 10, nº 12, talvez? Ninguém registrou. Sabe-se que o filho Frank participou do “recital” tocando fagote. O neto de quatro anos e meio, Bernard (Abbadubba), soprou um apito de estanho, e a filha Bessy gritou o mais alto que pôde. Em vão, relatou Darwin no primeiro capítulo do livro A Formação de Húmus Vegetal pela Ação das Minhocas, com observações sobre seus hábitos, o último que publicou em vida. “As minhocas não possuem qualquer sentido de audição.” Em compensação, “elas são extremamente sensíveis às vibrações de qualquer objeto sólido. Quando os vasos contendo duas minhocas, que haviam ficado indiferentes ao som do piano, foram colocados sobre o instrumento, e a nota Dó grave, golpeada, ambas se esconderam nos buracos. Depois de um tempo, voltaram à superfície, e quando a nota Sol aguda foi tocada, elas se retraíram”.

O leitor deve achar extravagante essa atenção que um dos maiores cientistas de todos os tempos dispensou às minhocas. Sentimento semelhante foi expresso pelo professor de biologia e agitador social Edward Aveling – futuro companheiro de Eleanor, a filha caçula do líder comunista Karl Marx – durante um jantar que Darwin ofereceu, no dia 28 de setembro de 1881, a Ludwig Büchner, filósofo materialista e fundador da Liga dos Livre-Pensadores da Alemanha. Pacientemente, Darwin explicou a Aveling que vinha estudando os hábitos daqueles bichinhos há 40 anos. Pode-se dizer que, no final da vida, ele mantinha a coerência: já que todas as formas de vida têm uma origem comum, o mais sensato em termos de método era não privilegiar nenhuma delas, fossem cracas, pombos, tentilhões, fungos, orquídeas, homens ou minhocas.

A conversa, segundo a dupla de biógrafos Adrian Desmond e James Moore, enveredou para a questão do ateísmo. Darwin se confessou um “agnóstico”, termo cunhado havia mais de 20 anos por seu amigo Thomas Huxley. O livro sobre as minhocas foi lançado no mês seguinte, alcançando grande sucesso editorial. Vendeu seis mil exemplares no prazo de um ano.

Lento e doloroso

Consciente da precariedade da saúde e muito prático, Darwin já havia redigido o testamento. Tratou então de usar o resto das forças para completar a autobiografia, a maior parte da qual já havia redigido em 1876. Seis meses depois, no dia 19 de abril de 1882, falecia em sua casa, em Downe, Kent, hoje um subúrbio de Londres, onde viveu praticamente confinado desde 1842, desenvolvendo seus estudos e experiências numa estufa, no estúdio, nos amplos jardins que ele mesmo cultivara e na estradinha Sandwalk, construída para fazer caminhadas no meio de um bosque.

A morte, em decorrência de insuficiência cardíaca, foi dolorosa e demorada, com náuseas, espasmos e vômitos de sangue. Durante a agonia, Darwin disse que não tinha medo de morrer, fez uma última declaração de amor a Emma e se mostrou ansioso com o desenlace. Alguns goles de uísque o confortaram no finalzinho, contam seus biógrafos Desmond e Moore. 

A família preparou-se para enterrá-lo no adro da igreja em Downe. Porém, o amigo Huxley e o primo Francis Galton discordaram, iniciando uma campanha para levá-lo para a Abadia de Westminster, o lugar de descanso mais honroso para os heróis da Grã-Bretanha. Com o auxílio de grandes figurões da política, da imprensa e da comunidade científica, convenceram a família e as autoridades eclesiásticas. Sete dias depois, o corpo do “maior inglês desde Newton”, como afirmou The Pall Mall Gazette, seria sepultado justamente sob o monumento de Sir Isaac Newton, o homem que, segundo a versão popular, havia deduzido da queda de uma maçã a lei da gravitação universal. Uma medida justa, pois o novo vizinho, de maneira ousada, também havia experimentado do fruto da árvore do conhecimento.

Veredas de paz? 

O clima da cerimônia fúnebre era de conciliação entre a fé e a ciência. Além de legítimo herói nacional, quase todo mundo considerava Darwin uma espécie de santo secular, que havia trabalhado arduamente para ampliar a glória científica dos britânicos. Um organista compôs um hino especial para a ocasião, com versos retirados dos Provérbios de Salomão (Pv 3-13,15-17): “Feliz o homem que acha a sabedoria e o homem que adquire o conhecimento. [Essa mercadoria] é mais preciosa que as pérolas, e tudo o que podes desejar não é comparável a ela. O alongar-se da vida está na sua mão direita, na sua esquerda, riquezas e honra. Os seus caminhos são caminhos de delícias, e todas as suas veredas, de paz”.

Desmond e Moore ironizam a “mensagem sacrílega não darwiniana” contida nesse último verso, entoado por meninos cantores de batina. De fato, Darwin achava que o reino natural não tinha nada de pacífico e que algum “capelão do diabo” poderia escrever um livro formidável sobre as “obras da natureza – desastradas, perdulárias, ineficientes, vulgares e horrivelmente cruéis”.

Muito mais ironia haveria, porém, se o compositor do hino, J. Frederik Bridge, tivesse transcrito o versículo seguinte do capítulo 3 dos Provérbios, o de número 18: “É árvore de vida para os que a alcançam, e felizes são todos os que a retêm”. Tendo desenvolvido, na primeira edição de A Origem das Espécies, de 1859, o conceito da árvore da vida ramificada, para demonstrar que todos os organismos descendem de um ancestral comum, Charles Darwin – ele próprio no papel de “capelão do diabo” – havia selado a separação entre a fé e a ciência e encontrado uma explicação racional para a origem dos seres vivos. Com isso, inaugurava a maior revolução científica de todos os tempos, embora isso só fosse plenamente reconhecido quase cem anos depois.

Considerada por Darwin um simples resumo de uma obra maior que vinha escrevendo (“enrolando” é o termo mais correto) havia mais de 20 anos, a primeira edição de A Origem das Espécies foi lançada em Londres, em 24 de novembro de 1859. Embora fosse um “resumo”, o autor disse que se tratava de um “longo argumento”. Coerentemente, o seu título era quilométrico: “Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida”. Para completar, longa também é a história desse livro, que remonta à viagem empreendida por Darwin a bordo do Navio de Sua Majestade Beagle pelos mares do Sul entre 27 de dezembro de 1831 e 2 de outubro de 1836.

Antiescravismo 

Alguns biógrafos, como Janet Browne, recuam no tempo ainda mais, dizendo que a semente de suas ideias germinou na Universidade de Edimburgo (Escócia), onde Darwin permaneceu dois anos cursando medicina. Faz sentido. Lá ele aprendeu a empalhar animais com John Edmonstone, um ex-escravo negro das Antilhas, que reforçou as suas ideias antiescravagistas – uma bandeira de sua família – e o convenceu de que brancos e negros compartilham a mesma humanidade. Essa ideia seria fundamental para os estudos posteriores, que o levaram a defender o monogenismo, isto é, a origem comum das “raças” humanas, em oposição ao poligenismo, defendido pelos escravagistas norte-americanos, que se utilizavam dessa hipótese para justificar a suposta superioridade dos brancos.

Destaque-se que Darwin não tratou da ascendência humana em A Origem das Espécies. Seus estudos sobre o assunto só foram publicados 12 anos depois, em A Descendência do Homem e Seleção em Relação ao Sexo. Foi também em Edimburgo que Darwin estudou com Robert Grant, um pesquisador de animais marinhos e evolucionista lamarckiano, defensor da tese de que a esponja foi o ancestral comum dos seres vivos.

Estilo “tosco” 

O estilo peculiar do texto de A Origem das Espécies mereceu críticas díspares. Friedrich Engels, que adquiriu um dos 1.250 exemplares da primeira edição, todos vendidos no dia do lançamento, qualificou Darwin, numa carta escrita a Karl Marx no dia 12 de dezembro de 1859, como “absolutamente esplêndido”, apesar do estilo “tosco”. “Havia um aspecto da teleologia que ainda precisava ser derrubado, e agora isto foi feito. Até hoje nunca houve uma tentativa tão grandiosa de demonstrar a evolução histórica na natureza, e certamente tão bem-sucedida. É preciso, naturalmente, aguentar o tosco método inglês.”

A queda da teleologia, a ideia de que as coisas da natureza foram criadas com finalidades determinadas, foi um dos maiores feitos de Darwin, como se verá adiante. Dois dias antes, o próprio Darwin, numa carta dirigida ao geólogo Charles Lyell, seu amigo e colaborador, contou que Richard Owen, superintendente dos Departamentos de História Natural do Museu Britânico, havia achado seu estilo muito personalista. “Não queremos saber em que o Darwin acredita e do que está convencido, mas o que ele é capaz de provar.” Darwin concordou, “da maneira mais plena e sincera”, e se comprometeu a revisar os “acreditos” e os “convencidos” na edição seguinte. Owen, porém, o interrompeu: “Nesse caso, você estragará seu livro, cujo encanto está em ele ser o próprio Darwin”.

Encantador 

Mesmo tendo sido redigido às pressas, com lapsos que o próprio Darwin corrigiria nas cinco edições posteriores, o livro tem mesmo encanto. Sua fluidez decorre, em grande parte, das observações diretas de fenômenos naturais que qualquer pessoa pode ver, e com a vantagem de ser isento de gráficos, termos técnicos e notas de rodapé. Certos trechos são arrebatadores, como o último parágrafo do último capítulo, uma síntese da nova teoria. Darwin diz que é interessante observar um terreno coberto de plantas de várias espécies, com pássaros cantando nas ramagens, insetos voando ao redor e minhocas rastejando no solo úmido, e depois refletir que todas essas elaboradas formas de vida, tão diferentes umas das outras e dependentes umas das outras de maneira tão complexa, foram todas criadas de acordo com leis que atuam em nosso entorno.

Ele menciona entre essas leis o crescimento com reprodução, a hereditariedade, a variedade decorrente da ação direta e indireta das condições de vida e do uso e desuso (ops, aqui Darwin comete um deslize lamarckiano!), a taxa de crescimento tão alta que leva à luta pela vida e, em consequência, à seleção natural, implicando a divergência dos caracteres e a extinção das formas menos aperfeiçoadas. “Assim, da guerra da natureza, da fome e da morte, resulta diretamente o mais elevado objeto que somos capazes de conceber, especificamente, a produção dos animais superiores.”

O final do parágrafo é famoso: “Há grandiosidade nesta visão da vida, com os seus diversos poderes originalmente concentrados num pequeno conjunto de formas ou mesmo numa única forma. Enquanto este planeta continuava a girar de acordo com as leis fixas da gravidade, uma quantidade infinita de formas tão belas e admiráveis emergia de um começo tão simples, evoluía e continua, ainda hoje, a evoluir”.

Não há como deixar de comparar alguns dos trechos de A Origem das Espécies com o tom solene, a concisão e a elegância da prosa da Bíblia na versão clássica do rei Jaime, que Darwin leu incontáveis vezes quando estudava teologia em Cambridge, para se tornar pastor. Era mesmo necessária certa pompa no estilo para desbancar a doutrina da criação contada no Gênesis. No capítulo 14 da primeira edição de A Origem, depois de recapitular os principais fatos e considerações que o convenceram de que as espécies mudaram e ainda estão lentamente mudando “pela preservação e acumulação de variações sucessivas, ligeiras e favoráveis”, Darwin se pergunta por que os mais eminentes naturalistas e geólogos de sua época rejeitaram essa ideia. Ele diz que “a crença de que as espécies eram produções imutáveis era quase inevitável quando se pensava na curta duração da história do mundo”.

A criação: 23/10/4004 a.C. 

Em meados do século XIX, era generalizada a crença de que o mundo havia sido criado recentemente e que as espécies eram fixas. Ainda tinha muito crédito o arcebispo irlandês James Ussher (1581-1656), que, baseado na cronologia de certas histórias bíblicas, calculara o exato dia em que o mundo fora criado: a véspera de 23 de outubro do ano 4004 antes de Cristo, um domingo. Mas, como lembram os irmãos Brody em As Sete Maiores Descobertas Científicas da História, uma série de descobertas dos herdeiros do Renascimento iria gradativamente solapar os ensinamentos da Bíblia e criar o caldo de cultura em que tomou corpo a teoria de Darwin.

Em meados do século XVII, o naturalista francês Isaac de La Peyrere aventou que algumas pedras com formato estranho, encontradas no interior da França, foram esculpidas por homens que viveram antes de Adão. Em 1749, o naturalista francês Georges-Louis Leclerc de Buffon publicou o livro que lançou as bases científicas da geologia e da biologia, sugerindo que os animais haviam sofrido algum tipo de mudança evolutiva e que a Terra poderia ter uns 35 mil anos. Em 1771, Johann Friedrich Esper encontrou ossos humanos numa caverna na Alemanha junto ao esqueleto de um urso extinto. Dezenove anos mais tarde, perto de Hoxne (Inglaterra), John Frere descobriu ferramentas de pedra lascada ao lado de ossos de animais extintos. Esses achados multiplicaram-se na Europa e foram formando uma imagem da Terra não descrita na Bíblia. Nela não consta, por exemplo, que a arca de Noé tivesse abrigado mamutes, rinocerontes lanosos ou tigres-dentes-de-sabre.

Além das evidências fósseis, surgiram teorias geológicas que comprovaram a antiquíssima idade da Terra, requisito central para a lógica da teoria darwinista. Em 1785, James Hutton apresentou à Real Sociedade de Edimburgo a sua Teoria da Terra, em que descreve a formação dos solos por meio do gradual desgaste das rochas pelas chuvas e ventos, a erosão das costas pelas ondas, a formação de colinas pela sedimentação etc., e não, principalmente, por catástrofes como os terremotos e as inundações. Com sua obra, Hutton fundou a geologia moderna e definiu o princípio do uniformitarismo, segundo o qual as mesmas leis e processos naturais que atuaram no passado continuam atuando no presente em todo o universo.

Darwin tomou conhecimento dessas teorias a bordo do Beagle, quando ganhou do capitão do navio, Robert Fitzroy, o primeiro volume da obra de Charles Lyell, Princípios de Geologia, publicada em 1830. Lyell desenvolveu as ideias de Hutton, comprovando-as com grande quantidade de exemplos recolhidos em suas longas viagens pelo mundo.

“Pela primeira vez na história, pareceu que a Terra poderia ter até mesmo milhões de anos de existência”, anotaram os irmãos Brody. Já não era mais “quase inevitável”, como havia dito Darwin, continuar a crer na imutabilidade das espécies, pois a Terra tinha idade suficiente para que as espécies tivessem evoluído lentamente.

Enquanto isso, novas provas fósseis da evolução iam se acumulando. Em 1830, o paleontólogo belga Philippe-Charles Schmerling descobriu utensílios de pedra e dois crânios humanos junto a esqueletos de rinocerontes e mamutes extintos. Em 1838, o arqueólogo francês Jacques Boucher de Perthes achou machados de sílex e outras ferramentas no norte da França. Foi nesse caldo de cultura, portanto, que a teoria darwiniana floresceu.

Da Grécia Antiga 

Darwin não foi o pioneiro da ideia da evolução, no entanto. Antes dele, o princípio de que os seres vivos surgiram e se desenvolveram na própria Terra, sem o sopro divino, já tinha sido formulado pelo grego Epicuro (341 a.C. – 270 a.C.) e pelo romano Lucrécio (99 a.C. – 55 a.C.), mas ficou esquecido por mais de 20 séculos. Mais recentemente, vários estudiosos haviam desenvolvido ideias evolucionárias. O sueco Carlos Linnaeus, autor de Sistema da Natureza (1735), que estabeleceu as bases da classificação científica dos organismos, ficou em dúvida sobre o surgimento de novas espécies e, nas últimas edições da obra, retirou a afirmação de que elas são fixas. Darwin reconheceu que o conde de Buffon foi o primeiro em tempos modernos a abordar a questão em termos científicos e que o naturalista Jean-Baptiste de Lamarck foi o autor, em 1809, da teoria mais popular até então, ao atribuir a principal causa da evolução aos efeitos do hábito (fator uso e desuso ou herança dos caracteres adquiridos) e propor uma lei do desenvolvimento progressivo.

O próprio avô de Darwin, Erasmus Darwin, em sua Zoonomia (1794-1796), havia antecipado algumas das conclusões (e erros) de Lamarck. A lista inclui o naturalista francês Geoffroy Saint-Hilaire, o poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe, o sociólogo Herbert Spencer e muitos outros, que Darwin arrolou num esboço histórico do progresso da ideia da evolução, acrescentado à terceira edição de A Origem, em 1861, em resposta aos que o haviam acusado de negar crédito aos seus predecessores.

Um ano antes de lançar seu livro mais famoso, Darwin, em conjunto com o naturalista Alfred Russel Wallace, já havia publicado um resumo da teoria da seleção natural. De início, havia pensado em publicar um catatau intitulado Seleção Natural, no qual vinha trabalhando havia 20 anos. Em junho de 1858, porém, recebeu um envelope de Wallace, que estava fazendo pesquisas em Ternate, nas Índias Orientais. Foi um choque: Wallace tinha redigido um artigo expondo a mesmíssima teoria da seleção natural. Segundo Darwin, a coincidência era tão grande que, “se Wallace tivesse meu rascunho escrito em 1842, não poderia ter feito resumo melhor”.

Em pânico, Darwin escreveu para Lyell, que já o havia advertido há tempos para apressar a exposição de sua teoria, e para o botânico Joseph Dalton Hooker. Os dois amigos acharam que não seria justo Darwin perder a primazia autoral da teoria e, numa manobra rápida, sem consultar Wallace, apresentaram em conjunto à Linnean Society de Londres tanto o artigo de Wallace quanto um resumo redigido por Darwin. Por sorte, Lyell já conhecia os primeiros resultados da pesquisa de Darwin desde 1844, e o parceiro americano de Darwin, Asa Gray, há tempos havia recebido um esboço. Embora sem esconder certa ironia, Wallace ficou satisfeito e honrado com a solução salomônica de Lyell e Hooker.

Com Malthus, o estalo 

Retomando o fio da meada: em que momento Darwin teve o grande estalo? Ele conta na autobiografia que, depois de voltar da viagem do Beagle, em outubro de 1836, pareceu-lhe que seguir o exemplo de Lyell era a melhor opção para entender a questão das variedades das plantas e animais domésticos e selvagens. Abriu seu primeiro caderno de notas em julho de 1837 e, inspirado nos princípios de investigação de Roger Bacon, “e sem qualquer teoria”, começou a colecionar montes de fatos sobre a domesticação de plantas e animais, pesquisando a literatura, aplicando questionários e conversando com criadores e jardineiros. Ficou espantado com a quantidade de livros que havia lido e resenhado e logo percebeu que “a seleção era a chave do sucesso do homem em criar raças úteis de animais e plantas”.

O estalo da seleção natural aconteceu em outubro de 1838, 15 meses depois de começar sua pesquisa sistemática. Darwin conta que, por diversão, leu Um Ensaio Sobre o Princípio da População, no qual o pastor, economista e demógrafo Thomas Robert Malthus defende a polêmica tese de que população humana tende a crescer de maneira exponencial, além dos meios de subsistência, crescentes em razão aritmética. Ainda assim, mantém-se o equilíbrio porque o número de indivíduos é controlado por ações naturais, como as epidemias, ou por ações humanas, como as guerras, o infanticídio e a abstinência sexual.

Malthus reconhecia que esses controles recaem prioritariamente sobre as pessoas mais pobres, mais fracas e doentes da sociedade, “como é a vontade de Deus”. Darwin, já escoladíssimo na observação da “luta pela existência” dos animais e plantas, ficou impressionado com a tese de Malthus. Juntou os pauzinhos: então quer dizer que nascem muito mais indivíduos do que os que são capazes de sobreviver, e os mais fracos são os primeiros eliminados?

Darwin conta: “Ocorreu-me que, nessas circunstâncias, as variações favoráveis tenderiam a ser preservadas, e as desfavoráveis, a serem destruídas. O resultado disso seria a formação de novas espécies. Finalmente, então, eu tinha ali uma teoria para o meu trabalho”.

Fato curiosíssimo é que o mesmo argumento de Malthus serviu de gatilho para a concepção independente de Wallace sobre a seleção natural. Darwin não diz, mas certamente já tinha lido argumento similar ao de Malthus quando estudou a obra do arcebispo William Paley durante o curso de teologia em Cambridge. Ele o admirava por suas elegantes imagens na descrição da adaptação dos animais e plantas ao ambiente e também por sua posição contra a escravidão. Em Teologia Natural ou evidências da existência e atributos da divindade, obra publicada em 1802, Paley escreveu que “a superfecundidade dos animais excede a capacidade ordinária da natureza para acolher e manter a sua prole. Toda superabundância supõe destruição, ou precisa se destruir”. Diferentemente, continuou, “se fosse permitida a alguma espécie se reproduzir naturalmente, sem controle, a comida de outras espécies seria consumida para mantê-la”. Justamente por isso “é necessário que os efeitos dessas prolíficas faculdades sofram redução e é por isso que ocorrem as ‘podas’ entre os animais, pela ação de um sobre o outro”.

Design Inteligente 

A despeito dessa afirmação, coerente com o conceito da seleção natural, o reverendo foi um dos principais alvos ideológicos de Darwin. Isso porque Paley desenvolveu o conceito do projeto ou design inteligente, tornando-se um dos grandes defensores da teleologia, a ideia de que as coisas naturais são criadas com propósitos determinados. É dele o famoso exemplo do relojoeiro, que até hoje serve de base para os criacionistas no combate ao darwinismo. Paley afirmou que, se alguém encontra um relógio durante uma caminhada, imediatamente supõe um relojoeiro, ou seja, o projetista que teria desenhado ou montado aquela máquina. Decorre daí que, se você encontra projetos tão complexos como os seres naturais ou partes deles, como um olho, forçosamente tem de supor um projetista, um designer inteligente, o Criador, enfim.

O contra-argumento de que há imperfeições nas obras naturais não invalida o argumento principal, isto é, a existência do Criador inteligente, dizia Paley, assim como o mau funcionamento do relógio não serve para negar a existência do relojoeiro. Negar essa verdade é ateísmo, decretou o arcebispo. Pois Darwin negou o argumento do designer inteligente de maneira absolutamente consciente. Em uma carta que mandou para o seu parceiro americano, Asa Gray, em 22 de maio de 1860, seis meses, portanto, após a publicação de A Origem, afirmou que não teve a intenção de escrever “ateisticamente”. Disse, porém, que havia miséria demais no mundo. “Eu não posso me persuadir que um Deus beneficente e onipotente pudesse ter criado de propósito os Ichneumonidae [família de vespas] com a expressa intenção de se alimentarem dentro dos corpos vivos das lagartas, ou que um gato deva brincar com ratos. Não acreditando nisso, não vejo a necessidade de crer que o olho foi expressamente projetado.”

Em contrapartida, Darwin escreveu que não estava “satisfeito em mirar o universo maravilhoso, em especial a natureza do homem, e concluir que tudo é o resultado da força bruta. Estou inclinado a olhar para cada coisa como o resultado de leis projetadas, com detalhes bons ou maus, que atuam de acordo com o que nós podemos chamar de acaso”.

Recepção calorosa 

A Origem das Espécies foi recebida pelo público de maneira calorosa. Darwin, que já era popular desde a publicação de O Diário do Beagle, em 1839, tornou-se uma celebridade. Controversa, é claro. Mas o público, que há tempos vinha seguindo as disputas sobre a evolução, estava preparado para acompanhar o debate encarniçado com os criacionistas. Tímido e recatado, Darwin preferiu delegar a defesa pública de suas ideias ao amigo Huxley, desde então conhecido como “o buldogue de Darwin”, por seu tom exaltado e brilhante.

O confronto que Huxley teve, no salão da Associação Britânica para o Progresso da Ciência, em 30 de junho de 1860, com o bispo Samuel Wilberforce, passou para a história como um divisor de águas entre a ciência e a religião. A certa altura, o bispo – conhecido como Soapy Sam, por seu “caráter ensaboado” – perguntou a Huxley se ele era descendente de macacos por parte do avô ou da avó. Em resposta à provocação, Huxley disse que preferia ser parente de um macaco a ter como avô um homem que empregava a inteligência para introduzir o ridículo numa discussão científica.

Até a morte, Darwin preparou mais cinco edições de A Origem, com mudanças substanciais, nem sempre melhores. Na quinta edição, adotou a fórmula de Herbert Spencer – “a sobrevivência dos mais aptos” – como sinônimo de seleção natural, referindo-se, porém, aos organismos mais bem adaptados ao ambiente, e não aos organismos mais fortes. A concessão ajudou na difusão da visão spenceriana, conhecida como “darwinismo social”, uma mistura ideológica de malthusianismo com neolamarckismo. Essa expressão serviu para justificar, “cientificamente”, o arrivismo de grandes capitalistas, como o magnata do aço escocês-americano Andrew Carnegie e o fundador da Standard Oil, John Rockfeller.

A despeito das homenagens prestadas por Darwin ao malthusianismo, transportando para a natureza as taras da sociedade britânica, como disse Marx, os marxistas receberam o darwinismo de maneira entusiástica. No enterro de Marx, em 14 de abril de 1883, no cemitério de Highgate, em Londres, Engels comparou: “Assim como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana”.

Aqui a história produziu uma ironia: quando Spencer morreu, 20 anos depois, suas cinzas foram parar no cemitério de Highgate, numa sepultura bem na frente do túmulo de Marx!

Cinco teorias 

O biólogo Ernst Mayr, considerado “o Darwin do século XX”, explica que a chamada teoria darwinista ou darwinismo, consiste, na verdade, em pelo menos cinco teorias distintas, mais bem compreendidas quando discutidas separadamente. São elas:

  1. As espécies são mutáveis (teoria básica da evolução).
  2. Todos os organismos descendem de um ancestral comum (evolução ramificada).
  3. A evolução é gradual (não existem saltos ou descontinuidades).
  4. As espécies tendem a se multiplicar (a origem da diversidade).
  5. Os indivíduos de uma espécie estão sujeitos à seleção natural.

Mayr enfatiza que apenas as duas primeiras teorias – a evolução como fato e a teoria da origem comum – foram aceitas pela maioria dos biólogos logo após a publicação de A Origem. Essa seria a primeira revolução darwiniana. As outras três – a seleção natural, o gradualismo e a especiação – encontraram forte oposição e só foram recepcionadas pela maioria dos cientistas na década de 1930, com a chamada síntese evolucionista, que uniu as propostas darwinianas aos estudos da biologia celular e molecular baseados nas pesquisas redescobertas de Gregor Mendel. Essa foi a segunda revolução darwiniana.

Mayr explica que o relativo eclipse do darwinismo até a terceira década do século passado se deveu, além da oposição baseada nos dogmas religiosos e na teleologia ou finalismo, ao pensamento tipológico ou essencialista, retirado do repertório de Platão e até então esposado pela maioria dos estudiosos da natureza. Segundo esse pensamento, todos os fenômenos da natureza podem ser divididos em classes (eide, em grego), definidas por sua essência. Um triângulo, por exemplo, é sempre um triângulo, não importando a sua forma. Uma árvore é definida por ter um tronco e uma copa. As variações de uma classe são acidentais e irrelevantes. Portanto, as classes ou “tipos naturais” têm uma essência imutável.

Darwin, no entanto, rompeu radicalmente com esse pensamento, propondo que os seres vivos não são classes constantes, mas populações variáveis. No interior de uma população que se reproduz sexualmente, cada indivíduo é diferente dos demais, aplicando-se esse fato também às populações humanas. Ao contrário do que dizem hoje os fundamentalistas dos genes, a seleção natural atua sobre os indivíduos (os fenótipos) de cada população. Os melhores genes são selecionados indiretamente, portanto. Os indivíduos que melhor se adaptam, num ambiente que também sofre mudanças, são aqueles que têm mais chances de se reproduzir e passar adiante os seus genes. A evolução ocorre a longo prazo, porque dentro de uma população de organismos há um grande número de variedades. Quanto maior for esse número, maior será a estabilidade da espécie, ensina Mayr.

Ciência de qualidade 

O “pensamento populacional” (que não tem nada a ver com as ideias de Malthus) é um dos conceitos mais importantes da biologia e o fundamento da teoria evolucionista moderna, diz o biólogo alemão. A debilidade de Darwin é que ele não conseguiu explicar a origem das variedades no interior das espécies. Na época, quase ninguém conhecia os estudos da genética de Mendel, só retomados nas décadas de 30 e 40 do século XX.

A despeito da lacuna genética nos estudos de Darwin, por que será que o darwinismo alcança tanto êxito 150 depois da publicação de A Origem e por que Darwin é considerado um dos maiores pensadores de todos os tempos? Basicamente porque fez ciência da melhor qualidade, testando as suas hipóteses fora do âmbito ideológico. É óbvio que ele carregava os preconceitos e a ideologia de sua época. Individualista liberal, detestava o socialismo, mas também era um fervoroso antiescravagista e muito atormentado em matéria de religião. Porém, era sobretudo um cientista, um pesquisador obsessivo, comprometido com as evidências.

Ao se comemorar os 200 anos de nascimento de Darwin e os 150 anos de A Origem das Espécies, vale a pena citar um trecho do livro Cosmos, do astrofísico americano Carl Sagan, sobre o papel da ciência, que, mais do ninguém, Darwin soube praticar: “Não existe outra espécie na Terra que faça ciência. Ela é, até agora, uma invenção inteiramente humana, evoluída através de uma seleção natural, no córtex cerebral, por uma razão muito simples: ela funciona. Não é perfeita e pode ser mal utilizada. É somente uma ferramenta, mas até agora a melhor que temos, autocorretiva, progressiva, aplicável a tudo. Possui duas regras. Primeira: não existem verdades sagradas; todas as suposições devem ser examinadas criticamente; argumentos de autoridade não têm valor. Segunda: tudo que seja inconsistente com os fatos deve ser rejeitado ou revisto. Devemos compreender o Cosmos como ele é e não confundir isso com o que gostaríamos que fosse. O óbvio é algumas vezes falso; o inesperado, algumas vezes verdadeiro”.

Jornalista

Fonte: Brasiliários