Como o coronavírus “infectou” a popularidade de Bolsonaro

Para uma ampla maioria de brasileiros, é inaceitável o pouco-caso de Bolsonaro com uma doença que já contabiliza 4.579 casos confirmados e 159 mortes

A segmentação das pesquisas nacionais de opinião em ao menos cinco variáveis – região, faixa etária, gênero, religião e faixa de renda – se tornou uma espécie de regra no circuito político-eleitoral. Cruzando-se esses dados, chegamos a diferentes tipos ou perfis de pessoas, ampliamos nossa compreensão das tendências e qualificamos a interpretação dos levantamentos.

Vejamos, de forma sumária, como esse fenômeno se dá em uma pesquisa de avaliação do governo Jair Bolsonaro. As últimas sondagens do gênero têm apontado um crescimento constante e geral na rejeição ao presidente – e, em especial, à sua gestão na crise do coronavírus. Em praticamente todos os segmentos, o bolsonarismo apresentou alguma desidratação.

É consenso que ações como a participação de Bolsonaro numa manifestação golpista em Brasília, no dia 15 de março, em pleno avanço da pandemia no Brasil, contribuiu para desgastar sua imagem. Da mesma maneira, o irresponsável pronunciamento presidencial em cadeia nacional de rádio e TV, na noite de 24 de março, parece ter ampliado o isolamento político de Bolsonaro.

Embora o bolsonarismo ainda divida opiniões, o apoio ao presidente encolhe dia após dia. Conforme pesquisa do instituto Atlas Político, divulgada na quinta-feira passada (26), o índice de brasileiros que têm uma imagem negativa de Bolsonaro subiu, em uma semana, de 52% para 57%. Já o percentual de entrevistados que têm uma visão positiva do presidente caiu de 41% para 39%.

A diferença aumenta quando se avalia a postura de Bolsonaro no enfrentamento da crise: 61% reprovam e 33% aprovam. Não é difícil entender: 75% dos brasileiros manifestam algum temor em contrair a Covid-19 – ou de perder a vida, ou simplesmente de ficar doente; 84% dizem estar “com medo de perder algum amigo ou membro da sua família por conta de uma infecção”; e 82% concordam com as medidas de restrição impostas sobretudo por governadores e prefeitos, como a suspensão das aulas escolares e o fechamento do comércio.

Para essa ampla maioria, é inaceitável o pouco-caso de Bolsonaro – mais dele do que do conjunto do governo – com uma doença que, nesta segunda-feira (30), já contabiliza 4.579 casos confirmados e 159 mortes, segundo o Ministério da Saúde. Não é à toa que, pela primeira vez na série do Atlas, o índice de brasileiros que defendem o impeachment do presidente (47,7%) é numericamente superior ao de pessoas que rejeitam a medida (45,0%).

Voltemos, agora, à segmentação em tipos da qual falamos no começo do artigo. Reconhecendo-se que qualquer tipologia é uma caricatura a ser lida com ressalvas, qual será o perfil mais provável de um brasileiro favorável impeachment – e qual o protótipo mais aproximado de um brasileiro contrário à deposição de Bolsonaro?

Com base exclusivamente na sondagem do Atlas Político – e em seus recortes de gênero, região, renda, idade e religião –, podemos chegar a esses dois tipos opostos. É muito provável que um homem evangélico da região Sul, na faixa etária dos 25 aos 34 anos, com renda mensal entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, seja enfaticamente contrário ao impeachment. É o tipo mais bolsonarista, de acordo com a pesquisa do Atlas. Em contrapartida, o perfil que mais rejeita Bolsonaro e apoia seu impeachment é o de uma mulher nordestina sem religião, com mais de 60 anos e renda de até R$ 2 mil.

Por fim, vale dizer que reações mais altivas e consequentes frente à pandemia – portanto, diferentes das respostas erráticas de Bolsonaro – têm garantido uma alta na popularidade de políticos de diferentes espectros. É o caso do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta; do presidente da Câmara Federal, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ); e de governadores como Flávio Dino (PCdoB-MA), João Doria (PSDB-SP) e Wilson Witzel (PSC-RJ). A maioria dos brasileiros exaltam até a postura do presidente norte-americano, Donald Trump, ante o avanço do coronavírus nos Estados Unidos.

Jair Bolsonaro pode até ter testado negativo para o coronavírus, mas nada infectou e prejudicou mais sua base de apoio do que o agente causador da Covid-19.

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