Demissão de Mandetta cobrará elevado custo de Bolsonaro

O ministro sai após a publicação de uma pesquisa, do Altas Político, que aponta que 76% são se opõem à sua demissão, num sinal evidente do apoio da grande maioria da população às políticas sanitárias e de distanciamento social

Impensável supor que, durante a crise sanitária mais grave vivida pelo país, o (des)governo, na figura de seu presidente, desencadearia um boicote deliberado contra a condução do Ministério da Saúde cujo único pecado foi seguir o mais estritamente possível as recomendações da OMS, com base, naquilo que o ministro afirmou, ontem, ser a sua principal bússola, na ciência.

Mas, em se tratando de Bolsonaro e o que ele e seu ministro da Economia, Paulo Guedes, representam, do ponto de vista social (ou antissocial), o submundo das milícias inimigas da democracia, e econômico, o grande capital financeiro, adverso do trabalho e da produção, é bem compreensível.

A saída de Mandetta e de sua equipe, confirmada nesta quinta-feira (16), cobrará um custo político de Bolsonaro e seu núcleo mais ortodoxo ainda de difícil mensuração, pois o ministro sai após a publicação de uma pesquisa, do Altas Político, que aponta que 76% são se opõem à sua demissão, num sinal evidente do apoio da grande maioria da população às políticas sanitárias e de distanciamento social.

Bolsonaro conseguiu, finalmente, tirar Mandetta. Resta saber se terá força para mudar o rumo do Ministério da Saúde numa direção oposta à que prevaleceu até hoje.

A demissão de Mandetta foi precedida por importante decisão unânime do STF segundo a qual Bolsonaro não tem poderes para interferir nas regras de isolamento, entre outras, determinadas por governadores e prefeitos no combate ao coronavírus.  

O ministro Gilmar Mendes, em seu voto, foi mais longe ao afirmar que Bolsonaro “dispõe de poderes para exonerar o seu ministro da Saúde, mas não para eventualmente exercer política pública de caráter genocida”.  Só faltou dizer que estamos diante de um presidente que estimula o assassinato em massa.

Uma vitória do país frente aos que se opõem às políticas necessárias e indispensáveis para salvar vidas e, consequentemente, a economia.

Periferia pede socorro!

Enquanto isso, além do processo de interiorização da pandemia, que já está ameaçando de colapso o sistema de saúde nas cidades-pólo do SUS, o coronavírus dá sinais que chegou, silenciosamente – e com força, na periferia dos grandes centros urbanos, um fenômeno tão ou mais perverso que o alastramento do contágio no interior do Brasil. Nessas áreas, em que pese algumas reconhecidas conquistas sociais nas últimas décadas, o Estado e sua rede de proteção social estão ainda muito ausentes, ainda mais agora em tempos de Bolsonaro e Guedes.

Os últimos dados do IBGE disponíveis atestam que, aproximadamente, 13 milhões de pessoas, cerca de 6% da população brasileira, vivem nessas periferias formadas por favelas, grotas, invasões, vilas, ressacas, mocambos ou palafitas, totalizando algo em torno de 3,2 milhões de domicílios, espalhados em mais de 300 municípios de porte médio e grande, locais caracterizados pela precariedade dos serviços públicos, inclusive essenciais (água, esgoto, saúde, escola, transporte), que cresceram desordenamente e sem qualquer planejamento e onde, invariavelmente, a propriedade é alheia, ainda que irregular. Um exemplo dessa clamorosa realidade: a favela do Alemão, no Rio, está há 12 dias sem água.

Apesar dessas populações viverem em condições extremamente desfavoráveis e compreenderem, quando informadas, a importância do distanciamento social, as dificuldades são imensas, pois, em sua maioria, são desempregados que vivem na informalidade e cuja renda despencou ou desapareceu nesse período pela ausência do consumidor em quarentena.

Nesse quadro, como defender o isolamento social se não há comida na mesa que o governo sabota deliberadamente ao dificultar o acesso ao auxílio emergencial, muito menos condições para adotar os procedimentos básicos de higiene considerados essenciais para o combate ao coronavírus? Sem a devida informação, que chega truncada pela postura criminosa do presidente, vivendo em ambientes superlotados e sem condições de seguir as recomendações sanitárias, estocar comida ou trabalhar de casa, os moradores das favelas reúnem as condições de se tornarem as principais vítimas da epidemia, precisamente em regiões em que o apagão de UTIs é iminente.

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