Tempo suspenso: entre a razão e a emoção

Somos muito céticos em acreditar que o aprofundamento da crise gerada pelo coronavírus acena com outras possibilidades históricas fora do modo de produção globalitário atual

Não há dúvidas de que a pandemia do Covid-19 mudou as nossas experiências espaço-temporais. Não temos a certeza de se momentaneamente ou para sempre. Muitas hipóteses têm sido levantadas sobre o que virá posteriormente a ela. Uns falam da falência do receituário neoliberal como regime de regulação do Estado burguês, outros falam da criação de um mundo social mais organicamente solidário e sugerem a morte do narcisismo e do hedonismo como formas de ser dos humanos. Pensamos que entre as fases de expansão, crise e retomada do crescimento nas economias de mercado o que se impõe é mais capitalismo, uma vez que, com a destruição dos pequenos e médios negócios, aprofundam-se os mecanismos de oligopolização e monopolização das atividades econômicas e o capital financeiro improdutivo impõe a sua sanha e se derrama sobre as demais atividades econômicas, controlando-as ou capturando-as a seu favor. Portanto, somos muito céticos em acreditar que o aprofundamento da crise gerada pelo coronavírus acena com outras possibilidades históricas fora do modo de produção globalitário atual. Ainda confiamos em Karl Marx, quando assegura que serão os trabalhadores organizados e conscientes do seu protagonismo histórico que proporão um tempo novo de superação desse sistema econômico baseado na exploração. Condição histórica desautorizada atualmente em virtude da desorganização da massa trabalhadora que, num cenário tecnológico e normativo que espanca o trabalho vivo, adota uma postura competitiva pelos poucos empregos que a economia em crise é capaz de gerar ou busca na informalidade formas de manutenção da sua subsistência. Em outras palavras, a conjuntura desse período não é propícia à solidariedade no mundo do trabalho. Nesse “salve-se quem puder”, cada um está sozinho na luta diária pelo pão de cada dia.

Para entender as mudanças que a propagação do Covid- 19 impõe às nossas experiências espaço-temporais, nos valeremos de uma entre outras possibilidades de leitura geográfica da globalização. Para isso, consideraremos os fenômenos que expressam essa etapa da história humana e que foram propostos pelo geógrafo Milton Santos: a unicidade das técnicas, o motor único da extração da mais-valia, a convergência dos momentos, propiciada pela aceleração contemporânea.

A unicidade das técnicas se configura pelo uso global dos sistemas de tecnologias da informação para produzir e distribuir bens, serviços e capitais, embora com diferentes densidades entre os espaços. Dessa maneira, o uso dessas tecnologias se espalha em uníssono por todos os recônditos do planeta, sobrepondo-se ou substituindo os arranjos técnicos ou culturais com os quais o homem produzia suas formas de existência material. No panorama da pandemia, a unicidade das técnicas, entre outros fatores, facilita a circulação mais rápida do vírus de país para país, através dos meios de transporte mais rápidos e integrados que deslocam, em maior número, as pessoas pelo planeta, notadamente as de maior poder aquisitivo, os turistas, em termos baumaniano, e que se tornaram o hospedeiro e o meio de difusão da infecção.

Em função da propagação da doença entre os trabalhadores, os governos mundiais (ONU/OMS) sugerem e os governos nacionais são obrigados a instaurar o isolamento social para desacelerá-la. Com isso, o motor unitário de extração da mais-valia, que se globalizou e funciona de forma unitária, começa a emperrar porque sem o trabalho vivo não se pode extrair o sobre-trabalho possibilitado pela sua ação direta na produção do trabalho morto que chega até nós em forma de mercadorias. Como consequência disso, a crise do regime de acumulação se aprofunda, comprovando que o capitalismo não existe sem a mais-valia ou que é dela que retira a seiva vital da sua existência como modo de produção. Isso explica a irresponsabilidade de muitos empresários brasileiros e do próprio gestor da federação em propor a volta ao trabalho. Para os que tentam manter o motor em funcionamento, a economia capitalista não pode parar. Apesar de sua ideologia desconsiderar essa leitura teórica, eles sabem que ela não existe sem extrair o trabalhado excedente do trabalhador. Portanto, fica explícito no plano empírico o que os postulados marxistas evidenciaram no plano teórico: a exploração do trabalho é a verdadeira geradora da riqueza. Dessa forma, o trabalhador precisa continuar produzindo o trabalho necessário e o excedente, sendo-lhe impostas, assim, só duas alternativas macabras em meio à pandemia que se globaliza: morrer da doença ou morrer de inanição pela falta do soldo pago pelo seu trabalho necessário.

Quanto à convergência dos momentos, autorizada pelo aparato tecnológico de transmissão de dados e informação em tempo real que permite que os eventos sejam compartilhados em escala mundial, convergindo para a aceleração contemporânea do tempo, ela é perceptível através do compartilhamento da propagação e da tomada de consciência da gravidade da situação por todos os lugares. O evento, apesar de se manifestar com intensidade diferente nos espaços, dependendo de ações exitosas ou não na repressão da praga por cada um deles, é percebido e vivenciado por todos em tempo sem defasagem. A convergência do tempo também se expressa pelo compartilhamento das normas de higienização e dos cuidados repassados em tempo real através das redes sociais e outros meios de comunicação de massa, e dos intercâmbios de experiências de prevenção e de tratamento da doença, de pesquisas sobre a cura e de equipamentos entre cientistas e médicos dos diversos países, dependendo do arranjo geopolítico no qual cada um se insere. Ela se objetiva também na solidariedade e comoção compartilhadas universalmente entre as pessoas.

Entretanto, as medidas para evitar a propagação mundial da Covid-19 colocam sob xeque alguns fatores de ordem espaço-temporal que estão na própria essência da globalidade. Em termos espaciais, parece que a volta das fronteiras nacionais fechadas se constitui como um fator de proteção dos que compartilham da mesma nacionalidade. Isso põe por terra a duas facetas tão decantadas da globalização: a porosidade das fronteiras e a integração dos países em blocos regionais. Não faltam exemplos ilustrativos de fronteiras fechadas para evitar a transmissão acelerada do vírus, isso dentro de configurações regionais sólidas, como é notório na União Europeia.

Em outras escalas, as pessoas, notadamente as que podem e têm ciência da gravidade da situação, evitam circular e recorrem ao espaço domiciliar para se proteger da peste que está lá fora a espreitar a todos. Como afirma Rogério Haesbaert, a casa passa a se configurar como um “território abrigo” contra o mal que circula lá fora. Nisso, as pessoas se reencontram com a escala espacial mais íntima e pouco vivida/sentida na correria diária do tempo acelerado exigido pelo trabalho. Aludindo a Michel de Certeau, redescobrem-se as artes de fazer domésticas antes esquecidas no baú das memórias das gerações mais velhas. Evita-se a conexão direta entre os nós das redes familiares, essa sendo feita por meio das redes imateriais do celular, Facebook e Watshapp. Não há contendas coletivas e nem encontros furtivos e despretensiosos nos espaços públicos; eles precisam ser evitados. O próprio corpo passa a ser um espaço de abrigo mais íntimo e, por isso, evita-se colocá-lo em risco de contato direto com o outro e se exige que se faça a sua assepsia quando esse contato, mesmo com a distância mínima recomendada, não pode ser evitado.

Quanto às mudanças das nossas experiências com o tempo, de repente, o relógio mundial é obrigado a parar. Não para ser reprogramado e funcionar a serviço da solidariedade universal dos humanos, mas pelo medo que se abateu sobre cada um em função do inimigo invisível que não poupa ninguém e circula silencioso em todos os lugares. A aceleração contemporânea é induzida a desacelerar. O elogio à velocidade parece perder o sentido. Todos são conclamados a viver a experiência do tempo lento nos seus territórios existenciais, para se protegerem do miasma de um vírus que corre o mundo na velocidade da nossa estupidez.

A falta de costume de se viver na lentidão produz uma confusão na nossa relação com o tempo medido. O dia ausente, que Mia Couto constatou ser atributo dos domingos, passa a se estender para os demais dias da semana. De repente, parece que Cronos enlouqueceu e as datas do calendário se embaralharam. Mesmo que a rotação continue comandando a sucessão dos dias e das noites, e a translação, a sucessão das estações, o tempo parece suspenso, uma continuidade ininterrupta produzida pela nossa falta de percepção dos dias da semana, dos meses e das estações do ano. Ninguém chegará! Não podemos ir a lugar nenhum! Não há encontros programados! Os compromissos foram adiados para um depois incerto! Transferimos os nossos colóquios interpessoais com amigos e familiares para as redes informacionais. Sentimos que elas não suprimem a necessidade do calor de um abraço, do brilho de um olhar, dos sons de vozes emitidos ao vivo, da espontaneidade dos atos não programados.

O tempo intersticial da natureza, quase imperceptível para os habitantes da tecnoesfera, continua a produzir o espetáculo multicolorido no nascer e pôr do sol todos os dias. A lua continua seu jogo de sedução da Terra, a lançar suas facetas em fases lá fora. No Cariri natal, o verão chuvoso deixou marcas de beleza na verdejante e florida paisagem da Caatinga, ao irrigá-la com abundantes precipitações do tempo atmosférico inconstante e generoso. Os seus rios serpenteiam temporariamente como há muito não se via. As cigarras entoam o seu cantar em uma nota só e os pássaros gorjeiam a felicidade da abundância da estação das chuvas. Não podemos ouvi-los e vê-los, o isolamento social não nos permite voltar lá!

Se, por um lado, a condição de lentidão temporal do isolamento social nos permite constatar o quanto de tempo vivido nos é roubado pelo tempo do autômato que nos escraviza, por outro, revela-nos que esse tempo em respeito à vida é impositivo, suspenso, ausente, contínuo e solitário. Nessa experiência de tempo suspenso, a linha entre a razão e a emoção é muito tênue. Há momentos em que recorremos às palavras da razão para entender essa experiência temporal. Em outros, as palavras vertem em lágrimas e expressam as dores do medo, da aflição, da angústia, da falta, da solidão, mas, principalmente, da incerteza de se o amanhã virá e como ele virá.

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