Ao reagir a Moro, mercado teme por Guedes e governabilidade

Logo após a entrevista coletiva de Moro, o Ibovespa, principal índice do mercado brasileiro, despencou 8,89% e o dólar atingiu R$ 5,70.

(Foto: Marcello Casal/ABr)

A queda de Sergio Moro, que abandonou o governo de Jair Bolsonaro nesta sexta-feira (24), derrubou a bolsa de valores e fez o dólar disparar. Logo após a entrevista coletiva de Moro, o Ibovespa, principal índice do mercado brasileiro, despencou 8,89% e o dólar atingiu R$ 5,70. A demissão do ex-ministro da Justiça também repercutiu mal entre empresários bolsonaristas.

Mas por que a queda de um ministro da Justiça causou repercussão no cenário econômico? Na avaliação de economistas consultados pelo Vermelho, além da queda de um pilar do governo Bolsonaro, há um entendimento de que o ministro da Economia, Paulo Guedes, também está na linha de fogo. Além disso, o crescente isolamento de Bolsonaro coloca em dúvida a governabilidade.

“Tem um lado, que é o que representa, para o governo, um ministro importante. E há outro, pois, se nem ele está sendo poupado, quem é o próximo da lista? Pode muito bem ser o Paulo Guedes”, avalia o economista Paulo Kliass, membro da carreira em gestão governamental do governo federal.

Ele destaca que temores do mercado quanto à permanência de Guedes já vinham ganhando força, com militares preparando um plano de recuperação econômica pós-pandemia, o Pró-Brasil, sem participação do ministro. Incipiente, o projeto prevê financiamento público para estimular a economia. Guedes, no entanto, demoniza o gasto público e só admite investimento privado.

“Esse plano pode ser uma mudança de rota. Por enquanto, não existe. Foi uma declaração de intenções. O problema, para o mercado financeiro, é perceber que o Paulo Guedes está perdendo espaço dentro do governo. Ele continua com a cabeça do discurso de planilha, da austeridade fiscal a qualquer custo. [Com a pandemia], o gasto vai aumentar e isso, para esses caras, é a antessala do inferno”, comentou.

Governabilidade

Marco Rocha, professor do Instituto de Economia da Unicamp, ressalta que o Brasil, como mercado emergente, já vinha sofrendo com a fuga de investidores. Diante de uma crise como a da pandemia da Covid-19, a tendência é a aversão ao risco e a busca por mercados mais seguros.

No entanto, diz, o aprofundamento da crise política contribuiu para a desvalorização do real e reação da bolsa brasileira nesta sexta. “Não é só a questão do ministro da Justiça. São boatos que rondam o mercado desde sempre com relação à permanência do ministro da Economia. Na semana passada, já houve a troca de um ministro da Saúde [Luiz Henrique Mandetta] durante a pandemia. Tudo isso aponta para uma crise de governabilidade. Um dos indícios de crise de governabilidade é a rotatividade no primeiro escalão do governo”, destaca.

O economista também aponta como fator importante da crise o embate entre a ala militar e Paulo Guedes e sua equipe econômica. “Está tendo uma espécie de dissenso da ala militar em relação ao comando da economia durante a crise. O que, provavelmente, vai de encontro à gestão que o mercado tem com o Ministério da Economia”.

Rocha lembra que, em um primeiro momento, o mercado apostou que a crise poderia favorecer o avanço das reformas econômicas. Quando ficou claro que isso não aconteceria e que o ano de 2020 estava perdido, a preocupação passou a ser manter restrições fiscais como o teto de gastos, em uma tentativa de retomar a agenda de austeridade passada a pandemia. “Acho uma falta completa de realismo. Essa camisa de força que esse regime fiscal cria não vai ter como existir diante da crise. Ninguém está preocupado com isso [no resto do munto]”, comenta.