Vietnã: 45 anos da vitória contra o imperialismo dos EUA

Neste 30 de abril se comemora os 45 anos da vitória do Vietnã contra os Estados Unidos numa das mais bárbaras e cruéis guerras já promovidas pelo imperialismo.

A imagem que ilustra este texto é épica: é o retrato da derrota dos EUA, em 30 de abril de 1975, ante as forças do Vietnã.  É  a imagem do pânico dos ocupantes e colaboradores em fuga, tentando embarcar num helicóptero, no teto da embaixada dos EUA em Saigon (atual Ho Chi Minh). 

É a demonstração visual da derrota do imperialismo.

A área total do Vietnã corresponde à do estado Maranhão (em torno de  331.000 quilômetros quadrados) e hoje, 2020, sua população gira em torno de 95 milhões de habitantes. É muito menor que os EUA, em área e população, poderio financeiro, político e militar. Mesmo assim, venceu a guerra e derrotou a maior e melhor armada potência do planeta.

Foi a terceira vez que os vietnamitas derrotaram uma potência colonialista e imperialista.

Em três décadas, venceram três potências – expulsaram os japoneses, que ocuparam o país durante a Segunda Grande Guerra; depois, foi a vez da tentativa francesa de retomar o estatuto de potência colonizadora depois de 1945; e, finalmente, venceu os EUA e sua tentativa de manter o país dividido e o sul comandado por uma ditadura militar fiel ao governo de Washington.

A resistência contra a ocupação estrangeira se manifestou logo no início do século XX, como registrou o Informe Político ao 9º Congresso do Partido Comunista do Vietnã: “Desde o final do século XIX às primeiras décadas do século XX nosso povo nunca deixou de se insurgir contra o colonialismo”.

Em 1905 um grupo de estudantes e intelectuais  organizou o movimento anticolonial contra o domínio francês e promoveu as primeiras lutas anti-imperialistas.

Com a Primeira Grande Guerra, o movimento cresceu. Na década seguinte, surgiram importantes organizações, como Liga Revolucionária da Juventude Vietnamita (1925), fundada por Ho Chi Minh, e o Partido Nacional do Vietnã (Viet-Nam Quôc Dân Dong, VNQDD), em 1927, indicando a força que , a partir de então, o nacionalismo revolucionário teria. Em fevereiro de 1930, o VNQDD liderou uma insurreição contra os franceses que, embora derrotada, foi um marco na luta pela independência nacional. Luta que, no Vietnã teve, desde cedo, um programa revolucionário e socialista. Em 1930, Ho Chi Minh fundou o Partido Comunista do Vietnã, que depois foi chamado de Partido Comunista da Indochina e, mais tarde, de Lao Dong, isto é, Partido do Trabalho do Vietnã, com forte base entre os camponeses e entre os trabalhadores rurais sem terra.

A nova organização foi herdeira da Liga Revolucionária da Juventude, ao lado de  forças democráticas e patrióticas. Em em 1930 e 1931, o novo partido apoiou e organizou greves, protestos e grandes manifestações envolvendo milhares de camponeses e trabalhadores rurais, em luta contra impostos, arrendamentos extorsivos e más condições de trabalho; em alguns lugares foram criados sovietes e tribunais populares. A repressão francesa foi brutal. Em 1932, as prisões e campos de trabalho tinham 32 mil prisioneiros . “Os vietnamitas tem inúmeros mártires desta época; mais numerosos ainda são os mortos anônimos, em cujas sepulturass inscreveu-se apenas ‘trabalhador’”, escreveu Bertrand Russel, o filósofo inglês que, na década de 1960 criou o Tribunal que leva seu nome para julgar os crimes de guerra cometidos no Vietnã.

Ho Chi Minh já era um líder nacional reconhecidoo. Ele fez parte do grupo de patriótas vietnamitas que, na Conferência de Versalhes que reorganizou o mundo depois da Primeira Grande Guerra, teve a ousadia de exigir que os aliados (e a França, em particular), respeitassem a autonomia dos povos da Indochina. Foram rechaçados, mas esta primeira tentativa de negociar a independência teve grande repercussão popular no Vietnã, fazendo a fama daquele que, nas décadas seguintes seria o principal dirigente da resistência nacional.

Com a Segunda Grande Guerra, o quadro começou a a mudar aceleradamente. A França foi ocupada pelos nazistas em julho de 1940, que só reconheceram a autonomia francesa sobre o sul do território nacional, sob um governo pró-nazista títere dirigido pelo marechal Philippe Pétain, um simpatizante dos nazistas.

O Japão, o principal aliado asiático de Adolf Hitler, já desde 1910 extendia suas garras sobre a Ásia; naquele ano, ocupou a Coréia e, mais tarde, a Manchúria, parte do território chinês. Com a queda da França, ocupou também a Indochina, tendo o cuidado de manter – a seu serviço – a burocracia colonial francesa, encarada como “aliada”.

Para enfrentar a nova situação, com a ocupação do país por uma nova potência imperial, o Japão, a liderança comunista, tendo à frente dirigentes como Ho Chi Minh, Vo Nguyen Giap e Phahm Van Dong, formou, em maio de 1941, uma ampla frente patriótica, unindo os vietnamitas, independentemente de sua classe social, mas fossem capazes de atrair os setores mais oprimidos da sociedade. Nasceu assim, em maio de 1941, a Liga da Independência Vietnamita, (ou Viet Nam Doc Lap Dong Minh, conhecido como Viet Minh) e que, na década de 1960, os estadunidenses chamaram de Viet Cong no esforço inglório de tentar incompatibilizar a liga com a população ao dar-lhe o apelido de “comunista” (cong). A Liga uniu a resistência popular, teve enorme repercussão entre o povo e dirigiu a resistência tenaz contra a ocupação japonesa. usando a luta guerrilheira. Quando o fim da Segunda Grande Guerra se aproximava, os japoneses deram um golpe, em 9 de março de 1945, afastaram as autoridades coloniais franceseas e assumiram o controle direto de toda a Indochina. Contudo, naquele ano o Viet Minh havia consolidado sua presença em grandes áreas no país. Assim, diz Bertrand Russel, ao chegar o verão de 1945 “estavam em posição de exigir de fato o poder de Estado”. E agiu rapidamente para consolidar sua posição: em 19 de agosto de 1945 depuseram Bao Dai, o imperador títere dos franceses e japoneses, e formaram o governo nacional em Hanói, a capital do norte. E, em 2 de setembro de 1945, Ho Chi Minh proclamou a independência do Vietnã.

Os colonialistas franceses logo iniciaram ações militares para retomar o domínio do Vietnã, agora com apoio militar inglês. Naquele mesmo ano começou a guerra contra a independência do  Vietnã, e até no final de 1945, os franceses tinham 50 mil soldados no país. Eles ainda fizeram o teatro da negociação encenando, em março de 1946, um acordo que previa eleições gerais e o reconhecimento da independência, dentro da União Francesa. Mas não durou muito, e logo os franceses traíram o acordo. “A presença de tropas da Legião Estrangeira provocou hostilidades imediatas nas cidades”. “Os massacres se tornaram lugar- ccomum”, escreveu Bertrand Russel.

Os franceses reconduziram Bao Dai ao trono  (em abril de 1949) e, desde então, a guerra colonialista assumiu a máscara de defesa do governo “legítimo” do imperador.

A guerra foi longa, com envolvimento crescente dos EUA. Em 1953, o Viet Minh controlava 3/4 do território ao norte do país e 1/3 ao sul. Este foi o ano decisivo da guerra contra os franceses, quando o governo de Hanoi preparou sua maior ofensiva.

O ano de 1954 foi o da batalha final , que ocorreu em Dien Bien Phu, uma importante posição estratégica no norte do país. O ataque, comandado por Vo Nguyen Giap, começou em novembro de 1953, quando a cidade foi cercada. Ela caiu em maio de 1954, numa derrota memorável que colocou a potência colonial de joelhos.

Naquele ano, o envolvimento dos EUA na guerra já era grande. Segundo o “The New York Times” (4/6/1954), citado por Bertrand Russel, Washington já era responsável por 78% dos custos da guerra. E, no começo de 1954, durante o início do cerco a Dien Bien Phu, o secretário de Estado do governo dos EUA, John Forster Dulles, ofereceu a seu colega francês, o chanceler Georges Bidault, o uso de bombas atômicas contra os vietnamitas para romper o cerco em Dien Bien Phu.

A vitória em Dien Bien Phu marcou o início de uma nova etapa na guerra. O armistício com a França, assinado em Genebra, Suíça, em julho de 1954, previa a divisão temporária do país: o norte ficava sob controle do Viet Minh, governado por Ho Chi Minh e seus companheiros. O sul, abaixo do paralelo 17, seria governado por Bao Dai até a eleição que decidiria sobre a reunificação do país. A eleição foi marcada para 1956.

O povo do Vietnã, entretanto, não aceitava a divisão e tudo indicava que em 1956 elegeria seu herói nacional Ho Chi Minh para governar o país e dirigir a reunificação. Antecipando-se à derrota, o primeiro ministro nomeado por Bao Daí, o direitista Ngô Dinh Diem, deu um golpe de Estado. Ele convocou um plebiscito para outubro de 1955, que pôs fim à monarquia e o elegeu presidente da República. Em seguida, rompendo os acordos de Genebra, Diem declarou o sul independente e cancelou a eleição marcada para 1956. O apoio de Washington foi imediato, justificado por uma declaração de 1954 do presidente dos EUA, o general Dwight David Eisenhower, e que lançou a chamada teoria do dominó: “Se você colocar uma série de peças de dominó em fila e empurrar a primeira, logo todas acabarão caindo, até a última… Se permitirmos que os comunistas conquistem o Vietnã corremos o risco de se provocar uma reação em cadeia e todo os estados da Ásia Oriental tornar-se-ão comunistas, um após o outro.”

Diem foi um títere feroz dos EUA. A presença de “conselheiros” militares estadunidenses crescia desde os anos anteriores.

Para lutar contra a ditadura, uma aliança entre comunistas e nacionalistas e patriotas criou, em dezembro de 1960, a Frente de Libertação Nacional (FLN), que inicou a guerra de guerrilhas contra o governo sul-vietnamita. Tentando isolar os combatentes da FLN de sua base camponesa, o regime de Diem – sempre com apoio militar dos EUA – começou a esvaziar os povoados rurais suspeitos de apoiar a guerrilha, alojando a população em “povoados estratégicos” que eram verdadeiros campos de concentração. Foi o reinado do terror, e a polícia secreta logo chegou a ter centenas de milhares de agentes. “Seus processos eram incrivelmente cruéis”, diz Bertrand Russel, que citou denúncias do monge Thich Thien Hao segundo as quais até 1963 foram assassinadas cerca de 163 mil pessoas; outras 700 mil foram torturadas e mutiladas; havia 400 mil presos; 31 mil pessoas foram violentadas; três mil foram estripadas tendo o fígado arrancado enquanto ainda viviam; quatro mil foram queimadas vivas. E o auge da guerra ainda estava longe…

A escalada militar dos EUA na guerra foi exponencial. Suas tropas de ocupação passaram de 900 soldados em 1960 para 11 mil em 1962, 50 mil em 1963, 180 mil em 1965, até o auge de 540 mil em 1969.

Mas a determinação da resistência vietnamita foi demonstrada ao mundo em 1968. Em janeiro daquele ano, a ofensiva do Tet (ano novo lunar)atacou 36 cidades no sul e chegou a ocupar a embaixada dos EUA em Saigon (atual Ho Chi Minh). O ataque arrazador foi contido, mas a vitória política foi inegável, demonstrando ao mundo a disposição de expulsar os invasores e reunificar o país. O impacto sobre o governo dos EUA, e também sobre a opinião pública estadunidense e mundial , foi muito forte: a guerra era cada vez mais impopular, e os políticos de Washington tiveram que admitir que seu fim estava longe, e que o melhor que alcançariam seria uma “paz honrosa” naquele conflito em cujo horizonte estava o espectro da derrota da maior potência financeira e militar do planeta.

A crônica da guerra, a partir de então, foi um rosário crescente de barbáries cometidas pelas tropas de ocupação (um exemplo foi o massacre em My Lai, uma aldeia onde soldados dos EUA estupraram mulheres e mataram pelo menos 102 camponeses, denunciado em 1970).

Houve então grande esforço diplomático para negociar uma paz,  que envolvia a busca da saída honrosa ansiada por Washington, as pretensões do governo sul-vietnamita, e a chantagem militar dos EUA, cujos ataques, principalmente bombardeios aéreos, cresciam nos intervalos das negociações.

Um exemplo foi o bombardeio aéreo de Hanói e Haiphong, entre 18 e 30 de dezembro de 1972, considerado o mais devastador da história. Ao mesmo tempo, a ação dos bombardeiros se generalizou pela península indochinesa, atingindo o Camboja e o Laos.

O Vietnã foi o país mais bombardeado em guerras no século XX. Os aviões dos EUA jogaram sobre seu território 45 milhões de toneladas de bombas, mais do que caiu sobre a Alemanha em toda a Segunda Grande Guerra. A criminosa guerra química teve larga aplicação, com o uso desde bombas de napalm até desfolhantes químicos de vários tipos – o principal deles foi o desfolhante chamado agente larajna – despejados sobre florestas e também sobre plantações, envenenando a terra, rios e lagos.

Bertrand Russel citou o relato de um médico vietnamita que, na época, visitou várias aldeias que sofreram estes ataques. “Geralmente”, disse ele, “são empregados em forma de pó, ou lançados de forma líquida, sobre vastas extensões, por aeroplano”. Eles “envenenam a água, os alimentos, a vegetação, e toda vida animal e humana. O envenenamento da água e da vegetação amplia a ação das substâncias para áreas ainda maiores. Substâncias tóxicas são também misturadas ao arroz [e também ao açúcar – NR], que é a seguir vendido ou distribuído entre o povo. Encontrei isso nas províncias de Kon Tum e Gia Lai, em 1965”. Muitos vietnamitas morreram, entre grandes sofrimentos. “Examinei onze crianças que estavam seriamente doentes por terem nadado em um riacho que fora envenenado. Três delas ficaram cegas”.

Paradoxalmente – e demonstrando, mais uma vez, que a guerra é um acontecimento político, e não apenas tecnológico ou financeiro – essa inútil e sangrenta  demonstração de força ocorria no período em que se acentuou o declínio da ocupação e do governo pró-EUA no sul. Em janeiro de 1973, o governo dos EUA, do então presidente Nixon, decidiu vietnamizar a guerra e começou a retirada de suas tropas, supondo que, dando armas e dinheiro, poderia transferir as operações para o exército títere do sul. Não deu certo, e o fim se aproximava rapidamente. A ofensiva guerrilheira e das tropas regulares dos vietnamitas cresceu em 1974, desarticulando as desmoralizadas forças militares do sul e, no final, seu próprio governo ilegítimo. Daí até a vitória final, em 30 de abril de 1975, foi um passo.

Naquele 30 de abril de 1975 as tropas nortistas ocupam Saigon e a rebatizam como Ho Chi Minh, em homenagem ao líder falecido em 1969. A unificação nacional foi formalizada em 2 de julho de 1976 com o nome de República Socialista do Vietnã, 31 anos depois de ter sido anunciada.

Aquela foi uma guerra sórdida. Matou 1,5 milhão de vietnamitas (do norte e do sul), feriu 3 milhões – quase 4% de mortos e 8% de feridos numa população que atingia, então, 39 milhões de pessoas. Os EUA tiveram cerca de 58 mil mortos, 313 mil feridos, e gastaram no mínimo 600 bilhões de dólares.

O livro de Bertrand Russel, escrito no calor dos acontecimentos, é um relato de barbárie e heroismo. E foi uma denúncia da barbárie da guerra imperialista e, também, uma homenagem aos que lutavam. “O povo do Vietnã é heróico e sua luta é épica: é um comovente e permanente exemplo do inacreditável ânimo de que os homens são possuídos quando lutam por um ideal nobre. Saudemos o povo do Vietnã”, escreveu ele. Este mesmo ânimo está na base do esforço de reconstrução e desenvolvimento do país, que marca o período de paz iniciado depois da derrota dos três imperialismos.

Referências

Hobsbawn, Eric. Era dos extremos o breve século XX. São Paulo, Cia das Letras, 1995.

Le Thanh Khoi. “Algumas características dos movimentos nacionais no Sudeste Asiártico”. In Santiago, Theo. Descolonização. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves Editora, 1977.

Morrock, Richard. “Revolução e intervenção no Vietname”. In Horowitz, David. Revolução e Repressão. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1969.

Partido Comunista do Vietnã. IXe Congrès National – documents. Hanoi, Editions Thê Giói, 2001_

Russel, Bertrand. Crimes de guerra no Vietnã. Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1967.

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