Isolamento, higienização e máscara da abolição

A higienização ideológica é o mecanismo pelo qual se naturalizam as iniquidades e barbárie presentes em nosso cotidiano.

Foto: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil

Mais um desastre de proporções inéditas atinge o país num momento em que a situação política, social, econômica e institucional já era lastimável e sem perspectiva de solução. Aqui a pandemia do novo coronavírus encontra terreno fértil para se propagar e levar a óbito milhares de pessoas. No centro desta combinação macabra está a estruturação racista e excludente de uma sociedade que completa 132 anos sem escravidão institucionalizada, mas que conserva na atualidade os fundamentos ideológicos do regime vigente até 13 de maio de 1888.

Sem vacina para combater a COVID-19, as autoridades de saúde no mundo recomendam o isolamento social, higienização constante e uso de máscaras. São medidas corretas e que devem ser adotadas por toda população a fim de reduzir danos e preservar vidas. Diferente dos exemplos nefastos do presidente genocida, é preciso seguir as recomendações médicas com base em ciência e evidências empíricas.

Por outro lado, ao se examinar as treze décadas de percurso do fim da escravatura, observa-se que isolamento social, higienização e máscaras são, também, formas abstratas, tramas subjetivas e atitudes concretas utilizadas para manter privilégios e garantir o domínio da elite branca e seus coligados de um ou dois degraus abaixo na pirâmide.

As populações negras e indígenas lutam, e com muitas dificuldades, conquistam pequenos avanços, entretanto as barreiras e distanciamentos não cedem. A pobreza no Brasil é negra e indígena. A violência, a fome, o desemprego, mendicância, encarceramento e morte por causas externas também insistem em selecionar os dois grupos populacionais. Isso não é natural. Trata-se de uma normalidade estabelecida e monitorada pela classe dominante, através de legislações comprometidas e direcionadas, políticas econômicas excludentes e sujeição das instituições do Estado aos interesses da minoria herdeira da escravidão.

Uma parte da população brasileira vive de máscara desde sempre. É a fração que concentra poder e riqueza. Domina o mercado, os poderes legislativo, executivo e judiciário, inclusive a mídia empresarial hegemônica e a formação acadêmica do país. Ela produz e cultiva a miséria da Nação, mas usa a máscara obscena para não sentir o odor da destruição de oportunidades e condenação de serem humanos à vida indigna de subsistência. 

A higienização ideológica é o mecanismo pelo qual se naturalizam as iniquidades e barbárie presentes em nosso cotidiano. As massas empobrecidas e brutalizadas são bombardeadas com informações falsas e alienantes a fim de se manterem obedientes e seguidoras do status quo. O objetivo é não permitir saídas, dispersar incômodos e proteger os alicerces da estrutura racista erguida no período colonial.

Por isso devemos reunir mais forças, constituir alianças com setores democráticos e não racistas, participar e influenciar na formação da frente ampla em defesa do Brasil, contra o desgoverno da extrema direita que tomou de assalto a presidência da República, tendo como foco o empoderamento político e econômico das populações negras e indígenas.

Queremos uma abolição sem máscara, sem isolamento e sem higienização!  

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