O que Bolsonaro falou durante a pandemia

Contamos e comparamos palavras expressas nas manifestações públicas do 38º presidente do Brasil entre 12 de março e 28 de maio

Ilustra: Dinho Lascoski

Em dois meses e meio de pandemia Jair Bolsonaro falou o suficiente para preencher 130 páginas de pronunciamentos, entrevistas, coletivas e “lives”. Em uma média superior a mil palavras ao dia, é possível reconhecermos padrões de conteúdo, prioridades e valores do presidente diante da maior crise sanitária do século XXI.

Durante 77 dias de pandemia Bolsonaro falou na mesma medida de tacógrafos que de respiradores. Nunca mencionou a palavra “tecnologia”. Priorizou “povo”, “Deus” e “cloroquina” em vez de “democracia”, “ciência” e “hospitais”. Desacreditou a imprensa, enquanto lançou mão de um arsenal de falácias para contornar fatos presentes no espaço público. Para identificar tais modelos, contamos e comparamos palavras expressas nas manifestações públicas do 38º presidente do Brasil. Ou seja, falas de exclusiva responsabilidade de Messias Bolsonaro.

77 mil palavras x 25 mil mortos

O conjunto de falas analisado vai de 12 de março a 28 de maio, ou seja, cobrindo cerca de dois meses e meio da pandemia de Covid-19. Tal volume de informações foi reunido pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (DAPP/FGV) para publicação de reportagem na revista Veja, edição nº 2692. Chegou a mim para uma avaliação e comentário. A fim de aprofundar a análise, escrevo este artigo aos leitores do Le Monde Diplomatique Brasil. Seguem alguns números.

No período indicado, os números da pandemia passaram de 77 casos confirmados para mais de 411 mil e de nenhum registro até 18 de março a mais de 25 mil óbitos. No mesmo intervalo de tempo, Bolsonaro citou “respirador(es)” apenas oito vezes. Ou seja, na mesma proporção em que falou de “tacógrafo(s)” e “taxímetro(s)”, equipamentos relacionados ao trabalho de apoiadores – mencionados oito e sete vezes, respectivamente. Olhando de perto tal amostragem pode-se entrever algo do combo bolsonarista negacionismo mais populismo.

Se o combate da pandemia se desse por palavras, Bolsonaro apostaria mais em cloroquina do que nos meios elementares de enfrentamento ao coronavírus. “Cloroquina” e “hidroxicloroquina”, somadas, atingem 73 menções. Ou seja, mais que “hospital” e “hospitais” (44 vezes, se somados), “máscara [de proteção]” (22 vezes), “leitos de UTI” (trêsvezes), “equipamento de proteção individual” (uma vez). Evidentemente que não contamos “cair a máscara”, no sentido de revelar uma falsidade, citado uma vez. Os remédios (hidroxi)cloroquina aparecem cerca de quatro vezes mais que “quarentena” e “vacina”, respectivamente citados dezessete e dezoito vezes.

Nossa singela análise de conteúdo possui um caráter exploratório. Embora ela tenha essa característica de “fazer inferências lógicas sobre mensagens”, que é o ponto de partida da metodologia proposta por autores como Robert Weber e Klaus Krippendorff, ela não se propõe a ser um trabalho de fôlego. No tempo adequado, pipocarão artigos científicos em congressos de Comunicação e Jornalismo em que os autores irão explorar à exaustão os recursos das análises de conteúdo e de discurso. Lidemos a quente enquanto não há horizonte à vista para fim da pandemia e ela já tenha matado mais de meio milhão ao redor do mundo.

John Snow x Miasmas

Nas epidemias de cólera do século XIX, ora se acreditava que o surto era castigo da Divida Providência, ora resultado de ares viciados – os chamados “miasmas”. Em Londres, no ano de 1854, o médico John Snow desconfiava da teoria dos miasmas. Para tentar entender o que acontecia, começou a registrar cada óbito sobre um mapa, marcando com uma barra no exato ponto em que a vítima residia.

Depois de registrar dezenas de mortes, Snow percebeu que as fatalidades se concentravam em torno de um poço na Broad Street; logo, solicitou a interdição do local. A curva de contaminação achatou. Como a água da fonte estava contaminada por fezes, o cientista ligou os pontos e, aos poucos, começou a demolir a crença de que “ares sujos” alastravam a enfermidade. O episódio é lembrando tanto em aulas de história de epidemiologia quanto de infografia. John Snow sabia era muito.

Ao invocar mais a Deus que a ciência, Bolsonaro se aproxima demais das percepções semelhantes às teorias dos miasmas que das descobertas comprovadas a partir de observação e método. Porém, há uma ironia. Qualquer cristão praticante sabe que lá pelo capítulo vigésimo do Êxodo se sacramenta algo como “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão”. Bolsonaro passa longe de tal obrigação porque instrumentaliza a religiosidade com 61 menções a Deus, nos mais diversos contextos.

Deus perde a majestade diante de tanta reincidência – “pelo amor de Deus!” (treze vezes), “meu Deus do céu!” (oito), “peço a Deus”/ “a gente pede a Deus” (oito), “Deus abençoe” (seis), graças a Deus (quatro), entre outras tantas referências à divindade. Em contrapartida, nenhuma das mais de 77 mil palavras Bolsonaro foi “tecnologia” ou “ciência”. A não ser ao final de palavras como “paciência” e “deficiência” – o que não nos interessa. Em recontagem de todos os números, confirma-se que Jair Bolsonaro não cita uma única vez “ciência” em quase dois meses e meio de pandemia.

Cloroquina e outras mentiras

No intervalo de tempo entre o primeiro óbito brasileiro causado por coronavírus até o de número 25 mil, Bolsonaro mencionou “povo” (144) cinco vezes mais que “democracia” (25) e sete vezes mais que “Constituição” (19). Embora os binômios “povo x democracia” e “povo x constituição” não signifiquem oposições diretas como “ditadura” x “democracia”, não é desprezível como o desgastado adjetivo “populista” calhe para descrever Bolsonaro não apenas por repisar o termo, mas se acreditar como sendo seu intérprete e reizinho.

Diante de críticas lançadas pela imprensa, Legislativo ou Judiciário, Bolsonaro não evita reações de fúria nem se constrange em rebater fatos com crenças pessoais ou com imprecisões, contradições, exageros e distorções. Digno de nota é ver agências de checagem pescarem com redes de arrastão declarações carentes de verdade e justificação.

Apenas para citar um exemplo de descontextualização praticado pelo presidente em 31 de março, primeiro diante do Palácio Alvorada e depois em pronunciamento oficial, repercutiu uma fala de Tedros Adhanom, chefe da OMS (Organização Mundial da Saúde). “O que ele disse praticamente? Tem que trabalhar”, distorceu Bolsonaro. O chefe de Estado brasileiro recorria à credibilidade da OMS não para estimular medidas de restrição sanitária – recomendadas pela instituição –, mas para produzir o efeito contrário.

Ficção russa

Embora políticos sejam conhecidos por sua versatilidade diante dos fatos, o uso da desinformação e da farsa política atingiram níveis distópicos nos últimos dez anos por causa do impulsionamento de narrativas mediante tecnologias da informação. Em “Na contramão da liberdade”, Timothy Snyder inventaria episódios desde 2011 em que reconhece haver uma deterioração da razão e do direito no espaço público em favor de crise e espetáculo.

Quem tiver a oportunidade de assistir ao longa “Brexit: The Uncivil War” (Toby Haynes, 2019) irá perceber que a campanha realizada por Dominic Cummings se inscreve com louvor no fabulário contemporâneo. Para vencer o referendo, uma das mentiras mais repetidas em favor do Brexit era que ele garantiria mais recursos para o Serviço Nacional de Saúde (NHS). Mesmo que tal afirmação se baseasse apenas em especulação, a versão se impôs ao fato.

O marqueteiro por trás do “Take Back Control” não apenas usou dados da Cambridge Analytica para falar aquilo que milhões de eleitores “queriam ouvir”, como também lucrou politicamente com o ressentimento de multidões alijadas do progresso europeu. Semelhanças com a eleição de Trump não são mera coincidência. Em “Na contramão da liberdade”, o autor observa que Putin “justificou” a invasão da Ucrânia a partir do “neoeurasianismo” e outras invencionices propaladas pelo clube Izborsk, think tank russo ultranacionalista.

Antes de buscarmos concluir este artigo sobre manifestações públicas de Bolsonaro durante a pandemia, vale recordar que parte da confiança do presidente brasileiro em aplicar seu receituário fascista se escora na guinada autoritária capitaneada por líderes como Donald Trump, Viktor Orbán (Hungria), Rodrigo Duterte (Filipinas) e Recep Erdoğan (Turquia). Diante de tal cenário, Snyder faz um importante alerta. Quando políticos proeminentes confrontam a crença nos fatos em circulação na esfera pública, eles abrem espaço para a instalação de oligarquias e máfias. Acrescentemos: abrem espaço para milícias.

Pandemia: segunda temporada

Nossa rápida incursão pela retórica de Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19 permite concluir que o presidente adota uma retórica anticientífica e populista, apelando de modo irresponsável ao sentimentalismo, à fé, à pessoalidade e ao poder de seu cargo para impulsionar narrativas que carecem de fundamentação e validação. E o mais importante: não se tratam de ações espontâneas, mas de um continuum. A estratégia se mantém ao longo de nossa análise, desde o início da pandemia no Brasil até o registro de mais de 25 mil óbitos.

O enfrentamento de epidemias de cólera no século XIX influenciaram no estabelecimento de uma noção de factualidade tanto da linguagem jornalística quanto do discurso científico. Sem a separação mínima entre fato e opinião, por mais problemática que tal divisão seja, jamais surgiria o gênero notícia e a profissão repórter. Em contrapartida, mais de 150 anos depois, o chefe de governo brasileiro se aproveita de uma pandemia para torturar os fatos até que obtenha deles versões que lhe convêm ao seu plano de poder.

Enquanto óbitos se acumulam ao lado de placebos políticos, nunca se exigiu tanto de cientistas e jornalistas investigativos para confrontar o obscurantismo de políticos autoritários, quando inflam o noticiário com crenças que passam longe de ser verdadeiras e justificadas. Um presidente não pode fazer de conta por SETE vezes que a Covid-19 causa uma “gripezinha”, enquanto a mesma cancela calendários e biografias por todo lugar. O Brasil do século XXI não pode agir como se acreditasse que miasmas causam a cólera, que relíquias ungidas curem pestes medievais e morcegais.

Para azar dos patriotas, o “roteirista” do Brasil aposta demais na paciência e muito pouco na inteligência de seu público. Contudo, ainda dá tempo de lutar contra os arautos da ignorância e desmontar as “ficções políticas”, ainda que estejam anabolizadas com cloroquina. Ainda há tempo de escaparmos da assistência de esta série tragicômica em que se tornou o Brasil. Para tanto, é urgente viralizar ciência e jornalismo. Não permitir que tiranetes sigam deteriorando o espaço público com meias-verdades e mentiras completas.

Ben-Hur Demeneck é jornalista e doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Em 2009, teve dissertação defendida e aprovada na UFSC sobre o debate do conceito de objetividade no jornalismo. Mora atualmente em São Paulo.

Dinho Lascoski é designer e ilustrador e procura expressar sua arte com poder de síntese. Natural do Paraná, trabalha como diretor de arte em agência de publicidade em Santa Catarina. Uma de suas charges críticas a Bolsonaro viralizou, sendo equivocadamente creditada ao diário francês Le Monde. Instagram: @dinholascoski.

Publicado em Le Monde Diplomatique Brasil

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