Com 115 mil óbitos, Bolsonaro celebra o negacionismo da pandemia

Com alguns dos números mais altos de mortes e descontrole do contágio do planeta, governo brasileiro realiza o evento “Brasil vencendo a Covid-19”.

O presidente da República, Jair Bolsonaro, durante o encontro “Brasil Vencendo a COVID-19”, cercado por médicos que defendem o uso da cloroquina no tratamento da Covid-19 Foto: Marcos Corrêa/PR

Considerado por especialistas de todo o mundo como um dos países que “melhor fracassou” no controle da pandemia de Covid-19, o Brasil realizou nesta segunda (24) o evento “Brasil vencendo a Covid-19” no Palácio do Planalto. A cerimônia ocorreu no final da manhã, foi aberta à imprensa e teve transmissão ao vivo pela TV Brasil carregando no tom do otimismo, quando o número de famílias em luto ultrapassa as 115 mil por todo o país, sem sinais de acabar.

Entrando na 14a. semana, ou mais de três meses de mil mortes diárias contínuas, o Brasil consegue um fenômeno que nenhum outro país repetiu. Mesmo os EUA, com seus números astronômicos de casos e mortes, tem duas curvas descendentes, enquanto o país de Bolsonaro não sai do pico desde o início de junho. 

De acordo com o último levantamento do Ministério da Saúde, foram 565 novas mortes registradas nas últimas 24 horas, somando 115.309 óbitos desde o início da pandemia. A quantidade de novos casos confirmados entre ontem e hoje pela pasta atingiu 17.078, com total de 3.622.861 diagnósticos no país.

O governo federal considera 2.778.709 pacientes recuperados da doença e aponta 728.843 casos em acompanhamento. Esta estatística de pacientes recuperados é a que o governo mais enfatiza como se fosse algo positivo, quando os infectologistas explicam que ela apenas serve para deixar claro a dimensão da letalidade da doença.

Todo o malabarismo de números e retórica anticientífica serve ao objetivo de naturalizar a pandemia na sociedade brasileira para garantir o retorno das atividades econômicas em meio ao colapso de UTIs lotadas e do sistema funerário que não para de abrir sepulturas. A intenção é fazer as pessoas voltarem às ruas, ao consumo, ao trabalho, às aulas, aos cinemas e estádios de futebol, o quanto antes, mesmo sabendo que o vírus circula livremente causando mortes.

Segundo os especialistas, o único indício de vitória dos governos sobre a pandemia seria a interrupção da circulação do vírus reduzindo drasticamente os contágios, algo que ocorreu nos países em que medidas rigorosas de distanciamento social foram implementadas e não se registrou em nenhum momento da pandemia no Brasil. Alguns estados que reafirmam a necessidade de distanciamento social, do uso de máscaras e medidas de higienização estão experimentando queda na curva epidemiológica, enquanto outros que flexibilizam continuamente o distanciamento social vêm sua curva de contágios estabilizada em patamares altos.

Foto em negativo

Ainda hoje, horas antes de o país ultrapassar 115 mil mortes pela Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) participou do tal evento que celebra os sete meses de negacionismo sistemático da gravidade da pandemia. Sem poder falar de números que tranquilizem concretamente a população na solenidade, o chefe do Executivo exaltou novamente o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina em tratamentos para a doença decorrente do novo coronavírus, mesmo sem a comprovação científica da eficácia dos medicamentos no combate à covid-19.

Arthur Weintraub, assessor especial da Presidência, lamentou os médicos que perderam seus empregos por defenderem os medicamentos. Já Bolsonaro, depois de dizer a um repórter que desejava “encher a boca” dele de “porrada”, declarou que, se contaminados pela Covid-19, jornalistas “bundões” têm menos chances de sobreviver do que ele, o presidente da República.

Mesmo em países onde a pandemia já parecia controlada, com a flexibilização da quarentena, e início de aulas, por exemplo, o número de contágios voltou a explodir. No Brasil, as equipes de futebol que começaram a participar de campeonatos também viram seus jogadores contraindo a doença, mesmo fazendo testes antes de entrar em campo.

Fora isso, novos estudos reafirmam que crianças também pegaram a doença, muitas eram assintomáticas, podendo passar o vírus para pessoas nos grupos de risco de óbito. Também se discute em todo o mundo as consequências da pandemia, como os problemas neurológicos que começam a lotar hospitais, como sequelas em doentes que se recuperaram da Covid-19 e começaram a ter alucinações, dificuldades de sono e outros distúrbios mentais. A última descoberta foi a reinfecção por nova cepa do vírus em pacientes que já tinham sofrido com o novo coronavírus. A descoberta cria novas dificuldades para a eficiência de uma eventual vacina.

Ecos negacionistas vindos do Ceará

A ausência do ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, à solenidade no Palácio do Planalto, apenas reafirmou o único país do mundo a não ter um ministro da Saúde comandando o combate à pandemia, depois que Bolsonaro demitiu dois deles no meio do processo. Ambos demitidos por defender o distanciamento social e ser contra o uso de remédios milagrosos contra o vírus, que Bolsonaro enfatizou durante todo o avanço da pandemia, sabotando as medidas de quarentena e ministrando em cadeia nacional de televisão remédios que o mundo científico considera temerários por ter riscos de efeitos colaterais graves e nenhum benefício comprovado.

Pazuello, por sua vez, na inauguração de uma unidade da Fiocruz no Ceará, afirmou hoje que, ao fim da pandemia, os números do Brasil serão “muito positivos”, reafirmando a lógica reversa do evento do Palácio. “Não estou falando apenas de números, que serão muito positivos no final, quando colocarmos cálculos com relação à população brasileira e, infelizmente, às perdas. Estou falando do que fizemos para o combate à pandemia. O que nós entregamos, chegamos na ponta da linha”, declarou ele.

O ministro interino também reforçou, sem apresentar evidências, que a quantidade de óbitos no país teria sido menor caso o uso da hidroxicloroquina tivesse sido aplicado em tratamentos desde o início. Tanto as afirmações do ministro interino, quando do presidente, contam com o fato de que brasileiros não têm nenhuma informação sobre como a pandemia se desenvolveu fora do Brasil.

Ao afirmar que muitas mortes por covid-19 poderiam ter sido evitadas com o protocolo adotado agora pelo sistema de saúde, de fazer o diagnóstico e tratamento precoce da doença, ele finge que não sabe que, em nenhum lugar do mundo esse protocolo foi adotado e continua sendo considerado inútil porque testou a combinação de remédios contra o novo coronavírus.

“O paciente tem que tomar os medicamentos e ser acompanhado pelo médico, para ver se não precisa de outras intervenções. Se isso acontecer, o risco de morte cai drasticamente. Se nós tivéssemos feito isso desde o início, teríamos tido menos mortes no nosso país, eu não tenho a menor dúvida”, afirmou o militar que não tem formação alguma em saúde.

Embora o Brasil esteja entre os países que menos testaram sua população, Pazuello vem defender, agora, que a testagem em massa contribui para as estratégias a serem adotadas pelos gestores. “A testagem é muito mais importante para avaliação das estratégias de governo, por isso que os números (de testes) precisam ser altíssimos.”

Todo o equipamento da unidade laboratorial inaugurada sequer foi financiada pelo Governo Federal. As plataformas automatizadas foram doadas pela iniciativa Todos Pela Saúde, liderada pelo Itaú Unibanco, e financiada pela ElopPar, controlada por Bradesco e Banco do Brasil, e pela UnitedHealth Group Brasil (UHG Brasil).

Bolsonaro e a cloroquina

Em seu evento anticientífico, Bolsonaro voltou a receber no Palácio, um grupo de médicos que defendem o tratamento precoce da Covid-19 com o uso da hidroxicloroquina. Os médicos que aproveitaram a oportunidade criada por Bolsonaro, ao defender a cloroquina, para se aproximar do governo, foram duramente criticados por manifestos de cientistas e outros médicos e pesquisadores.

Até o mês de maio, o ministério orientava o uso da cloroquina e hidroxicloroquina em casos graves e apenas em pacientes hospitalizados. Nesta segunda-feira, Bolsonaro elogiou a atuação do ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, que mudou o protocolo, incluindo a possibilidade da prescrição do medicamento em casos com sintomas leves. Para isso, o paciente deve concordar com o tratamento, com a assinatura do Termo de Ciência e Consentimento.

Em abril, o Conselho Federal de Medicina (CFM) emitiu parecer em que não recomenda o uso da droga, mas autoriza a prescrição em situações específicas, inclusive em casos leves, a critério do médico e em decisão compartilhada com o paciente.

Ao atualizar as orientações para o uso dos medicamentos contra Covid-19, o próprio Ministério da Saúde alertou que não há evidências científicas de que a hidroxicloroquina e a cloroquina sejam eficazes contra a doença.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a venda sem receita de medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina, nitazoxanida e ivermectina, esses dois últimos também utilizados no tratamento de Covid-19.

Enquanto o resto do mundo não relaxa, em busca acelerada por uma vacina, e lidando com consequências dramáticas da pandemia, no Brasil e comemora a vitória contra o vírus.

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Um comentario para "Com 115 mil óbitos, Bolsonaro celebra o negacionismo da pandemia"

  1. Quero parabenizar você pelo seu artigo escrito, muito bom vou acompanhar o seus artigos.

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