Bolsonaro quer surfar em programa social, mas não combinou com mercado

No rescaldo de quarta-feira, quando o Ministério da Economia precisou desmentir rumores de que Guedes pediria demissão após a fritura do chefe, análises colocam em relevo o apuro em que o presidente se meteu.

O presidente da República, Jair Bolsonaro, vem surfando na popularidade que veio cair em seu colo com o auxílio emergencial de R$ 600, na verdade uma vitória da oposição. Acredita ainda que o Renda Brasil, um Bolsa Família turbinado que encomendou ao ministro da Economia, Paulo Guedes, vai lhe garantir a continuidade dos bons ventos da aprovação.

No entanto, faltou combinar com os russos – no caso, com o mercado financeiro e com empresários que são base de sustentação importante de seu governo e estão preocupados com eventual guinada “populista” do governo. Ontem (26) o nervosismo acentuou-se, quando Bolsonaro criticou em público o desenho de Guedes para o Renda Brasil e disse que não aceita corte do abono salarial para financiar o programa. Paulo Guedes propõe ainda extinguir a Farmácia Popular e o seguro-defeso.

No rescaldo de quarta-feira, quando o Ministério da Economia precisou desmentir rumores de que Guedes pediria demissão após a fritura do chefe, análises colocam em relevo o apuro em que Bolsonaro se meteu. Para implementar o Renda Brasil, ou fura o teto de gastos e compra briga com o setor privado, ou cai em desgraça com quem vier a ser prejudicado pela tesoura de Paulo Guedes.

“Bolsonaro está em uma sinuca de bico, como diz o povo. Começou a tratar Guedes como tratava Sergio Moro nos meses antes da degola: desautorizações e pitos do tipo ‘quem manda sou eu’. O Posto Ipiranga foi reduzido a loja de conveniência. Muita gente acha que já tem uma faixa de ‘passa-se o ponto’ na lojinha. Que fosse. Nada disso resolve o problema político-eleitoral de Bolsonaro. Para resolver, ou derruba o teto sem mais, à matroca, o que vai dar em besteira econômica, ou compra briga social”, escreveu o colunista Vinícius Torres Freire na Folha de S.Paulo.

A jornalista Helena Chagas lembrou em artigo para Os Divergentes que a economia pode não colaborar. “A solução para a maioria dessas pessoas, que hoje podem estar entrando no contingente de apoiadores de Bolsonaro, não é o pagamento de auxílios ou bolsas, mas sim emprego e retomada da economia (…) O governo não tem recursos para financiar um programa social que preserve seus beneficiários numa ilha de bem estar em meio a um país assolado pelo desemprego e por outras mazelas de uma economia em recessão”, avaliou.

Destacou, ainda, que não adianta o presidente querer mimetizar o PT com programas improvisados em uma conjuntura totalmente diversa. “O que funcionou [para os governos petistas] foi uma ampla engenharia que juntou programas sociais – que abrangiam também as áreas de educação, saúde e agricultura familiar – a crescimento econômico, numa era em que o desemprego chegou a patamares muito pequenos e o salário-mínimo irrigava a economia com aumentos reais”, argumentou.

A lupa do mercado

Já o mercado tomou as dores de Paulo Guedes. A bolsa fechou em queda e o dólar em alta após Bolsonaro atacar seu ministro. Nas palavras do economista Arnaldo Lima, ex-assessor especial do Ministério do Planejamento e hoje diretor de Estratégias Públicas da MAG Seguros, que concedeu entrevista ao Estadão, “o mercado financeiro está olhando com lupa o desenho do Renda Brasil, porque pode ser também a pá de cal em relação ao teto de gastos”.

Lima sugeriu que o governo melhore o discurso, um eufemismo para a sugestão de que é preciso enganar a opinião pública com mais eficiência. “É importante o governo realmente estruturar uma articulação, uma comunicação que convença. Não é o desenho da proposta, mas como se vende, qual é a narrativa para vender a proposta. Integração de programa vende mais fácil que extinção de programa”, disse.

Lima defendeu que, para sinalizar positivamente ao mercado, o governo precisa apresentar uma “subâncora”. Aumentar gastos, só cortando de outro lado, por exemplo com a reforma administrativa, que, se aprovada, diminuirá salários de servidores públicos.

“Mas se você não manda a reforma administrativa e todo mundo no mercado financeiro vê a proximidade do fim do teto de gastos, isso gera volatilidade”, avisou. Bolsonaro está jogando para a plateia e ignorando a Faria Lima, pelo menos neste momento. Mas cedo ou tarde terá de escolher e perder Guedes pode lhe custar muitos apoios.

Além disso, aconteça o que acontecer, todas as sinalizações são de que o benefício do Renda Brasil ficará entre R$ 250 e R$ 300. Ou seja, quem hoje recebe R$ 600 receberá metade disso ou ainda menos. Nessas circunstâncias, a opinião da população sobre o presidente pode não permanecer tão benévola em um cenário de recessão econômica.

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