Coronavírus pode ter infectado 66% em Manaus, aponta pesquisa

Número pode sugerir imunidade coletiva quando casos diminuem, pois restam menos pessoas suscetíveis à infecção. Mas especialistas destacam a dimensão da tragédia na região, ressaltando que deixar o vírus circular não pode ser entendido como uma política pública

Vista aérea de Manaus – Foto: Jose Zamith de Oliveira Filho via Wikimedia Commons / CC-BY-3.0-BR

Em Manaus, capital do Amazonas, cidade com 2,2 milhões de habitantes, estima-se que 66,1% da população (1,4 milhão) foi infectada pelo coronavírus desde o início da pandemia de Covid-19. A estimativa é de um estudo internacional coordenado pelo Instituto de Medicina Tropical de São Paulo (IMTSP) e pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

Embora o estudo sugira a chamada imunidade de rebanho, quando uma parcela tão alta da população se contagia, reduzindo a circulação do vírus, cientistas falam com cautela sobre o assunto. Há quem acredite que a redução no contágio pode ser resultado de medidas sanitárias adotadas. Outros falam que, diante das lacunas de conhecimento que a disseminação da doença ainda guarda, é preciso ter cuidado para não relaxar e acabar contaminando o restante da população, especialmente os mais vulneráveis.

Outro aspecto ressaltado por pesquisadores é que a pesquisa está restrita ao perfil de doadores de sangue. Por outro lado, o contágio no Amazonas foi muito maior e mais rápido que em São Paulo, por exemplo, atingindo de forma muito mais violenta pessoas pobres e indígenas. Este seria um custo muito alto para a imunidade de rebanho. Neste caso, a imunidade de rebanho nada mais seria que a constatação de uma tragédia e o fracasso do controle da pandemia.

Cientistas defendem que a imunidade de rebanho só faz sentido com vacina. Há também aqueles que apontam a rápida redução de anticorpos como um fator de risco para novas ondas de contágio.

Acredita-se que a imunidade coletiva em São Paulo seja menor que Manaus pelas medidas sanitárias mais rigorosas e claras para a população, o que limitou o contágio.
Com baixa densidade demográfica, o Amazonas surpreendeu pelo altíssimo contágio desde o início da pandemia, causando colapso no sistema funerário e hospitalar.

A partir de dados sobre a presença de anticorpos para o vírus em doadores de sangue, os pesquisadores calcularam uma taxa de infecção de 64,8% em junho e de 66,1% em julho e agosto. O mesmo cálculo foi feito em São Paulo, obtendo uma taxa de 22,4%, o que equivaleria a cerca de 2,5 milhões de pessoas. O estudo foi publicado como preprint (versão prévia de artigo científico, sujeita a verificação) no site Medrxiv em 21 de setembro.

Segundo a professora Ester Sabino, do IMTSP e da FMUSP, que coordenou a pesquisa, a estimativa pode servir como um indicativo da imunidade coletiva da população. “Também chamada de imunidade de rebanho, ela acontece quando um grande número de pessoas é contaminado, a ponto de baixar a taxa de transmissão. Isso pode fazer com que o número de casos diminua, porque não haveria mais pessoas suscetíveis a serem infectadas”, explica ao Jornal da USP. “No caso da Covid-19, que é uma doença nova, esse número era calculado a partir de modelos matemáticos teóricos. O que esta pesquisa fez foi produzir uma estimativa da imunidade coletiva baseada em dados reais.”

O estudo mediu a evolução da quantidade de anticorpos para o vírus da Covid-19 ao longo do tempo em doadores de sangue, entre os meses de março (início da pandemia) e agosto deste ano, nas cidades de Manaus e São Paulo.

Taxa de infecção

Após correções nos cálculos, a partir de correções de gênero e idade dos doadores, e redução nos anticorpos, a taxa de infecção da Covid-19 foi estimada em 64,8% no mês de junho e 66,1% em julho e agosto. De acordo com a estimativa do IBGE para 2020, a cidade de Manaus possui 2.219.580 habitantes.

O infectologista André Siqueira, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), comenta que a diferença entre os números estimados para São Paulo e Manaus pode ter relação com a intensidade da transmissão em cada cidade. “Manaus teve um aumento muito rápido e explosivo, inclusive no número de mortes, e depois houve uma queda, o que indica uma mudança na suscetibilidade da população, que já não praticava o distanciamento social”, diz. “Em São Paulo houve, de certa forma, uma postura mais responsável, mais atuante até do poder público, ao instituir medidas de controle da transmissão, o que levou a um achatamento da curva que resulta em uma prevalência menor.”

De acordo com o epidemiologista Otávio Ranzani, pesquisador da FMUSP e do Barcelona Institute for Global Health (ISGlobal), na Espanha, a alta taxa de infecção estimada pela pesquisa em Manaus pode ser explicada pela grande capacidade de transmissão do vírus, a elevada densidade demográfica em algumas regiões de Manaus, onde são comuns residências com muitos moradores, e as medidas de saúde pública insuficientes, que não atingiram toda a população.

“Assim, a doença se alastrou muito rapidamente, tendo como consequências as mortes e as sequelas dos que sobreviveram, num cenário que pode ser considerado uma catástrofe”, salienta. “Embora tenha havido uma queda no número de infecções a partir de junho, não se pode afirmar com certeza que há imunidade coletiva, pois essa redução pode ser decorrente de outros fatores, como adoção de medidas de prevenção do contágio.”

Pandemia atingiu proporções alarmantes em Manaus, com quase 4 mil mortes oficialmente atribuídas ao coronavírus. Lotação de hospitais e até enterros coletivos marcaram os piores momentos e nos lembram que a imunidade coletiva antes de haver vacina só pode ser obtida a um alto custo em vidas – e mesmo assim não é garantia de que novos surtos não possam ocorrer, alertam especialistas  – Foto: Divulgação Secom/Manaus

Cautela

Segundo os autores, mesmo levando em conta que novas intervenções e a mudança no comportamento da população possam ter ajudado a limitar a transmissão em Manaus, a taxa de infecção em nível tão alto sugere que a chamada imunidade coletiva teve papel importante para limitar a progressão da epidemia.

Mas os especialistas também pedem cautela nas conclusões a que o resultado da pesquisa pode levar. Para André Siqueira, como os mecanismos de infecção pela Covid-19 ainda não são conhecidos totalmente, não é possível associar os níveis de imunidade coletiva ao controle da doença.

“As pessoas que não foram infectadas ou não têm imunidade continuam sendo suscetíveis à Covid-19”, afirma. “E se essas pessoas fizerem parte dos grupos de risco, isto é, portadores de outras doenças, idosos e crianças, podem ter maior chance de contaminação, e elas normalmente não são doadoras de sangue. Isso precisa ser levado em conta na análise dos resultados, principalmente porque o relaxamento das medidas de isolamento em algumas cidades pode levar a um aumento do número de casos e da pressão sobre os serviços de saúde.”

Comentando o estudo em seu perfil no Twitter, o professor Paulo Lotufo, da FMUSP, ressaltou o enorme número de vítimas da pandemia na região, uma das mais atingidas, proporcionalmente, pela doença. “Lembrar, antes de mais nada, que o morticínio ocorrido em Manaus atingiu os mais pobres e as populações indígenas em proporção cinco vez maior do que em São Paulo.”

O pesquisador da Fiocruz Julio Croda pontuou também que não se pode considerar uma possível “imunidade de rebanho” obtida dessa forma como política pública, mas sim “a mera constatação de uma tragédia”.

A epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, alertou para o fato de mesmo essa imunidade alcançada não ser permanente:

Depois de um morticínio desses, com o alto número de suscetíveis ainda existente e uma imunidade natural de apenas alguns meses, uma segunda onda é só questão de tempo. Imunidade de rebanho para Covid-19 sem vacina é uma falácia.”

Hospital de campanha de Manaus encerrou atividades por redução de novos casos de covid-19 – Foto: Mário Oliveira / SEMCOM

Situação atual no Amazonas

Em balanço apresentado em audiência pública virtual da Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM), na segunda-feira (21/9), a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM) aponta que na semana epidemiológica 38 (de 13 a 19 de setembro) houve redução de 29,4% de internações por Covid-19 no Amazonas. O estudo também apontou, no mesmo período, redução de 63,1% no interior do Estado e de 1,3% em Manaus.

O balanço aponta que a média móvel de casos, que mostra a variação dos últimos 14 dias, teve variação de -11,4% no interior, entre os dias 5 e 19 de setembro. No mesmo período foi registrado um aumento de 33,2% na capital.

Os  óbitos tendo o novo coronavírus como causa confirmada registraram estabilidade, com variação de 7,5% no Amazonas na semana epidemiológica 38 (de 13 a 19/9). Em Manaus a variação foi de -8%, enquanto no interior foi registrada variação de 33,3% (de 15 óbitos na semana 37 para 20 óbitos na semana 38).

Os municípios de Manaus, Parintins e Carauari concentram 57% dos óbitos ocorridos na semana 38.

A pesquisa irá prosseguir com a produção de estimativas de imunidade coletiva em mais seis capitais brasileiras. A pesquisa foi realizada com apoio do programa Retrovirus Epidemiology Donor Study (REDS), um projeto de pesquisa financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), nos Estados Unidos, que reúne bancos de sangue de todo o mundo, acompanhando os números de exames positivos para vírus em candidatos à doação.

Com informações do Jornal da USP

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