Morre espião inglês que aderiu ao comunismo em plena Guerra Fria

George Blake decidiu trabalhar para a KGB após ver o bombardeio da Coreia do Norte e ler as obras de Karl Marx durante seus três anos de detenção

O espião inglês George Blake, ex-oficial do MI6 (serviço secreto do Reino Unido) e um dos mais famosos agentes duplos da Guerra Fria, morreu neste sábado (26), aos 98 anos, informou a imprensa russa. Ao longo de nove anos, ele entregou informações que levaram à descoberta de pelo menos 40 agentes do MI6 na Europa Oriental.

Blake foi preso em Londres em 1960 e condenado a 42 anos de prisão – mas escapou em 1966 e fugiu para a Rússia, onde viveu até a morte. “Ele tinha um amor genuíno por nosso país”, afirmou, em nota, o Serviço de Inteligência Estrangeiro russo.

Nascido George Behar em 11 de novembro de 1922, na cidade holandesa de Roterdã, o espião era filho de um judeu espanhol que lutou do lado do Exército do Reino Unido durante a 1ª Guerra Mundial e adquiriu a cidadania britânica. O próprio Blake trabalhou para a resistência holandesa durante a 2ª Guerra Mundial, antes de fugir para Gibraltar, território controlado pelos britânicos no sul da Espanha. Mais tarde, devido à sua formação, foi convidado a ingressar no serviço de inteligência.

Em 1948, disfarçado de vice-cônsul, ele foi enviado para a Coreia do Sul. Sua missão era reunir inteligência sobre a Coreia do Norte comunista, a China comunista e o Extremo Oriente soviético. Mas, quando a Guerra da Coreia (1950-1953) eclodiu e o Reino Unido entrou no conflito a favor do sul, ele e outros diplomatas britânicos foram presos. Após ver o bombardeio da Coreia do Norte e ler as obras de Karl Marx durante seus três anos de detenção, ele se tornou comunista e decidiu, corajosamente, trabalhar para a KGB.

Em uma entrevista, Blake foi questionado: “Há um incidente que desencadeou sua decisão de efetivamente mudar de lado?”. Ao que ele respondeu: “Foi o bombardeio implacável de pequenas aldeias coreanas por enormes Fortalezas Voadoras (tipo de avião bombardeiro) americanas. Mulheres, crianças e idosos, porque os jovens estavam no Exército. Nós mesmos poderíamos ter sido vítimas. Isso me fez sentir vergonha de pertencer a esses opressores, países tecnicamente superiores lutando contra o que me pareciam pessoas indefesas. Senti que estava do lado errado – e que seria melhor para a humanidade se o sistema comunista prevalecesse, que isso poria fim à guerra”.

Após sua libertação em 1953, Blake voltou ao Reino Unido saudado como herói. Em outubro do ano seguinte, ele se casou com a secretária do MI6, Gillian Allan. Já em 1955, foi enviado pelo governo britânico para trabalhar em Berlim, na Alemanha, onde sua tarefa era recrutar oficiais soviéticos como agentes duplos. Mas também informou seus contatos da KGB sobre os detalhes das operações britânicas e norte-americanas.

Um de suas valorosas colaborações à União Soviética foi durante a Operação Gold: conforme relatou ao serviço secreto comunista, um túnel para Berlim Oriental era usado para grampear linhas telefônicas usadas pelos militares soviéticos. A captura russa do túnel só ocorreu um ano depois, como forma de proteger Blake.

Blake foi descoberto quando um oficial do serviço secreto polonês desertou para o Ocidente, trazendo sua amante e detalhes de um agente secreto soviético na inteligência britânica. O espião inglês foi chamado de volta a Londres. Preso, confessou ser culpado pelas cinco acusações de passar informações à União Soviética. Em uma entrevista à BBC em 1990, Blake estimou ter traído mais de 500 agentes ocidentais, mas negou acusações de que 42 deles haviam perdido a vida como resultado de suas ações.

Com informações da BBC

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