Lãs ao Vento: um entrelaçar de narrativas

Lãs ao Vento, da escritora alagoana Arriete Vilela, é uma obra em que várias narrativas se entrelaçam permeadas pelo culto da Palavra

Escritora Arriete Vilela

Lãs ao Vento, publicado em 2005, da escritora alagoana premiada Arriete Vilela, para quem a literatura dá sentido à vida, é uma obra em prosa com sabor de poesia, que discute temáticas variadas: ciúmes, violência contra a mulher, infância, crianças de rua, o poder da Palavra etc.

Influenciada por Clarice Lispector, que afirmava ser inútil classificá-la: “gênero não me pega mais”, Lãs ao Vento também não permite um enquadramento fixo. Pode ser considerado um romance que conta a vida das personagens Theonila Cândida e João Hercílio. Também é passível de serem contos sobre o cotidiano urbano e campesino de pessoas simples. Ainda pode ser encarado como uma reunião de histórias contadas à narradora na infância, que ela reconta aos leitores, permeada de várias outras histórias. Ou ainda: um conjunto de cartas enviadas à “Senhora Editora”, em que a narradora, além de abordar sua relação com a Palavra, expõe sua relação com os seus avós e seu conhecimento com a cultura popular.

Dessa relação entre a narradora, que se vale da “memória afetiva” e a Palavra (com P maiúsculo para que saibamos de sua importância), ora tão “impassível”, ora tão “arrogante”, “tão secreta”, uma espécie de deusa reclusa em si mesma, temos uma obra sui generis da literatura brasileira.

Se em Machado de Assis, “Quem conta um conto aumenta um ponto”, em Arriete Vilela, “Quem conta um conto aumenta um sonho…”. Partindo dessa perspectiva, a autora traz à tona lendas do folclore, como a “Moça da Pedra Encantada”, “Fulozinha”, “Moça Encantada”. Como se não bastasse, há a narrativa de outras mulheres que protagonizam eventos tristes, inusitados e irreverentes, como Marianita, moradora do Povoado Pé Torcido, que sonhava com botijas; Nildinha, para quem o afilhado aparecia depois de morto; Vivarina, uma menina feia, escura e inchada como um sapo; D. Urlanice, que saiu do Povoado do Bredo, para falar com Padre Cícero, que tinha fama de milagreiro, sobre a falta d’água; a amizade entre Rutinha e Bililiu, que termina em tragédia etc.

Entre memórias, confissões e cartas, Arriete Vilela constrói uma teia de narrativas doridas, fortes e sensíveis, em que a mulher, mesmo impedida pela força masculina, Theonila era proibida pelo marido João Hercílio de pintar, mas o fez escondida durante toda a sua vida, porque seu amor pela pintura transcendia às normas sociais.

Lãs ao Vento é um texto que se fortalece com a existência de outros textos, como a poesia de Jorge de Lima (“O mundo do menino impossível”), ou a de Mário Quintana (“Sonhar é um acordar-se para dentro”), a de Carlos Drummond de Andrade (“Lutar com palavras é a luta mais vã…”), versos do Cancioneiro Popular (“Como poderei viver… Sem a tua companhia?”), a música de Luiz Gonzaga (Quando olhei a terra ardendo/ Qual fogueira de São João…”) etc. Esse diálogo entre textos, intertextualidade, é um dos recursos utilizados por Vilela para ampliar sua voz e reverberar suas leituras.

Embora a relação entre a narradora e a Palavra não seja fácil, já que “lutar com as palavras é uma luta inglória”, Arriete Vilela compôs uma obra marcada pela fertilidade, pela criatividade e pela rebeldia de mulheres, que ao seu modo questionaram o próprio fazer poético e a submissão ao masculino.

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