Apenas 24% confiam nas Forças Armadas, em meio a denúncias contra 23 militares
Desde 2023, a confiança tem sofrido declínio, reflexo do cenário de polarização política e episódios envolvendo a atuação golpista de militares ligados a Jair Bolsonaro.
Publicado 19/02/2025 16:56 | Editado 20/02/2025 18:28

Uma pesquisa recente do Instituto Atlas, encomendada pela CNN Brasil, revela que somente 24% dos entrevistados confiam nas Forças Armadas – Exército, Marinha e Aeronáutica –, enquanto 72% expressam desconfiança. Dos 817 entrevistados, a amostra, calibrada para representar a população adulta do país, apontou uma queda significativa na credibilidade da instituição, que já alcançara seu auge de confiança em abril de 2023, com 46% dos brasileiros depositando fé nas Forças.
A pesquisa é divulgada em meio ao anúncio da Procuradoria-Geral da República (PGR), que denunciou nesta terça-feira (18) o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outras 33 pessoas por crimes contra a democracia, 23 delas sendo militares. A acusação, formalizada ao Supremo Tribunal Federal (STF), inclui tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado democrático de Direito, organização criminosa e dano qualificado ao patrimônio da União.
Andrei Roman, CEO da AtlasIntel, destaca que “durante o governo de Jair Bolsonaro houve uma polarização acentuada na imagem das Forças Armadas”. Segundo Roman, os bolsonaristas inicialmente enalteciam os militares, mas a narrativa sofreu uma reviravolta com os acontecimentos de 2023.
A lista dos denunciados inclui 23 militares das Forças Armadas —7 deles são oficiais-generais (confira lista ao final). Somente a Aeronáutica não teve acusados.
Ataque em duas frentes
Segundo Aldo Rabelo, jornalista e ex-presidente da Câmara dos Deputados, em declaração ao Portal Vermelho, as Forças Armadas brasileiras passam por um desgaste inédito de sua imagem. “As Forças Armadas brasileiras foram submetidas a uma campanha inédita de desgaste de sua imagem a partir dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023″, afirmou ele, que foi ministro da Defesa entre 2015 e 2016.
De acordo com Rabelo, a estratégia de desgaste se manifesta em dois vetores diametralmente opostos. De um lado, setores conservadores criticam as Forças Armadas por não terem se posicionado em favor de iniciativas que visavam romper a legalidade, acusando a instituição de traição. De outro, segmentos progressistas imputam aos militares uma suposta simpatia e até cumplicidade com ações que tentaram desestabilizar a ordem democrática.
“Parte das forças conservadoras acusa as Forças Armadas de ‘traição’ por não ter apoiado qualquer iniciativa de quebra da legalidade, enquanto parcela das chamadas correntes progressistas atribui às corporações militares simpatia e cumplicidade com os devaneios golpistas”, afirmou ele.
“O resultado é um movimento em pinça que resulta no desgaste da mais séria e nacionalista das instituições brasileiras como atesta a pesquisa”, completa. Essa “pinça” política tem criado um cenário de desgaste contínuo, afetando a percepção pública de uma instituição historicamente reconhecida por sua seriedade e nacionalismo.
A pesquisa citada por Rabelo evidencia uma perda de confiança que não é apenas estatística, mas simbólica: a confiança em uma instituição considerada pilar de segurança nacional. Agora, essa confiança é minada por acusações que se sobrepõem e se contradizem, tornando o ambiente de discussão ainda mais conturbado.
Desafios para a reconstrução da imagem
O cenário atual coloca as Forças Armadas diante de um desafio complexo: como reconstruir sua imagem diante de uma sociedade profundamente dividida? Para superar esse desgaste, será fundamental que os militares reafirmem seu compromisso com a legalidade e a democracia, distanciando-se das associações políticas que alimentam o discurso de polarização.
A reconstrução da confiança passará por uma postura transparente e por um diálogo franco com a sociedade, demonstrando que a instituição continua a ser um baluarte da ordem institucional e dos valores democráticos. O resgate dessa credibilidade será crucial não apenas para as Forças Armadas, mas para a estabilidade das instituições democráticas do país.
Episódios que abalaram a credibilidade
A partir de janeiro, com o início das investigações sobre uma suposta tentativa de golpe de Estado – articulada por Bolsonaro, segundo o ex-ajudante de ordens tenente-coronel Mauro Cid – a imagem das Forças começou a se deteriorar. Em meio a repercussão sobre a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Jair Bolsonaro (PL) e outras 33 pessoas, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes retirou o sigilo da delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, que foi ajudante de ordens do ex-presidente entre 2019 e 2022.
Com esta decisão, espera-se que todo o conteúdo revelado por Cid venha a público ainda nesta quarta (19). O material reúne informações, já de conhecimento público, de que Bolsonaro e seu entorno tinham conhecimento sobre a trama golpista que levaram aos acontecimentos de 8 de Janeiro, além de outros crimes como o da falsificação de carteira de vacinação e de venda de joias da Arábia Saudita.
O episódio ganhou contornos dramáticos: enquanto o general Marco Antônio Freire Gomes, então comandante do Exército, teria recusado a adesão ao golpe, outros nomes, como o ex-ministro da Defesa Walter Braga Netto e o ex-comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, foram implicados em tramas golpistas. Mesmo com as negativas dos envolvidos, tais denúncias contribuíram para que a confiança dos brasileiros nas Forças Armadas caísse de 46% para 24% em menos de um ano.
Além da delação de Mauro Cid, outros incidentes também pesaram na percepção pública. Um exemplo emblemático foi o vídeo institucional divulgado pela Marinha em dezembro, que comparava as supostas privações enfrentadas pelos militares à vida “tranquila” dos civis. O episódio gerou revolta ao revelar, ainda, discrepâncias salariais – como o caso do irmão do chefe do departamento responsável pelo vídeo, que recebia um valor líquido elevado em dólares – e serviu para acentuar a desconfiança na gestão e nos privilégios das Forças.
Uma crise institucional mais ampla
Os dados apontam que a polarização política agravou a crise de credibilidade das Forças Armadas. Enquanto os eleitores de Bolsonaro passaram a descrever os militares com termos cada vez mais negativos, aqueles que apoiam o atual governo de Lula mantêm uma opinião relativamente estável. No entanto, a percepção negativa cresce também entre os eleitores que votaram branco ou nulo, sinalizando um ceticismo generalizado que ultrapassa as linhas partidárias.
Essa desconfiança não afeta apenas a imagem dos militares, mas insere as Forças Armadas em um debate mais amplo sobre a representatividade e a legitimidade das instituições no país. Num contexto em que o Congresso Nacional figura como a instituição mais desacreditada, os militares enfrentam o desafio de reconstruir sua imagem, demonstrando comprometimento com a democracia e distanciando-se de qualquer associação com práticas autoritárias ou com tentativas de golpe.
A vinculação de militares a Jair Bolsonaro e a revelação de uma trama golpista não são incidentes isolados, mas parte de um processo que vem corroendo a confiança dos brasileiros nas Forças Armadas. Em meio a uma crise institucional e à polarização política, a tarefa de reconquistar a credibilidade popular se mostra urgente – tanto para restabelecer a imagem da instituição quanto para garantir a estabilidade democrática do país. Enquanto isso, o caminho para a recuperação passa, inevitavelmente, pela transparência, pelo distanciamento de práticas golpistas e por um firme compromisso com os valores democráticos.
A denúncia da PGR estrutura os acusados em diferentes núcleos. Veja abaixo os nomes ligados às Forças Armadas:
- Liderança política:
- Walter Braga Netto (general, ex-ministro da Defesa e candidato a vice-presidente em 2022)
- Militares de alta patente:
- Augusto Heleno (ex-ministro do GSI e general da reserva do Exército)
- Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa e general do Exército)
- Almir Garnier (ex-comandante da Marinha e almirante de esquadra)
- Estevam Cals Theophilo Gaspar de Oliveira (ex-chefe do Comando de Operações Terrestres, general do Exército)
- Mário Fernandes (ex-secretário-executivo da Secretaria-Geral da Presidência, general do Exército)
- Hélio Ferreira Lima (tenente-coronel do Exército, atualmente preso)
- Rafael Martins de Oliveira (tenente-coronel do Exército, atualmente preso)
- Guilherme Marques de Almeida (tenente-coronel do Exército e ex-comandante do 1º Batalhão de Operações Psicológicas)
- Sérgio Ricardo Cavaliere de Medeiros (tenente-coronel do Exército e ex-ajudante de ordens de Bolsonaro)
- Ronald Ferreira de Araújo Júnior (tenente-coronel do Exército)
- Nilton Diniz Rodrigues (general do Exército)
- Forças de segurança e aliados:
- Rodrigo Bezerra de Azevedo (tenente-coronel do Exército, conhecido como “kid preto”)
- Reginaldo Vieira de Abreu (coronel do Exército, chefe de gabinete de Mário Fernandes)
- Márcio Nunes de Resende Júnior (coronel do Exército)
- Ailton Gonçalves Moraes Barros (capitão reformado do Exército)
- Giancarlo Gomes Rodrigues (subtenente do Exército)