Perdas de água no Brasil já somam 6 mil piscinas olímpicas por dia

40% da água tratada não chega ao consumidor, volume que poderia abastecer 50 milhões de pessoas

Foto: reprodução/Google

O Brasil desperdiça 40,31% de toda a água tratada antes que ela chegue às torneiras, segundo o Estudo de Perdas de Água 2025, do Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados. Em 2023, o país perdeu 5,8 bilhões de m³ de água — o equivalente a 6.346 piscinas olímpicas desperdiçadas diariamente.

Esse volume seria suficiente para abastecer 50 milhões de pessoas por um ano, número maior que os 34 milhões de brasileiros que ainda não têm acesso à água tratada. Só as perdas físicas — vazamentos e falhas operacionais — somam mais de 3 bilhões de m³, o que garantiria quase dois anos de abastecimento às 17,2 milhões de pessoas que vivem em comunidades vulneráveis.

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“Perdemos diariamente mais de 6,3 mil piscinas de água potável, um exemplo alarmante de ineficiência”, afirma a presidente-executiva do Trata Brasil, Luana Pretto, ao destacar que a pressão das mudanças climáticas torna o desperdício ainda mais grave.

Perdas travam a universalização e custam bilhões

O estudo estima que, se o Brasil reduzisse o índice médio de perdas para os 25% previstos pela Portaria 490/2021, seria possível economizar 1,9 bilhão de m³ por ano — volume capaz de abastecer 31 milhões de brasileiros, o equivalente a 92% da população ainda excluída do abastecimento.

A redução das perdas até 2034 poderia gerar ganhos brutos de R$ 34,6 bilhões, com benefício líquido estimado em R$ 17,3 bilhões após os investimentos necessários. Esses desperdícios aumentam os custos operacionais, pressionam mananciais, elevam tarifas e dificultam a universalização dos serviços.

Desigualdade regional agrava o problema

As macrorregiões apresentam realidades distintas:

  • Norte: 49,78% de perdas
  • Nordeste: 46,25%
  • Sudeste: 36,48%
  • Centro-Oeste: 33,27%
  • Sul: 32,39%

Estados como Alagoas (69,86%), Roraima (62,51%), Acre (62,25%) e Pará (58,71%) registram perdas superiores a 55%, enquanto Goiás (25,68%), Tocantins (30,96%), Distrito Federal (31,46%) e São Paulo (32,66%) apresentam índices inferiores a 35%.

Entre as capitais, apenas Teresina (PI) e Goiânia (GO) cumprem o patamar de excelência abaixo de 25%. No total, as capitais perdem 2,71 bilhões de m³ de água por ano, dos quais 1,62 bilhão de m³ são perdas físicas — o equivalente a 1.800 piscinas olímpicas de água tratada desperdiçada anualmente.

Sabesp e crise hídrica em São Paulo: alerta em meio às perdas

Enquanto o país enfrenta níveis alarmantes de desperdício, a crise hídrica em São Paulo revela como decisões políticas podem agravar vulnerabilidades já existentes. Metade da população paulista — os 39 municípios da Região Metropolitana e mais sete cidades do interior — enfrenta restrição de abastecimento.

O Sistema Integrado Metropolitano opera com apenas 26,6% do volume útil, e o Cantareira, responsável por 41% do abastecimento, está em 21,6%, no menor patamar desde a crise de 2014/2015. As chuvas nas áreas de formação dos reservatórios estão entre 40% e 50% abaixo da média histórica.

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Com reservatórios em queda, a Sabesp adotou a redução da pressão da rede durante a noite, medida que tem resultado em torneiras secas em cidades como São Caetano do Sul. A companhia afirma que a estratégia é preventiva e temporária, mas especialistas apontam que o efeito sobre os moradores é semelhante ao de um racionamento.

Tarcísio entregou a água paulista ao mercado em meio à pior crise desde 2016

A crise ocorre sob a gestão de uma Sabesp privatizada — resultado da decisão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que entregou o controle da empresa à Equatorial. A privatização foi concluída em meio ao agravamento da situação hídrica, quando o Estado mais precisava de planejamento público robusto e capacidade de resposta.

Segundo Amauri Pollachi, ex-presidente da Associação dos Profissionais Universitários da Sabesp (APU) e conselheiro do Ondas, a privatização substituiu uma empresa lucrativa, eficiente e com investimentos consistentes por um modelo orientado ao retorno financeiro aos acionistas. Ele afirma que a atual gestão trata a crise com foco no lucro, não na segurança hídrica.

Em entrevista à Agencia Pública, Pollachi alerta que, em vez de adotar medidas eficazes para reduzir o consumo — como o sistema de bônus implementado com sucesso em 2014/2015 — a gestão privatizada vem priorizando ações que pouco afetam a receita da empresa. Nesse contexto, afirma que “ao substituir políticas de incentivo ao consumo consciente pela simples queda de pressão na rede, o governo Tarcísio cria um modelo que, na prática, tende a institucionalizar a falta de água, normalizando a interrupção do fornecimento como estratégia rotineira.”

Ele também critica a lógica financeira que orienta as decisões da empresa. “Quando a prioridade passa a ser entregar dividendos crescentes aos acionistas, a retirada excessiva de água dos reservatórios e a redução de investimentos deixam de ser exceção. Esse modelo estimula extrair o máximo possível de lucro, mesmo às custas do equilíbrio hídrico e da qualidade do serviço.”

Além disso, a Sabesp ampliou a retirada dos reservatórios — de cerca de 65/66 m³/s para 72 m³/s — sem justificativa proporcional ao crescimento populacional ou à ampliação do atendimento, agravando o desequilíbrio entre oferta e demanda.

Pollachi também denuncia a fragilização da regulação após a privatização: parte das funções de fiscalização da Arsesp foi transferida a empresas contratadas pela própria Sabesp, reduzindo a autonomia e a transparência no acompanhamento das metas e dos investimentos.

A água segue sendo um direito — não um ativo financeiro

O Estudo de Perdas de Água 2025 reafirma que o Brasil não alcançará a universalização do saneamento se continuar desperdiçando quase metade da água tratada. Combater as perdas, modernizar redes, fortalecer a regulação e garantir investimentos de longo prazo são medidas urgentes.

A crise paulista mostra que, quando a gestão da água é subordinada à lógica do mercado e aos interesses dos acionistas, quem paga a conta é a população — especialmente a mais vulnerável — que convive com reservatórios em queda, interrupções recorrentes no fornecimento e tarifas que tendem a crescer.

Em um país que desperdiça 6 mil piscinas olímpicas de água tratada por dia, o compromisso com a água como bem público — e não como ativo financeiro — precisa ser prioridade absoluta.

Confira a íntegra do estudo abaixo.

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