Escalada de violência da polícia migratória aprofunda crise em Minnesota

Imagens de prisões brutais, uso excessivo da força e ações sem mandado judicial colocam a política migratória de Trump sob escrutínio legal, político e social

Manifestantes participam de um protesto e marcha durante um dia de manifestação contra a imigração (ICE Out) na sexta-feira, 23 de janeiro, em Minneapolis.

Vídeos gravados por moradores e jornalistas independentes em Minnesota revelaram, nas últimas semanas, uma série de operações agressivas conduzidas por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE). As imagens mostram agentes quebrando janelas de veículos, arrastando pessoas para fora de suas casas, derrubando suspeitos no chão e utilizando spray de pimenta diretamente no rosto de manifestantes e detidos. A circulação massiva desses registros nas redes sociais ampliou a indignação pública e intensificou o clima de medo no estado.

As ações fazem parte da ofensiva migratória do governo Donald Trump, que enviou milhares de agentes federais para Minnesota sob o argumento de combater crimes graves e ameaças à segurança pública. Autoridades federais sustentam que as táticas duras são necessárias diante de protestos e suposta resistência violenta. No entanto, a análise de dezenas de vídeos feita pelo The New York Times indica um padrão de uso excessivo da força, inclusive contra pessoas que não ofereciam risco imediato ou sequer eram alvos diretos das operações.

Nesta sexta-feira (24), em mais um episódio associado à ofensiva migratória conduzida pelo governo do presidente Donald Trump, agentes federais dos Estados Unidos mataram a tiros um homem de 37 anos em Minneapolis. A vítima, residente da cidade e cidadão americano, morreu no hospital após sofrer múltiplos ferimentos por arma de fogo, segundo a polícia local. Imagens que circulam nas redes sociais mostram policiais imobilizando uma pessoa no chão antes de serem ouvidos diversos disparos, o que intensificou a reação pública e política ao caso.

Os episódios ocorrem em meio a uma onda inédita de mobilização popular em Minneapolis. Na sexta-feira (23), moradores enfrentaram temperaturas abaixo de zero para ocupar quarteirões inteiros da cidade, o aeroporto internacional e até a arena do Minnesota Timberwolves, da NBA, exigindo a retirada do ICE de seus bairros. Houve ainda um “apagão econômico”, com empresas fechando as portas em protesto contra a presença dos agentes federais.

Apesar da pressão popular, o comandante-geral da Patrulha da Fronteira, Gregory Bovino, reafirmou que as detenções não cessarão. Em coletiva de imprensa, prometeu retirar “em massa” os chamados “estrangeiros criminosos” das ruas. A declaração reforçou o tom de confronto do governo federal, mesmo diante de relatos de prisões envolvendo residentes legais, cidadãos americanos e até crianças em idade pré-escolar.

A detenção de um menino de 5 anos junto com o pai, enviada posteriormente a um centro de detenção familiar no Texas, ampliou a indignação. O caso soma-se a outros episódios que colocam crianças no centro da política de deportação em massa. Para distritos escolares e organizações civis, o impacto psicológico e social dessas ações já configura uma crise humanitária local.

Prisões sem mandado e ruptura de protocolos


Um dos pontos mais sensíveis revelados pelas imagens e por documentos vazados é a entrada de agentes em residências sem mandado judicial. O caso de ChongLy Scott Thao, cidadão americano naturalizado, arrastado de sua casa em St. Paul sem que lhe fosse apresentado um mandado, tornou-se emblemático. O idoso foi arrastado em meio à neve vestido apenas com um lençol.

Um memorando interno do ICE, obtido por denunciantes, indica que agentes passaram a se apoiar em mandados administrativos — emitidos fora do sistema judicial federal — para justificar esse tipo de ação. Especialistas afirmam que a prática representa uma ruptura significativa com décadas de protocolos da própria agência.

Perfilamento racial e violações civis
Os vídeos também mostram agentes interrogando pessoas com base em sotaque, aparência ou origem presumida. Ramon Menera, cidadão americano, foi questionado por agentes que afirmaram estar pedindo seus documentos “por causa do seu sotaque”. Embora tenha sido liberado após apresentar identificação, o episódio reacendeu o debate sobre perfilamento racial. Em julho, um juiz federal proibiu esse tipo de abordagem em Los Angeles, mas a decisão foi posteriormente suspensa pela Suprema Corte, abrindo margem para a retomada dessas práticas.

Casos de pessoas já imobilizadas sendo agredidas — incluindo golpes com joelho no rosto e pressão no pescoço — provocaram reação de juristas e especialistas em uso da força. Para acadêmicos do direito e da criminologia, ataques à cabeça e uso de agentes químicos a curta distância configuram força potencialmente letal, admissível apenas diante de ameaça iminente, o que não se evidencia nas gravações disponíveis.

Com o aumento das prisões realizadas pelo ICE, o governo Trump tentou cortar o programa de câmeras corporais. A série de incidentes violentos intensificou os apelos por um maior número de câmeras corporais. No entanto, o Departamento de Segurança Interna (DHS) propôs reduzir os gastos com esse dispositivo em sua proposta orçamentária inicial.

Vídeos revelam pessoas sendo atacadas com gás tóxico mesmo rendidas, um passante com celular sendo empurrado pela polícia sob um ônibus em movimento e pessoas sendo arrastadas de dentro de seus carros.

Confronto com manifestantes e repressão ao protesto
Desde o assassinato de Renee Good por um agente federal, em 7 de janeiro, manifestações contra o ICE se multiplicaram em Minneapolis e arredores. Os vídeos mostram agentes empurrando, derrubando e prendendo manifestantes, além de usar spray de pimenta sem aviso prévio. Embora o governo classifique os protestos como atos de “terrorismo” e vandalismo, juristas lembram que a Primeira Emenda garante o direito de protestar, filmar e confrontar verbalmente agentes do Estado.

Outro elemento recorrente nas imagens é o anonimato dos agentes, que operam com veículos descaracterizados, balaclavas e óculos escuros, sem identificação visível. O Departamento de Segurança Interna afirma que a prática protege os agentes de retaliações. Críticos, porém, argumentam que a ausência de identificação enfraquece a prestação de contas e pode incentivar abusos, ao dificultar a responsabilização individual.

Reação institucional e fissuras no Estado
A crise ultrapassou as ruas e alcançou o interior das instituições. Um agente do FBI que tentou investigar o policial do ICE responsável pela morte de Renee Good renunciou após sofrer pressão para interromper o inquérito. Paralelamente, o Departamento de Justiça abriu investigações contra autoridades democratas de Minnesota e apresentou acusações contra manifestantes, ampliando a percepção de uso político do aparato federal.

O governador de Minnesota, Tim Walz, classificou a operação como “repugnante” e pediu a retirada imediata dos agentes. Já o prefeito Jacob Frey denunciou o que chamou de violência desproporcional: “Quantos americanos ainda precisam morrer para que essa operação termine?”, questionou. Para lideranças democratas, como a senadora Amy Klobuchar, o silêncio do Congresso diante dessas mortes agrava a crise institucional e normaliza a violência estatal.

Os episódios em Minnesota consolidaram-se como um retrato extremo da política migratória do governo Trump: operações militarizadas, expansão dos poderes administrativos, repressão ao protesto e crescente tensão entre governo federal, autoridades locais e sociedade civil. Mais do que uma controvérsia regional, o caso expõe uma disputa central sobre limites do poder do Estado, direitos civis e o futuro da imigração nos Estados Unidos.

O conjunto de ações transformou Minnesota em um laboratório da política migratória mais dura do governo Trump. O confronto aberto com autoridades estaduais e municipais, a ampliação das operações para outros estados, como o Maine, e o uso de uma retórica beligerante indicam que a repressão tende a se intensificar. 

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