28 de Junho: celebrar as conquistas, enfrentar a estagnação
Nossa luta nunca foi apenas por reconhecimento simbólico. Lutamos por orçamento, políticas públicas, emprego, educação, cultura, saúde, segurança e dignidade
Publicado 28/06/2026 11:54 | Editado 28/06/2026 14:27
O Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ nunca foi apenas uma data de celebração. É, acima de tudo, um dia de memória, resistência e compromisso político. Celebramos porque existimos, porque conquistamos direitos e porque transformamos a luta coletiva em políticas públicas. Mas também denunciamos, porque ainda vivemos em um país onde a violência, a discriminação e a exclusão continuam marcando a vida de milhões de pessoas.
Nos últimos anos, o Brasil voltou a caminhar. A reconstrução das políticas públicas para a população LGBTQIA+ no governo federal representa uma ruptura importante com o período de desmonte institucional vivido anteriormente.
A recriação da Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, a instituição da Política Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, a retomada do diálogo permanente com os movimentos sociais, a reconstrução do Conselho Nacional, o fortalecimento da participação social e a articulação entre diferentes ministérios demonstram que a pauta voltou a ocupar um lugar estratégico na agenda do Estado brasileiro. Mais recentemente, o lançamento da campanha nacional “O Brasil é de Todas as Cores: Para Todas as Pessoas” reafirma o compromisso do governo federal em ampliar a visibilidade, a cidadania e o acesso às políticas públicas.
Esses avanços precisam ser reconhecidos. Não são favores. São resultado de décadas de organização do movimento LGBTQIA+, da pressão popular e da eleição de um projeto político comprometido com os direitos humanos, a democracia e a inclusão. Nenhuma conquista nasce espontaneamente; todas são fruto da luta coletiva.
Ao mesmo tempo, celebrar não significa fechar os olhos para os desafios. O Brasil continua registrando altos índices de violência contra pessoas LGBTQIA+, especialmente travestis, mulheres trans e jovens negros das periferias. A cidadania plena ainda está distante da realidade de quem enfrenta diariamente a exclusão do mercado de trabalho, a evasão escolar, a violência familiar e as dificuldades de acesso à saúde, à assistência social e à cultura.
É justamente nesse ponto que São Paulo exige uma reflexão crítica. O estado que historicamente foi referência nacional em políticas públicas para a diversidade vive hoje um preocupante processo de estagnação. Embora mantenha legislações importantes de combate à discriminação e estruturas construídas ao longo de décadas, faltam novos programas estruturantes, ampliação dos serviços especializados, investimentos permanentes e uma estratégia integrada capaz de responder aos desafios atuais. A existência de leis, por si só, não garante direitos quando falta prioridade política para sua implementação.
Enquanto o governo federal reorganiza sua capacidade de formular políticas nacionais e reconstruir mecanismos de participação social, São Paulo parece administrar um patrimônio construído por gestões anteriores sem apresentar uma agenda inovadora à altura da dimensão econômica, social e política do estado. O resultado é uma política que sobrevive muito mais pela resistência dos movimentos sociais, dos municípios e dos servidores públicos do que por uma decisão estratégica do governo estadual de ampliar direitos.
Essa diferença entre os dois níveis de governo revela muito da conjuntura brasileira. De um lado, a União volta a assumir a responsabilidade de coordenar políticas nacionais, fortalecer a participação social e reconstruir instrumentos de proteção à população LGBTQIA+. De outro, parte dos governos estaduais permanece presa a uma lógica de baixa prioridade para a agenda da diversidade, limitando-se, muitas vezes, à manutenção do que já existe.
O Orgulho de 2026 nos convida justamente a compreender essa contradição. Celebramos a reconstrução institucional promovida pelo governo federal, mas denunciamos a lentidão de estados que poderiam liderar a inovação em políticas públicas e não o fazem. Celebramos porque há avanços concretos. Denunciamos porque esses avanços ainda não chegam com a mesma intensidade aos territórios, às periferias, às pequenas cidades e às pessoas que mais precisam da presença do Estado.
Nossa luta nunca foi apenas por reconhecimento simbólico. Lutamos por orçamento público, políticas estruturantes, emprego, educação, cultura, saúde, segurança e dignidade. O arco-íris precisa estar presente não apenas nas campanhas institucionais, mas também no planejamento governamental, na execução dos recursos públicos e na vida concreta da população.
Neste 28 de Junho, reafirmamos que orgulho também é projeto político. É defender um Estado presente, democrático e comprometido com quem historicamente foi excluído. É reconhecer os avanços conquistados, sem abrir mão da crítica necessária. Porque celebrar sem denunciar é acomodação. E denunciar sem reconhecer as conquistas é ignorar a força da luta coletiva.
A história demonstra que nenhum direito foi conquistado individualmente. Cada avanço nasceu da organização popular, da atuação dos movimentos sociais, do compromisso de gestores públicos e da participação de pessoas que decidiram transformar indignação em ação coletiva. Os desafios do presente exigem o mesmo compromisso.
Que este 28 de Junho inspire mais pessoas a fortalecer os espaços de participação social, os movimentos populares, os coletivos, as entidades e todas as organizações comprometidas com a democracia, os direitos humanos e a justiça social. O orgulho não se limita a celebrar quem somos; ele também nos convoca a construir, todos os dias, um país onde nenhuma pessoa seja discriminada por sua identidade ou orientação.
Que o orgulho continue sendo nossa forma de existir. E que as políticas públicas continuem sendo nossa principal ferramenta de transformação social.