Trump autoriza CIA a agir na Venezuela e reacende temor de guerra no Caribe

Presidente confirma autorização para ações letais contra governo Maduro; Caracas denuncia violação da Carta da ONU e pede reação internacional

Trump autoriza ações secretas da CIA na Venezuela Daniel Torok / White House Flicker

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou ter autorizado a CIA a realizar operações secretas e letais dentro da Venezuela, com o objetivo declarado de derrubar o governo de Nicolás Maduro. 

A informação, revelada pelo The New York Times, foi confirmada pelo republicano em entrevista na Casa Branca na noite desta quarta-feira (15). A medida representa a etapa mais agressiva da política de Washington na América Latina em décadas, retomando a lógica intervencionista que marcou as operações da CIA durante a Guerra Fria.

Trump afirmou que a Venezuela “está sentindo a pressão” e não descartou ataques em território venezuelano. 

“Certamente estamos olhando para o território terra agora, porque temos o mar muito bem controlado”, declarou o presidente, sugerindo que o comando militar dos EUA já considera operações terrestres. 

O jornal norte-americano detalhou que a autorização formal concede à CIA autonomia para realizar ações letais e coordenar-se com as forças armadas. Segundo fontes citadas pela reportagem, o plano inclui opções de bombardeio e captura de Maduro, inspiradas em operações como a que resultou na morte do general iraniano Qassim Suleimani em 2020.

A estratégia foi traçada pelo secretário de Estado Marco Rubio, de origem cubana, e pelo diretor da CIA, John Ratcliffe, ambos aliados de linha dura de Trump. 

O plano, segundo a Folha de S.Paulo, é articulado com o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, e busca “asfixiar o regime” com uma combinação de ações militares e de inteligência. 

Washington rejeitou inclusive um acordo diplomático que daria aos EUA participação dominante na indústria petrolífera venezuelana, optando por uma política de força e intimidação militar, segundo o jornal.

Em resposta, o governo venezuelano classificou a medida como uma “grave violação do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas”. 

Em comunicado oficial, a Chancelaria da República Bolivariana da Venezuela afirmou que as declarações de Trump “buscam legitimar uma operação de mudança de regime com o objetivo final de se apropriar dos recursos petrolíferos venezuelanos”. 

O texto denuncia a ação como “belicista e extravagante” e pede à comunidade internacional que reaja diante da escalada militar dos Estados Unidos no Caribe, região declarada “zona de paz” pela CELAC em 2014.

Durante reunião do Conselho Nacional de Soberania e Paz, transmitida pela teleSur, o presidente Nicolás Maduro fez um apelo direto ao povo norte-americano. 

“Digo ao povo dos Estados Unidos: não à guerra. Não queremos uma guerra no Caribe e na América do Sul”, afirmou em inglês — “Not war, please, listen to me.” 

O líder venezuelano também chamou a iniciativa de Trump de “golpe de Estado patrocinado pela CIA” e comparou a ofensiva à política de destruição levada adiante no Oriente Médio. 

“Chega de golpes da CIA. Não à mudança de regime, que tanto nos lembra as guerras fracassadas no Afeganistão, no Iraque e na Líbia”, disse.

Maduro ordenou ainda exercícios militares em todo o país, alegando que a mobilização é necessária para “defender montanhas, costas, escolas, hospitais e fábricas” e garantir a paz diante da ameaça de agressão externa. 

Em paralelo, a Venezuela apresentou denúncia formal à Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e anunciou que levará o caso ao Conselho de Segurança da ONU, solicitando “medidas urgentes que impeçam uma escalada militar no Caribe”.

Maduro ainda criticou opositores exilados que pedem ataques militares à Venezuela. “É uma covardia não dar a cara, se esconder em Miami e pedir para bombardear uma pátria de gente nobre, que só trabalha e vive em paz.” 

Ao encerrar o discurso, reforçou: “Defendamos a paz, ganhemos a paz, preservemos a paz.”

Escalada militar no Caribe e justificativa de “guerra às drogas”

Desde setembro, os EUA vêm ampliando sua presença militar na região. Há 10 mil soldados, oito navios de guerra e um submarino nuclear posicionados no Caribe, em área próxima à costa venezuelana. 

O Pentágono alega que a operação visa combater o tráfico internacional de drogas, mas não apresentou provas de que embarcações destruídas — com 27 mortos — estivessem transportando entorpecentes.

A Casa Branca informou ao Congresso que os Estados Unidos estão “em situação de conflito armado com narcotraficantes latino-americanos”, tentando justificar legalmente ataques unilaterais em território estrangeiro. 

A Constituição norte-americana, porém, reserva ao Congresso o poder de declarar guerra, o que exigiria apoio do Partido Democrata. 

O governo Trump, por sua vez, insiste em associar Maduro ao Cartel de los Soles e à facção Tren de Aragua, acusações refutadas por relatórios da própria inteligência dos EUA.

A ofensiva foi interpretada por Caracas como preparação para uma guerra aberta. O Departamento de Justiça norte-americano já havia oferecido US$50 milhões pela captura de Maduro, classificando-o como “um dos maiores narcotraficantes do mundo”.

Denúncia na CELAC e alerta à ONU

Na reunião extraordinária de chanceleres da CELAC, convocada pela Presidência Pro Témpore da Colômbia, a Venezuela formalizou denúncia contra os Estados Unidos e exigiu uma resposta regional imediata. 

O comunicado oficial informa que a Missão Permanente venezuelana na ONU levará o caso ao Conselho de Segurança e ao Secretário-Geral, pedindo “prestação de contas” ao governo norte-americano e “medidas urgentes que impeçam uma escalada militar no Caribe”.

O texto recorda que o Caribe foi declarado zona de paz pela CELAC em 2014 e alerta: “A comunidade internacional deve compreender que a impunidade diante desses atos terá consequências políticas perigosas que precisam ser detidas imediatamente.”

Interferência histórica e legado da CIA na América Latina

A nova autorização reacende o debate sobre o papel histórico da CIA em golpes e intervenções na região. Desde o século 20, a agência participou da derrubada de Jacobo Árbenz na Guatemala (1954), da invasão da Baía dos Porcos em Cuba (1961), do golpe militar no Brasil (1964) e do golpe contra Salvador Allende no Chile (1973).

Analistas venezuelanos afirmam que o discurso atual da Casa Branca repete a retórica intervencionista do período da Guerra Fria, agora travestida de combate ao narcotráfico e ao comunismo. 

Segundo o cientista político Éder Peña, do Instituto Venezuelano de Pesquisas Científicas (IVIC), a escalada retórica “mantém o tema no topo da agenda pública, difundindo informações falsas sobre supostos cartéis na Venezuela”. 

Já o analista Ricardo Vaz, do portal Venezuela Analysis, destaca que “a CIA nunca deixou de organizar ações subversivas contra países considerados inimigos dos EUA”.

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