Chefe militar dos EUA pede demissão em meio a tensão com a Venezuela

Almirante Alvin Holsey, do Comando Sul, deixa o cargo após divergências sobre ataques no Caribe e centralização das decisões por Trump

Folha: Reprodução

O almirante Alvin Holsey, comandante do Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos, anunciou nesta quinta-feira (16) que deixará o cargo no fim do ano, dois anos antes do previsto. 

A decisão, considerada inesperada, ocorre em meio à escalada de tensões entre o governo Donald Trump e a Venezuela, e reacende o debate sobre a crescente politização das forças militares norte-americanas.

Segundo fontes citadas pelo New York Times, Holsey manifestou preocupação com as operações no Mar do Caribe, em especial com os ataques contra embarcações supostamente envolvidas com o narcotráfico. 

Desde setembro, ao menos cinco barcos foram atingidos por forças especiais norte-americanas, deixando 27 mortos. 

Outras fontes relataram que as declarações elogiosas de Holsey e do secretário de Defesa Pete Hegseth mascararam fortes tensões políticas sobre o papel dos EUA na região e o grau de envolvimento direto nas ações.

A renúncia veio menos de uma semana após o Pentágono anunciar que as operações antidrogas na América Latina deixariam de ser coordenadas pelo Comando Sul — sediado em Miami e tradicionalmente responsável pela interlocução diplomática com os países da região — para passar ao controle da II Força Expedicionária de Fuzileiros Navais, sediada na Carolina do Norte e especializada em ataques rápidos no exterior. 

A mudança foi interpretada por analistas como um esvaziamento institucional do Comando Sul e uma tentativa de centralizar as decisões militares na Casa Branca.

Parlamentares democratas reagiram com preocupação. O deputado Adam Smith, membro do Comitê de Serviços Armados da Câmara, lembrou que “antes de Trump, não me lembro de nenhum comandante de combate que tenha deixado seu posto antes do fim do mandato”. 

O senador Jack Reed, principal democrata do Comitê de Serviços Armados do Senado, afirmou que “no momento em que as forças dos EUA se concentram no Caribe e as tensões com a Venezuela chegam ao ponto de ebulição, a saída de nosso principal comandante na região envia um sinal alarmante de instabilidade na cadeia de comando”.

A demissão antecipada de Holsey se soma a uma série de afastamentos e aposentadorias forçadas promovidas por Hegseth desde que assumiu o Pentágono, impondo uma guinada ideológica e disciplinar nas Forças Armadas. 

Entre os casos mais notórios estão o do general Charles Q. Brown Jr., primeiro negro a chefiar o Estado-Maior Conjunto, e o da almirante Lisa Franchetti, primeira mulher a comandar a Marinha — ambos afastados sem explicações detalhadas. 

Hegseth, ex-apresentador da Fox News e aliado próximo de Trump, rebatizou o Departamento de Defesa como “Departamento de Guerra” e passou a defender uma “purificação cultural” no alto comando.

As divergências entre o almirante e o governo ocorrem no contexto de uma mobilização militar sem precedentes no Caribe desde 1994, quando os EUA intervieram no Haiti. 

Hoje, cerca de 10 mil soldados, incluindo 2.200 fuzileiros navais, além de oito navios de guerra, um submarino nuclear e caças F-35, estão posicionados na região. A Casa Branca afirma que o objetivo é combater o narcotráfico e impedir o avanço do que chama de “grupos narcoterroristas venezuelanos”, mas críticos afirmam que se trata de uma operação de desestabilização política contra o governo de Nicolás Maduro.

Na quarta-feira (15), o próprio Trump confirmou ter autorizado a CIA a conduzir operações secretas dentro da Venezuela, reforçando a percepção de que Washington voltou a empregar métodos típicos da Guerra Fria para intervir em assuntos internos latino-americanos. 

A iniciativa provocou reação imediata do governo brasileiro, que questionou a legalidade da medida e a violação da soberania venezuelana.

A saída de Holsey também evidencia o choque entre a falada tradição profissional das Forças Armadas — moldada por códigos de comando e equilíbrio institucional — e a lógica política personalista da atual administração. 

O New York Times descreveu o episódio como o sinal mais claro de uma disputa interna entre o núcleo político de Trump e a alta cúpula militar, num momento em que o Pentágono busca redefinir sua doutrina de engajamento internacional.

Ao longo de 37 anos de carreira, o almirante Holsey foi considerado um oficial discreto, de perfil técnico, e um dos poucos oficiais negros de quatro estrelas na ativa. 

Ele assumiu o Comando Sul em novembro de 2024, após ter chefiado grupos de ataque de porta-aviões e unidades aéreas navais. 

Em mensagem publicada nas redes sociais, afirmou apenas que “foi uma honra servir à nação, ao povo americano e defender a Constituição por mais de 37 anos”.

Para observadores na América do Sul, a mudança no comando militar dos EUA deve ser lida como um sintoma de instabilidade no centro do poder de Washington e um alerta para a retomada de práticas intervencionistas na região. 

O uso da guerra às drogas como justificativa para ações militares unilaterais e a substituição do Comando Sul por forças expedicionárias sinalizam um deslocamento perigoso da política externa norte-americana em direção à lógica da guerra permanente.

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