Chanceler renuncia e expõe rachaduras no governo Milei

Saída do ministro de Relações Exteriores Gerardo Werthein, após choques com Santiago Caputo e desgaste político com Washington, revela isolamento do presidente e fragilidade de sua base de apoio

O chanceler Gerardo Werthein apresentou sua renuncia a Javier Milei a quatro dias das eleições

A renúncia do ministro das Relações Exteriores da Argentina, Gerardo Werthein, marca mais um capítulo da crescente instabilidade no governo de Javier Milei. O chanceler, que havia sido nomeado há menos de um ano para conduzir a guinada diplomática ultraliberal e pró-Estados Unidos, decidiu deixar o cargo após sucessivos atritos com Santiago Caputo, assessor de confiança do presidente e figura central do núcleo mais duro da Casa Rosada.

Fontes próximas ao governo confirmaram que Werthein entregou a carta de renúncia na noite de quinta-feira (16), antecipando sua saída que estava prevista apenas para depois das eleições de meio de mandato, no próximo domingo. O gesto ocorreu após o chanceler sentir-se isolado politicamente e desautorizado por Milei — que, mesmo diante dos ataques virtuais de aliados de Caputo, optou pelo silêncio.

A sombra de Santiago Caputo

A influência crescente de Santiago Caputo — apontado como o “guru” comunicacional e político do presidente — tem provocado uma sucessão de conflitos dentro do governo. Werthein resistia à ideia de ter Caputo formalmente no gabinete, temendo o esvaziamento da chancelaria e o avanço de decisões de política externa sem a participação do Itamaraty.

Segundo interlocutores, o ministro já vinha manifestando desconforto com o que chamava de “diplomacia paralela”, em referência à atuação de Caputo junto a assessores americanos antes do encontro entre Milei e Donald Trump, em Washington. O episódio, que terminou em constrangimento internacional, agravou o desgaste interno.

O fiasco com Trump e a perda de confiança

O encontro bilateral entre Milei e Trump, que deveria consolidar a aliança ideológica entre Buenos Aires e Washington, acabou se transformando num incidente diplomático. O ex-presidente dos EUA condicionou o apoio econômico à Argentina à vitória do partido governista La Libertad Avanza nas eleições legislativas — uma declaração interpretada como ingerência política e que gerou forte repercussão interna. Trump disse que não valeria pena investir num governo que não pudesse dar continuidade a suas políticas.

O Wall Street Journal revelou que o acordo financeiro entre a Argentina e os Estados Unidos poderia incluir o acesso de empresas norte-americanas ao urânio argentino. A Casa Branca busca limitar a influência chinesa na região.

A Casa Rosada culpou Werthein pelo “mal-entendido”, sob o argumento de que ele não teria explicado adequadamente a natureza das eleições a Trump. Em privado, porém, diplomatas argentinos classificaram a acusação como “absurda” e atribuíram o erro à falta de coordenação entre o Ministério e o círculo mais próximo de Milei. O próprio Trump, depois, deixou claro que sabia bem do que se tratam as eleições de meio de mandato.

Um governo em crise permanente

A demissão de Werthein — o segundo chanceler a deixar o posto em menos de um ano, após a queda de Diana Mondino — reforça a percepção de que o governo Milei vive uma crise estrutural de gestão e comando político.

Desde o início do mandato, o presidente tem se apoiado em um grupo restrito de assessores — apelidado de “triângulo de ferro” — formado por Santiago Caputo, Karina Milei (irmã e secretária-geral da Presidência) e o porta-voz Manuel Adorni. Esse núcleo, que concentra as decisões estratégicas e de comunicação, tem ampliado tensões com ministros e governadores aliados.

Para analistas políticos, a saída de Werthein representa mais do que uma troca de nomes: é o sintoma de uma administração refém de disputas internas, personalismos e impulsos improvisados.

Diplomacia fragilizada e rearranjos políticos

A renúncia do chanceler ocorre em meio a especulações sobre uma ampla reforma ministerial após as eleições. Entre os possíveis substitutos, figuram Nahuel Sotelo, secretário de Culto (coordena a relação entre o governo e a Igreja Católica e outras religiões) e aliado de Caputo; Úrsula Basset, diretora de Direitos Humanos; Luis María Kreckler, cônsul em São Paulo; e Guillermo Francos, atual chefe de Gabinete.

Enquanto isso, o Palácio San Martín mergulha em um vácuo de liderança. Pouco antes de deixar o cargo, Werthein assinou a transferência de 83 diplomatas para embaixadas e consulados, decisão que irritou o governo e será revista. O gesto final do chanceler foi interpretado como um ato de autonomia — ou de desafio — diante do poder crescente do entorno presidencial.

Um alerta sobre o futuro do governo Milei

A crise diplomática e política aberta pela renúncia de Werthein lança dúvidas sobre a capacidade de Milei de sustentar coesão interna em meio à turbulência econômica e ao desgaste social. Também põe em questão a diplomacia externa do governo focada no apoio incondicional aos EUA e Israel, que se encontra isolado internacionalmente desde as acusações do genocídio palestino, podendo contar apenas com apoios singulares dos EUA, da Alemanha, da República Tcheca e da Argentina.

Para além das disputas pessoais, o episódio expõe o desequilíbrio entre ideologia e gestão no coração do governo argentino: um presidente cercado por leais ideológicos, mas isolado institucionalmente, à medida que sua coalizão se fragmenta e seus ministros caem um a um.

Em um contexto em que Milei promete “reformas de segunda geração”, a renúncia do chanceler pode ser apenas o prenúncio de um novo ciclo de instabilidade — política, diplomática e, sobretudo, interna.

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