Aplausos sob fogo cruzado
Pesquisa revela apoio majoritário de moradores de comunidades à megaoperação, com 121 mortos, o que expõe mais a desesperança e a alienação social do que qualquer vitória do Estado.
Publicado 03/11/2025 10:47 | Editado 03/11/2025 20:50
Dado chocante atravessou o debate público: 87,6% dos moradores de comunidades do Rio apoiaram a megaoperação que deixou 121 mortos1, segundo levantamento da empresa AtlasIntel. Entre o medo e o falso alívio, sobra o quê?
Enquanto isso, a maioria dos usuários nas redes sociais condenou a ação e responsabilizou o governador bolsonarista Cláudio Castro (PL) pela crise de segurança2.
No primeiro olhar, parece existir “consenso moral invertido” e majoritário: quem vive sob o terror cotidiano aplaude o Estado armado, enquanto quem observa de longe denuncia.
Mas o que parece apoio é, na verdade, sinal de esgarçamento social profundo, de despolitização e de abandono completo do pacto civilizatório nessas regiões desassistidas e abandonadas pelo Estado.
Miséria política e o aplauso do oprimido
O alto índice de aprovação da operação mortífera não nasce da confiança no Estado, mas da falta dessa. É fruto de cenário em que a vida vale pouco, e o Estado aparece apenas em 2 formas: arma e ausência.
Quando a política some, quem resta?
O caveirão, o tráfico e a imensa população encurralada das periferias do Rio, sob o fogo cruzado da violência policial, em “combate” ao chamado crime organizado são os sintomas do adoecimento social que acomete o estado. Esse dado revela:
• Visão acrítica dos fatos, produzida por anos de propaganda de guerra e ausência de educação crítica.
• Falsa sensação de alívio, confundida com segurança — porque o outro lado da moeda é viver sob domínio velado ou explícito.
• Desesperança como método de governo: apoiar o fuzil estatal porque não se acredita em alternativa política legítima.
• Alienação social alimentada por falta de acesso à educação, à informação e à participação democrática.
O que o morador “escolhe”, então, ainda que inconscientemente?
A “bala” — projétil — estatal como substituta de políticas públicas que nunca chegam. É o aplauso de quem não tem alternativa, de quem só conheceu o Estado pelo cano do fuzil — e aprendeu a celebrá-lo para sobreviver.
Escolhe inconscientemente, porque ninguém opta pelo pior conscientemente.
Exclusão como política
Não há coincidência: o território mais excluído do País é também o mais penalmente tratado e o menos democraticamente atendido. A violência se torna política pública; o silêncio, estratégia de governo.
Essa megaoperação — e o apoio surpreendentemente amplo — revelam políticas veladas de exclusão que maquiam a barbárie com discurso de “guerra ao crime”.
A pergunta verdadeira é: Quem é visto como criminoso antes de qualquer crime?
O que aparece como resposta forte à criminalidade é, muitas vezes, a confirmação de que a periferia brasileira segue à margem — sem direito, sem deferência, sem voz.
Manipulação e medo: a pedagogia da força
Moradores das periferias, das “quebradas”, dos bairros longínquos e desassistidos pelo Poder Público não são cúmplices — são vítimas. E são sistematicamente manipulados por discursos oficiais que transformam massacre em segurança.
O discurso de “narcoterrorismo” importa métodos dos EUA para a América Latina — métodos que falharam, alimentaram cartéis e militarizaram territórios sem pacificá-los.
Enquanto isso, falta:
• Educação pública transformadora, que desenvolva senso crítico e consciência política real.
• Oportunidade real de integração social, emprego digno, redes de proteção e participação.
• Política de segurança cidadã, capaz de substituir o tiroteio por diálogo e presença estatal legítima.
Sob essas condições, apoiar tiros, mortes e terror do Estado é reflexo de pânico, não de convicção.
País à beira da naturalização do inaceitável
Quando 121 mortos viram vitória, algo grave aconteceu com nossa bússola moral.
Quando moradores de periferia defendem o que os mata, estamos diante de uma tragédia política silenciosa: a morte da esperança como política de Estado.
O Brasil, especialmente suas periferias, caminha rápido para aceitar que partes da população são descartáveis. Isso não é segurança. É projeto de exclusão.
A democracia não pode sobreviver onde o Estado chega com helicóptero de tiro antes de chegar com escola, emprego, saúde e dignidade.
Vozes da crítica
Essas ações do Estado, segundo Paulo César Carbonari, do MNDH (Movimento Nacional de Direitos Humanos), na área de segurança pública, “devem proteger e garantir a vida, não destruí-la. Independentemente de quem sejam os suspeitos, todos têm direito a um julgamento justo.”
O jornalista e ativista do Complexo do Alemão, Rene Silva, disse: “Nunca tínhamos visto algo assim na história do Brasil. O crime continua, tudo permanece igual.”
Essas vozes reforçam que o rito da “segurança violenta” não só deixa vítimas, mas silencia a cidadania, educa no medo e fomenta a aceitação do inaceitável.
Fracasso com vulneráveis
Os dados da pesquisa não glorificam operações policiais. Esse denuncia um país que fracassou com os vulneráveis.
Confundir apoio com legitimidade é ignorar que, quando a política morre, o medo governa.
E o medo, sempre, aplaude seu próprio carcereiro.
O Estado deve reagir não com espetáculo de força, mas com presença democrática — e essa não se constrói com tiros.
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1 Pesquisa: 8 em cada 10 moradores de favelas no Rio aprovam megaoperação – https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/rj/pesquisa-8-em-cada-10-moradores-de-favelas-no-rio-aprovam-megaoperacao/ – acesso em 1º.11.25
2 Maioria nas redes desaprova megaoperação e culpa Castro pela crise de segurança no Rio – https://iclnoticias.com.br/maioria-redes-desaprova-megaoperacao/ – acesso em 1º.11.25