Reunião na Casa Branca não avança diante da exigência dos EUA pela Groenlândia
Após “reunião franca”, EUA e Dinamarca mantêm “desacordo fundamental” sobre a Groenlândia; partes criam grupo de trabalho para “encontrar um caminho comum a seguir”
Publicado 15/01/2026 07:39 | Editado 15/01/2026 08:32
A reunião realizada nesta quarta-feira (14) na Casa Branca entre representantes dos Estados Unidos, da Dinamarca e da Groenlândia terminou sem acordo, após o governo Donald Trump manter a exigência de controle sobre a ilha e autoridades dinamarquesas e groenlandesas reafirmarem que o território não está à venda.
As partes concordaram em manter contatos nas próximas semanas por meio de um grupo de trabalho de alto nível, criado após a reunião, embora autoridades dinamarquesas e groenlandesas tenham indicado que a posição do governo dos Estados Unidos permaneceu inalterada.
O encontro foi conduzido pelo vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, e contou com a participação do secretário de Estado Marco Rubio, do ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, e da ministra das Relações Exteriores da Groenlândia, Vivian Motzfeldt.
Após a reunião, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, afirmou que o encontro foi “franco, mas também construtivo”, mas reconheceu que não houve mudança na posição de Washington.
“Ainda temos um desacordo fundamental. Não conseguimos mudar a posição norte-americana”, disse o chanceler.
Rasmussen acrescentou que o governo dinamarquês considera inaceitável qualquer proposta que desrespeite a soberania do país ou o direito de autodeterminação da Groenlândia.
“O presidente tem esse desejo de conquistar a Groenlândia. Para nós, ideias que não respeitem a integridade territorial do Reino da Dinamarca ou o direito de autodeterminação do povo groenlandês são totalmente inaceitáveis”, afirmou.
Já a ministra das Relações Exteriores da Groenlândia, Vivian Motzfeldt, reafirmou os limites apresentados durante o encontro na Casa Branca e rejeitou qualquer hipótese de transferência de controle do território.
“Fortalecer a cooperação não significa que queiramos ser propriedade dos Estados Unidos. Mostramos claramente onde estão nossos limites”, declarou.
Nos últimos meses, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem reiterado publicamente a intenção de assumir o controle da Groenlândia, território autônomo do Reino da Dinamarca, afirmando que a ilha é estratégica para a segurança norte-americana e não descartando o uso de força para garantir esse objetivo.
Em declarações e postagens nas redes sociais, Trump afirmou que os Estados Unidos “precisam da Groenlândia para fins de segurança nacional” e que qualquer cenário que não coloque o território sob controle de Washington é “inaceitável”.
Trump tem justificado a pressão sobre a ilha com o argumento de que sua localização no Ártico é central para sistemas de defesa antimísseis e para a contenção da Rússia e da China na região.
Após o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, declarar nesta terça-feira (13) que o território não deseja ser incorporado aos Estados Unidos e que pretende permanecer como parte do Reino da Dinamarca, Trump reagiu com novas declarações públicas.
“Não sei quem ele é. Não sei nada sobre ele, mas isso vai ser um grande problema para ele”, disse o presidente.
Às vésperas da reunião na Casa Branca, o presidente voltou a afirmar que, sem o controle norte-americano da Groenlândia, a OTAN estaria vulnerável, sustentando que a aliança se tornaria “muito mais formidável e eficaz” caso o território estivesse “nas mãos dos Estados Unidos”.
A escalada retórica de Washington tem alarmado aliados europeus, que avaliam que uma tentativa de impor controle sobre a Groenlândia colocaria em risco a própria coesão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Autoridades e analistas apontam que uma medida desse tipo poderia implodir a aliança militar, da qual Estados Unidos e Dinamarca fazem parte, ao romper com princípios básicos de soberania e cooperação entre aliados.
Nesse contexto, o papel do vice-presidente JD Vance à frente das conversas tem sido acompanhado com apreensão por governos europeus.
Vance tem se destacado nos últimos anos por declarações críticas e hostis à Europa, incluindo ataques a governos que se recusam a cooperar com a extrema direita europeia e reclamações sobre o papel dos Estados Unidos no financiamento da segurança do velho continente.
Diplomatas ouvidos pela imprensa internacional afirmaram que a presença de Vance no comando da reunião sinaliza uma postura mais rígida de Washington.
Em declarações anteriores, Vance disse de forma irônica que “ama a Europa”, mas também acusou líderes europeus de estarem “dormindo ao volante” em temas como defesa e migração.
Para autoridades europeias, essa combinação de discurso ideológico e poder decisório reforça o temor de que a pressão sobre a Groenlândia não seja episódica, mas parte de uma estratégia mais ampla do governo Trump que coloca em xeque o futuro das relações transatlânticas.