Capital e Trabalho convergem contra Selic a 15% na abertura do Copom
Com inflação dentro da meta, Confederação Nacional da Indústria e centrais sindicais apontam que a manutenção dos juros restringe o progresso do Brasil
Publicado 27/01/2026 17:06 | Editado 27/01/2026 19:01
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central inicia nesta terça-feira (27) sua primeira reunião de 2026 em um cenário de forte pressão. O patamar da taxa Selic, mantida em 15% ao ano, permitiu uma rara convergência contra a política monetária, entre o setor industrial e o movimento sindical. Ambos os lados sustentam que o custo atual do crédito atua de forma negativa sobre a economia atual.
Embora o mercado financeiro trabalhe com a manutenção da taxa nesta reunião, os dados da Indústria oferecem um contraponto ao rigor monetário. Conforme a Sondagem Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o alto custo do crédito superou a carga tributária como o principal obstáculo à atividade fabril. Para a CNI, o patamar de 15% inviabiliza projetos de inovação e modernização previstos na política “Nova Indústria Brasil” (NIB).
Juro real e o impacto no setor público
Para entidades como a CTB e a CUT, a manutenção de uma taxa nominal elevada em um contexto de inflação controlada resulta em um dos maiores juros reais do mundo. O argumento técnico das centrais foca no custo de oportunidade: o serviço da dívida pública, indexado à Selic, consome uma parcela desproporcional do orçamento da União.
De acordo com as centrais sindicais, esse cenário limita a capacidade de investimento estatal em infraestrutura e serviços essenciais, encarece o consumo das famílias, além de drenar os recursos da produção para o rentismo. A defesa é que o pleno emprego e o desenvolvimento de longo prazo demandam uma política monetária que acompanhe a estabilidade dos indicadores de preços.
Cenário Focus e expectativas de corte
O comportamento das variáveis econômicas reforça o debate sobre o início do ciclo de cortes. O Relatório Focus, divulgado nesta segunda-feira (26) pelo Banco Central, mostra que a expectativa do mercado para o IPCA em 2026 está ancorada em 3,8%. Com a inflação abaixo do teto da meta, a manutenção da taxa básica em dois dígitos gera um distanciamento entre a política monetária e os fundamentos da economia real.
A projeção média das instituições da Faria Lima indica que a Selic deve iniciar a trajetória de queda apenas a partir de março, encerrando o ano em 12,50%. No entanto, a indústria e os trabalhadores argumentam que o intervalo entre a decisão do Copom e seus efeitos na economia exige sinalizações imediatas.
A expectativa agora recai sobre o comunicado de amanhã (28), que deverá detalhar se o Banco Central reconhece a melhora dos indicadores fiscais.