Não duvidem dos herdeiros do Araguaia: por ocasião da primavera de Renato Rabelo
A ausência presencial de Renato não é apenas uma perda, mas um despertar para o conhecimento que Rabelo produziu no campo da tática do partido, com sua contribuição ao programa socialista do PCdoB
Publicado 18/02/2026 14:37 | Editado 18/02/2026 15:05
A seiva de 1922, em Niterói, propagou um universo de esperançosos e revolucionários no Brasil; espraiou-se como primaveras nas primeiras fábricas e portos do país. O roteiro desta saga permite apresentar aqui uma linha sistemática da história secular, trilhada em grande parte no século 20.
Da fundação às jornadas operárias do campo à cidade, elaborou-se o primeiro programa de cunho nacionalista como tática revolucionária; surgiram também conflitos internos quanto aos caminhos opostos: Partido Comunista do Brasil ou Partido Comunista Brasileiro — sendo este último o Brasileiro.
O do Brasil resistiu a longas e duras penas, até então condenado a não durar, como lembrava João Amazonas em seus debates, em plena ditadura militar burguesa articulada pelo imperialismo estadunidense.
Nesse período, plantou-se a resistência democrática de forma atitudinal no Araguaia; fez-se voz e contribuiu-se para a Constituição de 1988, em inúmeras linhas, artigos e capítulos da Carta Magna — que o digam nossos baluartes Haroldo Lima, Aldo Arantes, Eduardo Bonfim, o operário Edmilson Valentim, Jandira Feghali…; e, ao lado deles, o suporte de João Amazonas, Renato Rabelo, Dynéas Aguiar, Pedro Oliveira, Rogério Lustosa, Elza Monnerat… a direção do partido do Araguaia.
Essa escola chamada Partido Comunista do Brasil – PCdoB tinha seus organizadores por trás dos parlamentares; sua essência é o coletivo, que fez crescer a resistência, ampliar os quadros, a militância e os filiados.
Renato Rabelo é semente e raiz desta árvore em sua trajetória; da AP ao PCdoB, seu caminho foi feito ao lado de Amazonas, aprendendo com o velho mestre. No pós-ditadura, o partido navegou novos rumos, e Rabelo foi um desses construtores, sedimentando o alicerce de que toda casa precisa.
Se me perguntarem quem foi Renato Rabelo, eu digo: foi um educador e organizador de nosso corpo em ação, por suas incansáveis tarefas de acompanhar as frações orgânicas do PCdoB nos movimentos sociais. Nesse roteiro de memórias, tive a oportunidade de vivenciar vários contatos com esse dirigente, que apresentava as palavras de ordem e as orientações conjunturais do partido; um pensador incansável, capaz de explicar didaticamente os personagens da conjuntura e a essência da luta de classes.
A primeira delas foi em 1989, em Santo André (SP), no Congresso da Ubes, na reunião de representantes de bancadas estaduais. Em uma sala, os representantes esperavam aquele senhor de bigode marcante; com semblante de autoridade revolucionária — foi a primeira impressão que tive. De voz mansa, explicativa, didática e metódica, porém com muito conteúdo político na análise da conjuntura.
Rabelo era um educador revolucionário. Sua postura e história o levaram a posições na organização partidária, no front com os timoneiros dos comunistas; sua forma de educar vinha da tradição dos velhos e bons comunistas do Brasil.
Tantas e quantas vezes esses encontros de tarefas partidárias me proporcionaram oportunidades com esse homem que, posso revelar, me educou em suas exposições nas reuniões de fração secundarista, sindical, em congressos, encontros, seminários e cursos partidários.
A ausência presencial de Renato não é apenas uma perda, mas um despertar para o conhecimento que Rabelo produziu no campo da tática do partido, com sua contribuição ao programa socialista do PCdoB. Lembro de uma exposição ao movimento sindical em que, como um bom médico, nos dizia que “o capitalismo precisava ser cuidado pelos geriatras e o socialismo aos cuidados dos pediatras”.
Rabelo, com suas “ideias e rumos”, ensina-nos a olhar para a história dos programas do partido como essência da revolução transformadora da sociedade — o roteiro da revolução, o rumo.
Aqui guardo as boas lembranças deste timoneiro coletivo, desse doutor de lutas e dignidade, e também exemplo de comunista. Saúdo não a perda, mas o convite ao cuidado com o Partido Comunista do Brasil, força transformadora para a civilização socialista.
Renato é parte herdeira daqueles que não se contentaram em esperar a democracia, se não fosse com luta e atitude; por isso, gerações vindouras, a fonte está aqui — e nunca duvidem dos herdeiros do Araguaia.
Renato Rabelo, presente!