Troca da banca de defesa sinaliza delação de Daniel Vorcaro
Contratação de advogado especialista em colaboração premiada, indica que sócio do Banco Master deve abrir esquemas da maior fraude bancária da história
Publicado 16/03/2026 13:13 | Editado 16/03/2026 13:27
A substituição da equipe jurídica de Daniel Vorcaro, sócio do Banco Master, tornou-se o principal termômetro para os desdobramentos da Operação Compliance Zero. Após semanas de resistência técnica, a dispensa do advogado Pierpaolo Bottini e a contratação imediata de José Luis Oliveira Lima, o “Juca”, sinaliza que o empresário iniciou o movimento formal para uma delação premiada. No meio jurídico e político, a mudança é lida como a última cartada de quem busca benefícios penais diante da iminente condenação.
A estratégia da colaboração
A escolha de Juca Oliveira Lima não é fortuita. O advogado é uma figura emblemática em acordos de alta complexidade, tendo sido o arquiteto da delação de Léo Pinheiro (ex-OAS) durante a Lava Jato. Ao contrário de Bottini, cuja linha de defesa é reconhecidamente avessa a acordos que comprometam terceiros, Juca entra no caso em um momento de isolamento máximo de Vorcaro.
Para os investigadores, o movimento sugere que o empresário está disposto a entregar o “mapa da mina” das fraudes bilionárias que operava sob a fachada do Banco Master. A expectativa é que a delação atinja o “andar de cima” do capital financeiro, expondo como o sistema foi utilizado para drenar bilhões de reais em esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro.
O foco da delação: quem está na mira?
As investigações da Operação Compliance Zero debruçam-se sobre um passivo que pode alcançar a cifra de R$ 50 bilhões, mas o impacto financeiro é apenas a face visível de uma engrenagem muito mais profunda. Com a disposição de Daniel Vorcaro em colaborar, o foco das autoridades desloca-se para a rede de sustentação que permitiu ao Banco Master operar à margem da fiscalização por tanto tempo. No centro desse tabuleiro está o núcleo político, onde a delação deve detalhar a participação de agentes públicos e a influência exercida sobre órgãos reguladores. Um dos pontos centrais é a relação com o Banco de Brasília (BRB), cujo presidente afastado, Paulo Henrique Costa, personifica as suspeitas de que o Estado foi instrumentalizado para viabilizar interesses privados espúrios.
A delação promete expor os facilitadores do mercado que garantiram a fluidez do capital ilícito entre 2018 e 2025. Estão sob escrutínio corretoras, agentes de custódia e instituições financeiras que, ao validarem a emissão de títulos fraudulentos, omitiram-se de seus deveres de controle, permitindo que o esquema ganhasse escala sistêmica. Essa complacência do setor privado é o que conferia ao grupo o verniz de legitimidade necessário para atrair investidores e poupadores, ocultando a natureza predatória de suas operações.
Nesse contexto, as apurações também lançam luz sobre a engrenagem institucional que permitiu a ascensão do Banco Master durante a gestão de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central (2019-2024). A expansão vertiginosa da instituição teria ocorrido sob uma supervisão considerada “benevolente” por investigadores da Polícia Federal, com destaque para a atuação de diretores indicados no período. Entre os nomes centrais está Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização (2019-2023), suspeito de atuar em favor dos interesses de Daniel Vorcaro ao aprovar a transformação do antigo Banco Máximo no atual Banco Master. Registros indicam que Vorcaro realizou 24 visitas oficiais ao BC na gestão de Campos Neto, mantendo uma proximidade incomum com a cúpula da autarquia. Além de Souza, o ex-chefe de supervisão Beline Santana também é alvo das apurações que buscam confirmar se o crescimento do banco foi impulsionado por favorecimentos e por uma complacência deliberada dos servidores que agora respondem por suspeitas de fraude e corrupção passiva.
Por fim, a colaboração de Vorcaro deve lançar luz sobre o aspecto mais sombrio da organização: o funcionamento de “A Turma”. Descrito pelo Ministério Público como uma estrutura de “milícia pessoal”, esse grupo atuava como um braço coercitivo destinado a blindar os negócios do banco por meio da intimidação de adversários e autoridades. O clima de tensão entre os envolvidos foi agravado pelo suicídio de um integrante do grupo, Phillipe Mourão, logo após as prisões iniciais, o que acelerou a decisão de Vorcaro em buscar a Polícia Federal ou a Procuradoria-Geral da República (PGR).
Prisão mantida pelo STF reforça isolamento
A decisão de Vorcaro pela delação ocorre no rastro de sua derrota no Judiciário. A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria para manter sua prisão preventiva na Penitenciária Federal de Brasília.
O relator, ministro André Mendonça, acompanhado pelos ministros Luiz Fux e Nunes Marques, destacou a periculosidade da organização e o risco à ordem pública. Com o julgamento virtual previsto para encerrar em 20 de março, e com o ministro Dias Toffoli tendo se declarado suspeito, a situação carcerária de Vorcaro tornou-se irreversível no curto prazo, deixando a colaboração premiada como sua única via de saída do isolamento de segurança máxima.