Secundaristas de todo Brasil se reúnem em São Bernardo para o 46º Congresso da Ubes
Evento acontece de 16 a 19 de abril com expectativa de reunir 6 mil jovens. Pauta inclui defesa da democracia, soberania nacional e eleição para a presidência da entidade.
Publicado 09/04/2026 12:19 | Editado 09/04/2026 18:23
A União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) realiza, de 16 a 19 de abril, o seu 46º Congresso Nacional no Ginásio Poliesportivo de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Com o mote “Democracia e Soberania – Um Brasil do Tamanho da Nossa Rebeldia”, o encontro deve reunir cerca de 6 mil estudantes de todas as regiões do país para debater os rumos da educação pública brasileira e eleger a nova direção nacional da entidade.
Um congresso em território de luta
A escolha de São Bernardo não é casual. A cidade é símbolo da organização popular brasileira: foi no ABC Paulista, entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, que grandes greves operárias impulsionaram a reorganização do movimento sindical, aceleraram a redemocratização do país e projetaram novas lideranças políticas e sociais. Realizar o congresso nessa cidade significa situar o debate educacional em um território historicamente comprometido com a participação política e a defesa de direitos.
O estado de São Paulo também ocupa lugar central na história do movimento secundarista nacional. Foi em território paulista que se consolidaram importantes ciclos de mobilização estudantil, das lutas pela redemocratização às ocupações de escolas contra o fechamento de unidades públicas. A União Paulista dos Estudantes Secundaristas (Upes), entidade estadual com forte enraizamento nos grêmios da rede pública, integra esse histórico de organização que dá contexto ao encontro nacional.
Pautas centrais: grêmios, soberania e democracia
Entre os temas que devem dominar os debates está a maior efetivação da Lei do Grêmio Livre, legislação que garante aos estudantes o direito de organização política autônoma nas escolas, mas que, segundo a direção da entidade, tem enfrentado resistências na prática. A soberania nacional na educação, o combate à militarização das escolas e o fortalecimento das políticas de permanência estudantil também estão na agenda.
Ao Portal Vermelho, a diretora de Políticas Educacionais da Ubes, Alexssia Reis, destacou a dimensão política do encontro e as prioridades da entidade. “A nossa expectativa para o Congresso é reunir cerca de 6 mil estudantes de todo o país. E a gente tem, como nossos principais motes, a garantia da manutenção da Lei do Grêmio Livre. A ideia é que a gente consiga, nesse congresso, debater fortemente sobre soberania nacional, sobre a Lei do Grêmio Livre, sobre soberania nas escolas, entre outras pautas.”
A gestão que encerra e a eleição que vem
O 46º Congresso marca também o encerramento do mandato de Hugo Silva à frente da Ubes. Jovem negro e periférico do Rio de Janeiro, Hugo passou pela Faetec e pelo Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) antes de chegar à presidência da entidade, eleito em junho de 2024 durante o 45º Conubes, em Belo Horizonte. Sua trajetória no ensino técnico moldou as prioridades da gestão: ampliação dos Institutos Federais nas periferias, revogação do Novo Ensino Médio, universalização do passe livre e democratização do acesso à universidade por meio de pré-vestibulares populares, com o lema de que “educação popular é projeto de país”.
Para ocupar o espaço que Hugo deixa, o movimento “É Tudo Nosso!” lança a candidatura de Roberta Pontes, atual tesoureira nacional da entidade. Assim como Hugo, Roberta vem da periferia e do ensino técnico: cria do Ibura, no Recife, é estudante do curso subsequente em Desenvolvimento de Sistemas e tem trajetória construída desde a base do movimento estudantil.
Roberta presidiu seu grêmio escolar antes de assumir a presidência da União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas de Pernambuco (Umes-PE), onde teve papel central nas mobilizações pela revogação do Novo Ensino Médio e na aprovação da Lei da Primeira Merenda nas escolas estaduais. Na tesouraria nacional da Ubes, esteve à frente de campanhas contra as escolas cívico-militares, pela ampliação da alimentação nos Institutos Federais e pela manutenção dos 10% do PIB investidos em educação — continuando, na prática, as mesmas batalhas que marcaram a gestão de seu antecessor.
Conquistas recentes e horizonte de luta
O congresso acontece em um momento em que o movimento secundarista acumula vitórias recentes. Entre elas estão a derrubada dos itinerários formativos do Novo Ensino Médio, a conquista do programa Pé-de-Meia (benefício financeiro voltado à permanência de estudantes vulneráveis na escola) e a inclusão de verba própria para alimentação estudantil nos Institutos Federais, aprovada na Lei Orçamentária Anual de 2026.
O movimento também reivindica pautas como a universalização do passe livre estudantil, a presença de psicólogos e assistentes sociais em todas as escolas públicas, a desmilitarização das escolas cívico-militares e o cumprimento da Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira.
Em um cenário político marcado pela disputa entre projetos distintos de educação, o 46º Conubes se apresenta como espaço de formulação política e resistência organizada da juventude secundarista. Além disso, ao reunir milhares de estudantes em um território historicamente ligado à luta popular, o encontro ainda reforça o papel da organização estudantil na defesa da escola pública, da participação democrática e de políticas que garantam não apenas acesso, mas permanência e dignidade para quem estuda.
Em um país ainda marcado por desigualdades profundas e por ofensivas autoritárias recorrentes, a presença organizada da juventude nas escolas segue sendo um termômetro importante da vitalidade democrática brasileira.
SERVIÇO
O que: 46º Congresso da Ubes
Quando: de 16 a 19 de abril
Onde: Ginásio Poliesportivo Adib Moysés Dib – Av. Kennedy, 1155 – Parque Anchieta, São Bernardo do Campo (SP)
Para mais informações, acesse: https://inscricao.congressodaubes.org.br/
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