Um governo sem educação: Zema e Simões sucatearam o saber em MG

Artigo critica políticas educacionais em Minas Gerais, apontando desmonte da rede pública, precarização do ensino e ausência de um projeto estratégico para o desenvolvimento.

A truculência do governador-candidato Mateus Simões na cerimônia de entrega da Medalha da Inconfidência, em Ouro Preto, no último dia 21 de abril, não foi um episódio isolado. Ela revela, de forma simbólica e concreta, o que foi o comando do executivo mineiro nos últimos oito anos: um governo sem educação. No sentido mais amplo da palavra, sem educação política, sem compromisso com o diálogo e sem compreensão do papel do Estado no desenvolvimento da sociedade.

Ao reagir com arrogância a uma intervenção que evocava a história da Inconfidência Mineira e os valores republicanos, Simões deixou claro o incômodo de um projeto que nunca valorizou o pensamento crítico, a cidadania e a formação humanista. Por trás do destempero, está a essência de um governo que abriu mão da educação como prioridade estratégica.

Desde o início, o projeto de Romeu Zema e Mateus Simões para Minas Gerais foi o de desmonte da educação pública. É escolha política. Em oito anos, vimos a sistemática desvalorização dos profissionais da educação, com salários muito abaixo do piso nacional e perdas acumuladas que chegam a mais de 40%. Professores e servidores, especialmente os auxiliares da educação básica, convivem com baixos salários e condições precárias de trabalho.

Assistimos também à implementação de programas com resultados pífios, como o Trilhas do Futuro, marcado por denúncias de baixa qualidade, atrasos em auxílios e diversos problemas estruturais. Eficiência, só na propaganda oficial. Ao mesmo tempo, o governo promoveu a municipalização de parte da rede estadual de ensino por meio do programa “Mãos Dadas”, que, na prática, transfere responsabilidades da esfera estadual para municípios sem garantir as condições necessárias. Um verdadeiro “abrir mão” da obrigação de educar.

Como se não bastasse, o governo alterou a distribuição do ICMS da educação, penalizando cidades mais populosas e aprofundando desigualdades. Municípios como Juiz de Fora, Contagem, Betim e Belo Horizonte perderam recursos essenciais, enquanto o critério passou a privilegiar indicadores de desempenho sem considerar o número de estudantes, gerando distorções graves.

E o ataque mais recente é ainda mais simbólico: o leilão de 95 escolas estaduais por 25 anos. A educação pública sendo entregue à lógica do mercado financeiro. Um passo perigoso, que coloca em risco o caráter público da escola e subordina sua gestão à lógica do lucro.

Agora, como cortina de fumaça, surge a proposta das escolas cívico-militares. Na verdade, nem cívicas, muito menos militares, como são as poucas e excelentes instituições mantidas pelo Exército Brasileiro, cujo objetivo prioritário é preparar para a carreira militar. Trata-se de um modelo improvisado e de “segunda linha” que tenta importar uma lógica disciplinar para um ambiente que exige liberdade pedagógica, pensamento crítico e inclusão. 

Duvido que Zema, Mateus Simões e outros defensores desse modelo pelo país, como os governadores Ronaldo Caiado (GO), Ratinho Jr. (PR) e Tarcísio de Freitas (SP), matriculassem seus filhos e parentes nessas escolas ou em unidades estaduais sem infraestrutura, que hoje funcionam muito mais pela abnegação de professores e servidores do que por uma política educacional consistente. Para os filhos dessa elite, estão reservadas as escolas mais caras do país (e até do exterior), com amplo acesso ao conhecimento e ambientes que estimulam a curiosidade e o espírito crítico, elementos fundamentais de qualquer processo educativo.

Enquanto nada no mar da hipocrisia para “bater continência” a uma extrema direita delirante, o governo de Minas se furta a enfrentar os reais problemas da educação no estado. O Plano Estadual de Educação segue abandonado: metas descumpridas, financiamento insuficiente e ausência de planejamento consistente. O que se vê é uma gestão baseada em métricas superficiais e na terceirização de responsabilidades, em claro detrimento de uma educação pública e de qualidade.

Esse cenário contrasta com os desafios e as oportunidades colocadas pelo novo Plano Nacional de Educação (PNE 2026-2036), que estabelece metas e investimentos claros: alfabetização plena, expansão do ensino integral, fortalecimento da educação profissional, melhoria da infraestrutura e ampliação do acesso ao ensino superior. Minas Gerais deveria estar na linha de frente desse esforço nacional. Infelizmente, além de atrasada, caminha no sentido oposto. 

Na minha visão, além de trabalhar em parceria com o governo federal no alcance das metas do novo PNE, o governo do estado precisa enxergar a educação como eixo estratégico do desenvolvimento, capaz de orientar políticas públicas integradas e duradouras. Isso passa pela valorização real dos profissionais, com salários dignos, carreira estruturada e condições adequadas de trabalho. Passa também pelo fortalecimento da escola pública, com investimento consistente em infraestrutura, tecnologia, inovação e ambientes de aprendizagem mais inclusivos e estimulantes.

Precisamos integrar educação e desenvolvimento regional, conectando universidades, centros de pesquisa e setor produtivo. Minas tem um potencial extraordinário para se tornar referência em inovação, ciência e tecnologia, mas isso exige planejamento de médio e longo prazo, além de políticas que incentivem a permanência dos jovens talentos no estado e a interiorização das oportunidades.

Defendo também a expansão do ensino técnico de qualidade — não “trilhas” que desmoronam ao primeiro contato com a realidade —, articulado às demandas do mundo do trabalho e às vocações regionais. Isso significa gerar oportunidades para a juventude, reduzir desigualdades e dinamizar a economia, especialmente nas regiões mais vulneráveis.

Minas Gerais precisa voltar a ter um projeto de educação: sério, estruturado, democrático e de longo prazo. Chega de improviso, de propaganda vazia e de medidas que apenas escondem o problema. É urgente reconstruir esse caminho com compromisso e visão de futuro. Estamos cansados de um governo sem educação e sem rumo.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho
Autor