Meninas brasileiras relatam mais tristeza, medo e solidão
Dados da PeNSE acendem alerta sobre saúde mental de meninas; Manu Mirella defende acolhimento e organização coletiva.
Publicado 07/05/2026 17:22 | Editado 07/05/2026 18:08
Dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo IBGE em março deste ano, revelam um cenário preocupante para a saúde mental de adolescentes brasileiras.
O levantamento mostra que meninas relatam sentimentos frequentes de tristeza, solidão e desesperança em índices significativamente superiores aos registrados entre meninos, em alguns casos mais do que o dobro: 43,4% das meninas afirmaram ter sentido vontade de se machucar propositalmente nos últimos 12 meses — entre os meninos, o índice é de 20,5%. O levantamento também mostra que 33% dizem sentir que ninguém se preocupa com elas, enquanto 25% afirmam acreditar que a vida não vale a pena ser vivida, percentual que cai para 12% entre os meninos. Além disso, 61% relatam preocupação excessiva com o cotidiano e 58,1% dizem sentir irritação ou mau humor com frequência.
Violência, pressão estética e hiperexposição aprofundam sofrimento
Para Manu Mirella, diretora de Jovens Feministas da UJS e integrante da direção nacional da UBM, os números ajudam a dimensionar uma realidade já percebida nos territórios e espaços de atuação da juventude organizada. “Esses dados revelam uma crise muito profunda que as meninas já vivem no cotidiano. O sofrimento delas está diretamente ligado às violências e às pressões que elas enfrentam desde cedo”, afirma.
Na avaliação da dirigente, o sofrimento emocional das adolescentes está diretamente relacionado à forma como meninas são socializadas em uma sociedade marcada pela desigualdade de gênero.
“A gente vive numa sociedade patriarcal que impõe uma cobrança estética, emocional e comportamental o tempo inteiro”, diz.
Ela também relaciona o aumento do sofrimento mental à lógica de hiperexposição das redes sociais e à transformação da autoestima e da imagem feminina em mercadoria. “Hoje, no capitalismo na sua fase mais brutal e financeirizada, autoestima, corpo e até relações viram mercadoria. As meninas crescem sendo ensinadas que precisam performar uma perfeição para serem aceitas”, avalia.
Racismo, violência e pressão social atravessam saúde mental das meninas
Segundo Manu Mirella, o agravamento da saúde mental já aparece de forma concreta no cotidiano das jovens acompanhadas pela UJS Feminista.“A gente sabe e vem percebendo o aumento da ansiedade, tristeza, da sensação de falta de perspectiva de futuro, principalmente nas meninas periféricas e negras”, relata.
Além das cobranças estéticas e emocionais, a dirigente aponta que muitas adolescentes convivem diariamente com violência, racismo e insegurança econômica. “Muitas delas vivem sobrecarregadas desde cedo: violência, racismo, insegurança econômica e pressão social constante. E hoje a gente não vê espaços reais de acolhimento”, afirma.
Para ela, tratar o sofrimento mental apenas como uma questão individual ignora as estruturas sociais que atravessam a vida dessas jovens. “As meninas são educadas para silenciar o sofrimento, cuidar dos outros e corresponder a expectativas praticamente impossíveis. Esse adoecimento não acontece de maneira individual. Ele tem causa social e política”, defende.
As redes sociais e a lógica de comparação permanente também aparecem, segundo ela, como fatores que aprofundam o problema. “Existe uma pressão muito violenta das redes sociais e do mercado sobre o corpo e o modo de vida dessas meninas. É uma lógica de comparação permanente, consumo e hiperexposição que produz sensação de inadequação e não pertencimento”, diz.
Diante desse cenário, Manu defende a ampliação de políticas públicas voltadas à saúde mental da juventude. “Falta atendimento psicológico nas escolas, fortalecimento do SUS e espaços públicos de cultura, esporte e convivência. Muitas meninas passam pelo sofrimento sozinhas porque não têm com quem conversar”, afirma.
Enfrentamento passa pela organização coletiva
A dirigente também destaca a importância da organização coletiva como ferramenta de acolhimento e fortalecimento emocional. “Quando uma jovem participa de um movimento social, de um coletivo ou de uma organização, ela entende que a dor dela não é um fracasso individual. São nesses espaços que elas encontram pertencimento, escuta e perspectiva de transformação da realidade”, diz.
Ao defender a ampliação das políticas públicas de saúde mental, Manu afirma que enfrentar o sofrimento psíquico das meninas também exige reconstruir vínculos coletivos e espaços de pertencimento.
“Não dá para enfrentar esse sofrimento sozinha. Só a partir da organização coletiva e da construção dessa saída para um novo mundo possível é que a gente vai conseguir garantir qualidade de vida para essas meninas”, conclui.
A dirigente encerrou a entrevista defendendo que meninas não enfrentem esse sofrimento de forma isolada e reforçou o papel da UBM e da UJS Feminista na construção de redes de apoio e organização juvenil.
Ao encerrar a entrevista, Manu defendeu que meninas transformem o sofrimento em ação coletiva e se aproximem de espaços de organização política como a UBM e a UJS Feminista.