O dia das mães, a escala 6×1 e um domingo que nunca termina

Enquanto o país debate o direito ao descanso, mulheres seguem acumulando jornadas invisíveis dentro de casa sem divisão real do cuidado.

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O Dia das Mães cai em um domingo. Sempre em um domingo. Como se o calendário soubesse que é o único dia em que ela talvez esteja em casa, ou pelo menos mais perto de casa do que de costume.

Mas para milhões de mulheres no Brasil, domingo é só o nome que a semana dá ao turno que não para.

O país discute agora o fim da escala 6×1 e a proposta de mudar para 5×2, cinco dias de trabalho para dois de descanso, que mobiliza trabalhadores, movimentos sociais e até o Governo Lula. É uma luta legítima e urgente. Dois dias de folga por semana em vez de um representaria uma mudança real na vida de quem vive pendurado no relógio do patrão.

Ninguém deveria ser contra.

Mas há uma pergunta que o debate talvez ainda não tenha feito com seriedade: para a mulher trabalhadora, o que muda no segundo dia de folga?

Quando ela sai da fábrica, do escritório, do hospital, ela não entra em descanso. Ela entra em outro expediente. O jantar, a roupa, a lição de casa, o banho das crianças, a faxina que ficou para a semana passada, a mãe idosa que precisa de remédio, a conta que venceu ontem…

Esse turno não tem registro em carteira, não tem hora extra e não tem rescisão.

E no Dia das Mães, esse turno ganha flores.

Isso não é uma força da natureza. É uma escolha que alguém faz todo dia, na maioria das vezes sem perceber que está fazendo. E esse alguém, na maioria das vezes, é um homem.

Não estamos falando só de mães. Estamos falando de todas as mulheres que vivem com um homem, que trabalham com um homem, que constroem uma vida ao lado de um homem e que carregam uma parcela desproporcional do que sustenta essa vida. A maternidade torna o peso mais visível, mas ele existe antes e continua existindo mesmo quando não há filhos.

É a reunião que ela organiza, o aniversário que ela lembra, o médico que ela marca, o armário que ela arruma, o clima emocional da casa que ela regula, enquanto o homem ao lado dela entende tudo isso como algo que simplesmente acontece.

A conquista de mais um dia livre por semana é uma grande vitória. Mas vitória para quem, exatamente, se esse dia a mais vai ser preenchido com o trabalho que nós, homens, nunca decidimos assumir de verdade?

Há algo de conveniente na forma como participamos do debate sobre o fim da escala 6×1 com toda a convicção do mundo e voltamos para casa sem lavar a louça. Como defendemos os direitos trabalhistas no grupo de amigos e deixamos para ela decidir o que as crianças vão comer essa semana. Como comemoramos o Dia das Mães com um almoço que ela ajudou a preparar.

Diminuir a jornada para 5×2 pode ser o começo de algo importante, mas resolve uma parte do problema e a outra parte continua intocada, distribuída de forma desigual dentro de casa, invisível nas negociações e ausente dos palanques. O trabalho doméstico, o cuidado com filhos e a gestão emocional da família, tudo isso também é jornada.

Um debate que não inclui o trabalho invisível é um debate incompleto. E um homem que defende direitos trabalhistas na rua sem rever a própria divisão dentro de casa está discutindo metade do problema e chamando isso de solução.

O Dia das Mães é um espelho. Ele reflete o que achamos que ela merece: um domingo por ano de reconhecimento simbólico pelo trabalho que fazemos questão de não ver nos outros trezentos e sessenta e quatro dias.

Se você está lendo isso em uma mesa com a comida que ela preparou, em um quarto com a roupa que ela lavou, com uma infância que ela sustentou com você presente de corpo, mas ausente de carga, saiba que o segundo dia de folga também vai chegar no endereço errado.

Vai chegar no endereço errado até que a divisão do que é de todos deixe de ser responsabilidade só dela.

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