Engels: a compreensão da história deve se basear no que aconteceu

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Marx e Engels - Ilustração: Cássio Loredano

O conhecimento da história deve resultar de pesquisas rigorosas e detalhadas sobre os fatos acontecidos e o esforço para compreender o encadeamento que há entre eles.

Esta é uma exigência da visão marxista – materialista e dialética – da história, como Engels ressaltou na carta a Conrad Schmidt, em 5/8/1890, na qual assegurou que a concepção da história que fundou juntamente com Marx é, “antes de tudo, uma diretiva para o estudo”, e não uma “alavanca de construções à la hegelianos” (Engels: 1980). Engels rejeitou construções desse tipo por serem ideológicas, idealistas e não científicas.

Engels enfatizou a exigência de que, a partir da concepção que haviam descoberto,  a “história toda tem de ser estudada de novo, as condições de existência das diversas formações sociais têm que ser investigadas em pormenor, antes de se tentar deduzir a partir delas os modos de ver políticos, de direito privado, estéticos, filosóficos, religiosos, etc., que lhes correspondem.”

Engels, em sua atividade como escritor, e historiador, foi muito exigente e rigoroso. O melhor exemplo é o livro que escreveu, entre 1870 e 1874: “As Guerras Camponesas na Alemanha“, baseado em um grande livro, a “História da Grande Guerra Camponesa“, de Wilhelm Zimmerman, publicado entre 1841 e 1843.

Em seu livro, Engels dedicou-se a interpretar um período histórico e suas lutas à luz de um ponto de vista avançado. Faz a crítica histórica desde um ponto de vista que, na falta de palavra melhor, vou definir como filosófico, mesmo correndo o risco de enfrentar as críticas à filosofia da história – crítica que não é correta em relação a Engels. Sua reinterpretação da história, embora tenha partido do ponto de vista filosófico novo e avançado, descoberto por Karl Marx e ele, está rigorosamente baseada nos fatos e na realidade concreta das classes sociais com que deparou em sua investigação. Um dos aspectos da atividade de Engels como historiador foi o fato de subordinar sua investigação historiográfica às necessidades da luta política de seu tempo. Faz o paralelo entre a situação alemã de 1525 e o contexto da revolução alemã de 1848/1850. E a história das lutas do passado serviu, aqui, para ajudar a entender a situação contemporânea, a partir dos erros e das limitações da situação vivida mais de três séculos antes. O movimento do século 16, escreveu, foi a maior tentativa revolucionária do povo alemão, que ocorreu numa época em que o progresso da indústria estava em contradição com os interesses dos príncipes, da nobreza e do clero. E a análise da situação alemã no século 16 é um primor da clareza, baseado no esforço de compreender os movimentos das classes sociais e da luta entre elas. Era uma situação complexa que envolvia, nas cidades, as famílias patrícias e a oposição constituída por uma ala burguesa, “precursora do liberalismo de nossos dias”, escreveu Engels. Envolvia uma oposição plebeia formada pela burguesia e outros excluídos do direito de cidadania, como os oficiais, os jornaleiros e os elementos do lumpem proletariado, além do elemento proletário formado por companheiros de grêmio empobrecidos. Finalmente, havia a grande massa da nação, os camponeses, que suportavam todo o peso do edifício social, oprimidos por príncipes, funcionários, nobreza, frades, patrícios e burgueses (Engels: 1980).

Isto é, Engels recusou a elaboração do relato histórico a partir da ideologia e de precondições políticas, estéticas, filosóficas, religiosas etc., sobrepostas à pesquisa histórica, que levassem a conclusões sem o necessário apoio no exame dos fatos concretos e reais.

Ele exige o árduo trabalho de reconstituição histórica que cabe a quem a estuda. E criticou autores que colocavam as conclusões antes da investigação, apontando diretamente aquilo que considerou falhas no estudo da história.

“Relativamente a isto, até agora, só pouco aconteceu, porque só poucos se dedicaram seriamente a isso”, disse com severidade em relação a escritores de seu tempo. (Engels: 1980).

Mas, criticou ele, as frases do materialismo histórico têm servido “a muitos jovens alemães apenas para construir ordenada e sistematicamente, o mais rapidamente possível, os seus próprios conhecimentos históricos relativamente parcos – a história econômica ainda anda em fraldas! – e para parecerem então muito formidáveis”.

São tão poucos, disse, “os jovens literatos que se ligam ao Partido [e] se dão ao trabalho de se entregarem à Economia, à História da Economia, à História do Comércio, da Indústria, da Agricultura, das Formações Sociais”. “A suficiência do jornalista tem aqui que conseguir tudo e [os resultados] são também a condizer. Muitas vezes, é como se esses senhores acreditassem que, para os operários, qualquer coisa é boa. Se esses senhores soubessem como Marx sustentava que as suas melhores coisas ainda não eram suficientemente boas para os operários, como ele encarava como um crime oferecer aos operários algo de inferior ao melhor de tudo!” (Engels: 1980).

Engels foi muito severo em outra carta, também a Conrad Schmidt (27/10/1890). “O que falta aos senhores todos é dialética. Eles só veem sempre: aqui causa, ali efeito. Nenhuma vez sequer veem que isso é uma abstração vazia, que no mundo real semelhantes oposições polares metafísicas apenas existem em crises, que todo o grande curso decorre, porém, na forma da ação recíproca – mesmo se de forças muito desiguais, das quais o movimento econômico é de longe a mais forte, a mais originária, a mais decisiva; que aqui nada é absoluto e tudo é relativo, isso é coisa que eles nem sequer veem; para eles, Hegel não existiu” (Engels: 1980).

Em resumo, falta dialética a estes esforços, dialética materialista baseada na pesquisa e exame dos fatos acontecidos e em sua interpretação, e não apenas na aplicação, livresca, idealista, em relatos históricos fracamente baseados em fatos concretos, das conclusões da filosofia. Cabe aqui, para finalizar, lembrar novamente a advertência feita por Marx em 1845: cabe, hoje, mudar o mundo e não interpretá-lo”. (Marx: 1976). Mudança que só pode ocorrer a partir dos fatos e com base neles, e em sua análise, pode-se acrescentar à advertência de Marx.

Referências

Engels, Friedrich. “As guerras camponesas na Alemanha”. Lisboa, Editorial Presença, 1975.

Engels, Friedrich. “Cartas sobre el materialismo histórico”, 1890-1894. Moscou, Editorial Progreso, 1980.

Marx, Karl. “Tesis sobre Feuerbach”. In Marx/Engels, “Obras escogidas”, T. II. Madri, Editorial Ayuso, 1976

Mayer, Gustav. “Friedrich Engels: una biografía“. México D.F., Fondo de Cultura Economica, 1978

Ruy. José Carlos. “Engels,o historiador revolucionário“. Portal Vermelho, 7/8/2015. (Palestra proferida no Seminário Friedrich Engels e a ciência contemporânea, Salvador, Bahia, 12/12/2005, promovido pela seção baiana do Instituto Maurício Grabois). In https://vermelho.org.br/2015/08/07/engels-o-historiador-revolucionario/

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Amigos, com este texto chega ao fim esta série, iniciada no final de janeiro, onde tentei apresentar argumentos a favor de uma visão científica, materialista e dialética, da história. Espero ter contribuído para o debate e para o esforço por uma compreensão do passado que ajude a entender as contradições que enfrentamos em nosso tempo. Obrigado a todos!

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