Historinha

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Acordei às 7h30 pensando no meu tataravô que voltou pra casa andando porque não tinha gostado da Guerra do Paraguai. Meu pai conta essa história em tom de bravata, como se o nosso ancestral tivesse feito bom uso do ódio ao reprovar uma disputa desigual, em que se morreu tanto ou mais de fome e epidemias quanto do lutar “o bom combate”.

Acordei um pouco depois das 7h30 pra falar a verdade, ainda com um gosto metálico no céu da boca e uma ponta de enjoo na boca do estômago por ter fumado alguns cigarros na madrugada, umas quatro horas atrás. Parece que lambi a lâmina desembainhada do meu suposto tataravô apavorado no escuro da floresta, lutando contra a peste, a miséria e as sombras dos inimigos, e junto dessa ideia diáfana e trêmula de homem, sobrevivi.

Sob a minha cabeça, uma certeza se acendeu como um tipo de lucidez quase alegre, único bálsamo possível de ser ter em meio à guerra do meu tempo, cujo inimigo é tão invisível quanto letal, um ninja microscópico em forma de vírus.

“Ele foi um filho da puta desertor”, essa foi a frase que pari ao cuspir a lâmina enferrujada da língua. Um desertor de merda, não por pacifismo, por excesso de coragem, por uma espécie de ética marcial, mas porque ele estava se esvaindo, literal e mau-cheirosamente, de medo. O medo é muito precioso, perceba: te faz correr quilômetros da peste, da miséria e da guerra, e para além da sobrevivência, você ganha a oportunidade de contar a sua versão da história, e é claro que na sua versão você está limpo, bem-vestido, cheiroso e condecorado com a beleza puritana dos heróis.

Eu poderia terminar nas próximas linhas a minha bravata de guerra, concluindo mui cheia de moralismo, um moralismo típico do meu tempo, do alto de um antimilitarismo forjado neste momento, no chão frio e desinfetado do meu apartamento alugado, não porque seja realmente importante ser antimilitarista mas porque é necessário rejeitar o belicismo dos homens, já que sou uma mulher graduada em universidade pública, de esquerda e entusiasta da militância de internet.

Eu poderia terminar exatamente agora ao afirmar, com uma solenidade digna da próxima Chimamanda, que a ficção é o prêmio dos covardes, dos desertores, ou de um tipo muito pior de sobrevivente, o verdadeiro herói de guerra, o condecorado, viril e cheiroso, desinfetado do sangue das mulheres que estuprou na terra arrasada da vila vencida, para finalmente poder se casar com uma noiva qualquer, alienada da sua crueldade de vencedor, e a quem ficará a responsabilidade de contar essa história, sob à luz de muitas lareiras, para as gerações seguintes.

A história do vencedor, perceba, é assim: nasce porque alguém sobreviveu, e se sobreviveu foi porque soube se esconder muito bem do Horror, ou foi protagonista d’Ele. Já começo a amar, cheia de piedade, a sombra lustrosa do meu suposto tataravô, um covarde do melhor tipo. Nem deve ter estuprado nenhuma mulher, voltou puro e casto para os braços da senhora com quem se casou e ela, sob à luz de muitas lareiras, se pôs a contar essa história para chegar até mim. Obrigada, soldado ancestral, por ser um covarde desertor. Você é meu herói de verdade.

Agora eu preciso bater um papo com você, senhora. Você mesma, escondida embaixo dessa manta de tricô, encoberta de xale e fuligens. Não pense que você vai ficar de fora do meu delírio revisionista. Você, senhora, que contou e ainda conta as histórias dos vencedores sob à luz de muitas lareiras até o advento da luz elétrica e das máquinas de escrever, protótipo para os laptops, como este sentado em meu colo agora, obediente como uma criança que ouve, atenta, a percussão digitada dessa história – a Minha Versão da História.

Você, vozinha cheirosa, amável e triste, você precisa parar de ser assim tão obediente, como se isso fosse uma espécie de bondade para com os pobres homens da nossa vila, a vila dos sobreviventes. Isso que você faz de contar a versão dos heróis, sejam eles desertores ou vencedores mas, todos eles, estupradores e assassinos, quer pelas próprias mãos e vísceras ou pelo silêncio cúmplice, isso que você faz, vozinha, nos deixa assim igualmente obedientes, dóceis e amáveis para que os próximos heróis de guerra venham aqui como convidados, comer da nossa comida enquanto levam a nossa prataria pra casa como se isso não fosse furto, a gente finge que não viu enquanto avisa que os cantos da boca ainda estão melados da sobremesa, toma aqui um guardanapinho. Eles vão embora de barriga cheia e a gente fica aqui, com a voz cada vez menor, voz de vozinha, sem fogo pra lareira do nosso tempo porque o gás de cozinha está muito caro, afinal.

Você, vozinha, responsável por repassar essa história toda de covardes e heróis: você precisa parar. Penso nisso enquanto lembro a transmissão com artistas pop que foi ao ar para todo o mundo ontem à noite, eles tinham esse mesmo tom de voz que você, essa esperança forjada no chão frio do apartamento milionário para dizer: vai passar, vamos vencer a pandemia, alguns morrem no caminho, como em toda guerra, você sabe, mas os melhores sobreviverão. Os melhores-melhores morrerão na trincheira, médicos e enfermeiros que por força dos ancestrais vencedores de guerra, puderam em uma curva de civilidade estudar medicina e todas as outras maravilhas da ciência, essa mesma ciência que agora corre, amedrontada, no escuro da floresta, com a ferrugem da sua única adaga desembainhada contra um tipo de terror muito pior que é o terror do desconhecido, não o outro da guerra, o estrangeiro, o homem diferente de nós, o selvagem a quem devemos civilizar ou o bárbaro amoral a quem devemos subjugar, mas o estranho das nossas entranhas, isso que não tem forma de verdade, é uma forma ficcional nas telas de LED do noticiário, que segundo pintam é redondo e vermelho como um glóbulo de sangue e pontiagudo e afiado pela força de bilhões de bainhas, isso que ironicamente – ah! – tem a forma de uma coroa, a coroa dos reis, o símbolo maior dos heróis.

Sabe, vozinha, eu estou cansada porque apesar de toda a higiene e conforto da qual disponho, eu não consigo dormir, nem gostar tanto assim da música dos artistas que tentam nos encorajar e consolar com A Arte, sabe, vozinha, eu estou sem ânimo pra continuar essa história que você nos conta há tantos anos a fio sob à luz das lareiras nas casas que têm lareiras enquanto outras casas não têm dinheiro pro gás e enquanto outros que nasceram para habitar casas posto que são frágeis e humanos estão dormindo no chão frio e molhado de uma calçada com aquele xale furado que você doou pro último brechó da igreja.

Vozinha, eu estou exausta dessa historinha toda. Você não está?

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