O digital: leitura, educação e ação política

As tecnologias digitais desafiam a educação e a sociedade, criando oportunidades e ameaças que exigem reflexão e ação.

Crédito da imagem: cseabra/midjourney

Um importante aspecto envolvendo as tecnologias digitais é o da leitura. As pessoas vão deixar de ler livros no bom e consagrado formato de edições em papel? No caso dos livros didáticos e dos dicionários, em boa parte sim; no caso de romances, de poesia, quase certamente não exclusivamente. Afinal, o papel é uma tecnologia comprovadamente resistente, que não necessita de fonte de energia, e assim como o cinema não acabou com o teatro, nem a televisão acabou com o cinema, o livro possui inúmeras vantagens. O maior inimigo dos livros não são os leitores de formatos digitais (que nos grandes sistemas online são também os maiores compradores de edições em papel) mas sim os não-leitores.

Os alunos desaprenderão a escrever com lápis e caneta no papel e sua caligrafia será um horror? O importante é aprender a escrever e ter prazer nisso. Se o instrumento utilizado para a escrita ou o desenho é a ponta do dedo, uma caneta ou um pincel, isso faz parte da diversidade de recursos cuja apropriação a escola deve estimular. Se a caligrafia for considerada importante, convenhamos que telas sensíveis ao toque podem permitir estratégias mais adequadas e interativas do que canetas tinteiro, embora haja espaço para que estas continuem existindo.

A recente pandemia, que forçou escolas, professores, famílias e estudantes a uma “educação a distância emergencial”, evidenciou que um educador ter medo de perder seu lugar para recursos tecnológicos é algo tão descabido quanto uma mãe temer ser trocada por uma geladeira, que é um recurso tecnológico de apoio à alimentação de seus filhos – tanto quanto o computador é uma extensão do cérebro do professor e de seus alunos. Os professores devem ter medo é de ter medo, devem recear a falta de curiosidade, a ausência de experimentação. Estar aberto aos recursos da tecnologia é também uma forma de estabelecer novas parcerias com os alunos, engajando-os em processos de aprendizagem colaborativa.

Imaginação pedagógica, envolvimento proativo dos alunos em projetos engajadores de seu interesse, ensino feito com carinho e inovação, troca de experiências com outros professores, avaliação crítica de sua metodologia, tudo isso são condições para que os dispositivos móveis – artefato computacional com recursos e capacidade muitas vezes maior do que o computador da Apolo 11 que levou o homem à Lua e que está disponível no bolso de quase todos os alunos – possa ser, cada vez mais, uma ferramenta de aprendizagem na sala de aula.

A mesma tecnologia que permite a qualquer humano ser um protagonista da comunicação possibilita também que governos e órgãos de controle e repressão mapeiem, de forma mais eficaz do que qualquer outra já existente até hoje, o que as pessoas são, que palavras elas usam (não só em suas redes sociais, mas em seus e-mails e conversas trocadas em aplicativos), como também onde estão, a que horas foram a qual lugar e com quem estiveram. Ou seja, assim como a metalurgia possibilita construir meios de transporte para facilitar a vida de todos e permite a feitura de armas de morticínio cada vez mais letais, também as novas mídias podem levar a uma liberdade de expressão e informação cada vez maiores ou a formas de repressão jamais vistas.

Segundo Paulo Freire, a leitura do mundo sempre precede a leitura da palavra – nesse sentido, as novas tecnologias de informação e comunicação possuem condições ímpares para fazer a ponte entre essas duas leituras, do mundo e da palavra, cabendo aos educadores, aos artistas e pensadores, e à sociedade como um todo, especialmente aos ativistas políticos, a descoberta e a elaboração dessas possibilidades.

A apropriação do ecossistema informacional através de funcionais algoritmos, protagonizada por nefastos esquemas de cariz fascista, é um fato que está a exigir do campo democrático medidas de controle e especificamente dos socialistas uma atuação muito mais eficaz.

Sergei Tchakhotine, microbiólogo e teórico e ativista em psicologia das massas, em seu livro A Violação das Massas pela Propaganda Política, afirma que “A arma empregada por Hitler, não era fruto de um conhecimento científico das bases biológicas das atividades humanas; longe disso, como verdadeiro ingênuo, tinha ele apenas uma intuição, um bom senso primitivo e sem escrúpulos. Está aí o segredo de seu sucesso contra todos os homens de Estado diplomados de seu próprio país e de toda a Europa. Sem conhecer os seus mecanismos, sem os compreender, ele manejava essas armas e triunfava, porque era o único que as utilizava; era monopólio seu, pois os adversários não as distinguiam ou, se as viam, detestavam-nas e a elas renunciavam deliberadamente como bons intelectuais imobilizados pela sua erudição ultrapassada.”

Tchakotine conclui dizendo ser necessário estudar a “essência dos acontecimentos que vivemos tão dolorosamente, uma vez que o fascismo e seu herdeiro atual, o capitalismo militante, violam o psiquismo das massas populares através de sua nefasta propaganda. O que fazer para lhe barrar o caminho?”.

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