O elixir mágico

A mensagem de esperança, de aposta de todas as fichas em um objeto redentor é parte crucial do discurso de Bolsonaro há algum tempo.

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Narrativas políticas são estratégias de comunicação para convencimento coletivo, elas operam como elemento agregador ou disruptivo, a depender dos seus usos e destinações. Em tempos de sectarismo, elas funcionam para superar obstáculos sociais oriundos de questões históricas ou mesmo em virtude de eventos específicos. 

Seja na luta por direitos civis nos EUA, seja na luta por eleições diretas no Brasil ou em outros países da América Latina, o núcleo do discurso precisa necessariamente ser coeso o suficiente para que a mensagem chegue de forma rápida e integral nos destinatários. Coesão e simplicidade não anulam a força do conteúdo, que demanda espraiar-se em magnitude para arregimentar suporte social.

A crise do coronavírus tem mostrado um elemento central alquímico no discurso do Palácio do Planalto, um discurso substancial apoiado em um objeto com propriedades místicas, tensionando uma dimensão milagrosa que mexe com o imaginário popular. Não é a primeira vez que o presidente lança mão de um objeto pitoresco como tábua de salvação de seus interesses. No caso do nióbio, metal de grande apreciação de Bolsonaro, a insistência no tema nos faz pensar que a narrativa simplificada em cima da substância estabelece um vínculo mágico com o eleitor. 

A mensagem de esperança, de aposta de todas as fichas em um objeto redentor é parte crucial do discurso de Bolsonaro há algum tempo. E precisamos admitir que tem funcionado. A aderência deste tipo de estratégia nas camadas populares tem se mostrado persistente quando analisamos os últimos dados de avaliação do governo.

A pedra filosofal da vez é a cloroquina, medicamento historicamente utilizado para o tratamento da malária, lúpus e artrite e que pode ter eficácia contra o novo coronavírus. Ainda não existe comprovação científica, ou seja, não foi possível realizar estudos de abrangência suficiente para provar que a cloroquina funciona e como funciona. 

Mas a partir do momento em que o  presidente politiza a discussão, de modo a dividir as pessoas entre apoiadores da cura e mensageiros do caos, engole-se completamente o debate público sobre  aqueles que apontam as inúmeras ressalvas, os efeitos colaterais, a importância de monitoramento dos pacientes e a facticidade em torno da autoridade sobre o uso da cloroquina: o assunto é médico. Atropelamos a orientação médica e resta apenas um mantra bolsonarista “não querem que o Brasil dê certo”. 

Portanto, Bolsonaro transformou um medicamento que pode ter eficácia numa disputa de narrativa política, e tem sido bem sucedido. A cloroquina está presente no discurso do presidente desde o começo da pandemia, mas, nos dois últimos pronunciamentos feitos em rede nacional ela assumiu um papel central na resposta sobre a Covid-19. A promessa de cura é acompanhada de uma mudança no tom utilizado, o que tem sido eficiente em desacelerar a queda de popularidade. 

No pronunciamento do dia 8 de abril, quarta-feira, ele pela primeira vez se solidarizou com as famílias dos mortos pela doença, e reconheceu a autonomia de estados e municípios na determinação das medidas de isolamento social, diferente das falas anteriores, nas quais atacou veementemente os governos subnacionais. 

Bolsonaro e seus assessores levam em consideração a repercussão que suas falas têm nas redes sociais e as pesquisas de opinião pública têm evidenciado que a forma como o presidente conduziu seu governo diante da pandemia teve uma avaliação negativa da população. Portanto, a mudança de discurso é estratégica e a venda da cloroquina como salvação para nossos problemas, também. Apesar de atacar seus opositores que supostamente estariam visando 2022, é exatamente essa a grande preocupação de Jair, por isso tanto bateu na tecla da economia, porque sabe dos impactos eleitorais que a crise econômica tem. 

A cloroquina parece, assim, a melhor saída para uma figura política que se confia no eleitorado cativo que detém para levá-lo ao segundo turno, e que aposta no antipetismo como chave da reeleição. Se tiver sorte e Paulo Guedes alguma habilidade, os setores que o elegeram aguardam ansiosos pela retomada do crescimento econômico e a manutenção do poder político. Basta saber se o Messias terá a virtude necessária para virar o jogo que ele mesmo criou para si, pelo menos o elixir mágico agora ele tem.

Artigo elaborado em coautoria com o cientista político Hesaú Rômulo

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