A face parasitária do capitalismo estampada na fortuna trilionária de Elon Musk
Em vez de grande feito, o primeiro trilionário da história evidencia a crise sistêmica do capitalismo, que exacerba a desigualdade de renda e riqueza e a precarização do trabalho
Publicado 26/06/2026 14:42 | Editado 26/06/2026 15:22
O status de trilionário de Elon Musk revela muito sobre o capitalismo contemporâneo. Ele compõe a categoria de magnatas da tecnologia, a elite do Vale do Silício, como Tim Cook, da Apple, Jeff Bezos, da Amazon, e Sundar Pichai, do Google, presentes na posse do segundo mandato presidencial de Donald Trump, em janeiro de 2025. Desde então, eles estão próximos do governo, participam de atividades da Casa Branca e integram comitivas de Trump, como na visita oficial à China em maio de 2026.
Elon Musk e o seleto grupo de bilionários dos Estados Unidos apoiam o governo Trump e, em troca, sugam o Estado. O governo estadunidense atua como um cão de guarda de seus superlucros pelo mundo afora. Estão engajados também em fortalecer a extrema direita e o neofascismo, em escala internacional, e em atacar governos democráticos e patrióticos.
De acordo com o jornal Financial Times, com o alinhamento entre a Casa Branca e as big techs, essas companhias passaram a se beneficiar de alívio regulatório, políticas favoráveis e, em alguns casos, contratos governamentais lucrativos. “A evolução das fortunas desses executivos nos 12 meses desde a posse evidencia a natureza cada vez mais transacional de Washington durante o segundo mandato de Trump e o novo”, afirma o jornal em artigo reproduzido pela Folha de S. Paulo. Elon Musk já era o homem mais rico do mundo e iniciou o segundo mandato de Trump com um império empresarial em expansão e enorme influência no governo, depois de gastar mais de US$ 250 milhões na campanha trumpista.
É uma tendência antiga. No bem documentado livro Pigs at the Trough (Porcos no cocho), publicado em 2004, Arianna Huffington, comentarista e ativista política estadunidense, mostra que houve um afluxo de executivos que se beneficiaram de salários milionários e inúmeras regalias, fraudaram as contas de empresas e manipularam ofertas de ações, entre outros abusos. O mais ultrajante, porém, é que muitos dos que se beneficiaram desse fluxo de dinheiro foram capazes de pressionar com sucesso o Congresso e a Casa Branca para que abrissem caminho aos excessos cometidos.
Essa simbiose de magnatas com o poder político é da natureza do regime capitalista. Por isso, os escândalos pipocam e a Justiça não é chamada a intervir, tampouco a polícia. Isso quebraria essa intrincada teia de relações, jogaria luz em trevas intocadas e romperia com o rito natural do poder econômico na dinâmica política desse regime. Donald Trump é um legítimo representante dessa simbiose.
Tomas Piketty, em seu livro O capital no século 21, publicado no Brasil em 2014, afirma que a concentração de riqueza provém, em grande parte, das desigualdades internacionais. Piketty associa à desigualdade também ao conceito de que a renda do capital tende a se concentrar nas mãos de uma pequena elite, enquanto a renda do trabalho é distribuída de forma mais ampla, o que gera grande disparidade de poder econômico. O 1% mais rico, cerca de 45 milhões de adultos sobre 4,5 bilhões, possuía, segundo ele, um patrimônio médio equivalente a cinquenta vezes o patrimônio médio.
Trata-se de uma derivação da formulação clássica de Karl Marx que, resumidamente, estabelece que a renda do trabalho se refere ao salário pago pela venda da força de trabalho, enquanto a renda do capital deriva da propriedade dos meios de produção ou, de forma mais acentuada na atualidade, do dinheiro investido para gerar mais dinheiro, sem passar pelo processo de produção de mercadorias, a hipertrofia financeira.
Em contraste com essa escalada de concentração de renda do capitalismo, a China socialista retirou em torno 850 milhões de pessoas da extrema pobreza nas últimas quatro décadas. Esse esforço do Partido Comunista da China resultou em mais de 75% de toda a redução da pobreza global no mesmo período.
O relatório da Oxfan intitulado Resistindo ao domínio dos ricos: defendendo a liberdade contra o poder dos bilionários, de janeiro de 2026, indica que a concentração extrema de riqueza está avançando em ritmo acelerado, colocando em risco direitos humanos, liberdades civis e fator de desgaste da democracia representativa. A riqueza coletiva dos bilionários cresceu US$ 2,5 trilhões em 2025, alcançando US$ 18,3 trilhões, o maior valor já registrado, um crescimento três vezes mais rápido do que a média dos últimos cinco anos. Desde 2020, a riqueza dos bilionários aumentou 81%, enquanto quase metade da população mundial vive na pobreza – uma em cada quatro pessoas não tem acesso regular a comida suficiente.
Segundo a Oxfam, entre 2000 e 2025, na América Latina e Caribe, o patrimônio de um bilionário cresceu, em média, US$ 491.198 por dia. Em contrapartida, o salário-mínimo médio de um trabalhador na região é de US$ 4.815 por ano. Se no início de 2024 esse trabalhador precisava trabalhar 90 anos para ganhar o que um bilionário ganha em um único dia, hoje ele precisaria de 102 anos, afirma o relatório. Ou seja: mesmo trabalhando desde o nascimento até a morte, ele precisaria de mais três décadas adicionais de trabalho acima da expectativa de vida média na região.
O Brasil é o país que concentra mais bilionários, que juntos acumulam a maior riqueza da região, seguido pelo México, Chile, Colômbia e Argentina. Em 2019, segundo a Oxfam, seis brasileiros tinham uma riqueza equivalente ao patrimônio dos cem milhões mais pobres do país. Os 5% mais ricos detinham a mesma fatia de renda dos demais 95%.
O binômio concentração de riquezas e desigualdades sociais é intrínseco ao capitalismo, fenômeno que se agravou com a égide da financeirização e os ditames do neoliberalismo. Incide, fortemente também, a elevada composição orgânica do capital por meio da avançada automação dos processos de trabalho, inclusive a Inteligência Artificial (IA), sob o comando do capital que privatiza e se apropria das diversas esferas da sociedade; e o domínio dos mercados por conglomerados. Na busca por maiores taxas de lucro, os capitalistas promovem uma desenfreada concorrência pela produtividade, intensificando a exploração da força de trabalho por diversos meios, entre eles, as plataformas digitais. Na atualidade, o predomínio dos monopólios tecnológicos, que controlam dados globais, os gigantes do mercado de ações e os grandes fundos de investimentos, fazem a concentração de riqueza atingir níveis sem precedentes.
Essa realidade, como assinala a Resolução Política do 16º Congresso do PCdoB, pressiona os povos e os trabalhadores a buscarem saídas. E, em linha crescente, passam a enxergar no socialismo a alternativa viável e necessária ao capitalismo em crise. O socialismo, destaca o documento dos comunistas, ergue-se como a alternativa superior ao capitalismo, sistema esgotado historicamente, promotor de guerras e conflitos, de opressão dos povos e dos trabalhadores e exploração predatória da natureza.