Consciência Negra, defender a vida e a igualdade racial

A palavra de ordem do recente levante antirracista nos Estados Unidos, de onde se espalhou pelo mundo – Vidas Negras Importam (em inglês, Black Lives Matter) tem reforçado – ao ser olhada a partir da experiência brasileira – seu alcance universal. Vidas Negras Importam é algo que precisa ser dito à polícia e aos racistas brasileiros que, quase diariamente, repetem, na prática, o contrário – que, para eles, “vidas negras não importam”. É a conclusão que se impõe ao analisar os dados da edição 2020 do “Atlas da Violência” , elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Ipea, onde se vê que, entre 2008 e 2018, houve 628.595 homicídios no Brasil – e a imensa maioria (mais de 70%) foi de negros, assassinados muitas vezes pela polícia. Aqueles dados mostram que o risco de um negro, ou uma negra, terem morte violenta, é incivilizadamente alto – para um negro, é 74%; para uma negra, é 64,4% maiores do que para um branco ou uma branca. O Atlas registra que, em 2018, houve uma queda de 12,9% no número de homicídios entre as pessoas não negras, e, ao contrário, um aumento de 11,5% no número de assassínios de pessoas negras.

Vidas Negras Importam é algo a ser vociferado aos Poderes da República no sentido que cumpram a Constituição e, efetivamente, adotem políticas que promovam a igualdade racial e combatam o racismo. Exigência que se tornou ainda mais necessária diante de um governo de extrema-direita, antipovo e racista. Esta reflexão, reiterada, se impõe neste 20 de novembro, o Dia Nacional da Consciência Negra, quando se celebra a memória de Zumbi dos Palmares, o grande herói da luta contra a escravidão, que foi morto em combate pela liberdade no dia 20 de novembro de 1695.

Guardadas as proporções, a luta é a mesma – pela liberdade, contra o racismo e pela defesa da vida. A luta pelo reconhecimento e respeito à radical igualdade entre todos os seres humanos – homens e mulheres, brancos e negros, hétero ou homoafetivos. Independentemente da cor de sua pele, formato de seu corpo, orientação sexual, origem nacional – seja qual for a diferença acidental que haja entre os seres humanos, todos são fundamentalmente iguais, com o mesmo direito à vida decente e respeitada, igual direito à felicidade, todos semelhantes na múltipla diversidade da espécie humana, que é uma só e nos abarca a todos.

Este 20 de novembro ocorre poucos dias depois de uma eleição importante não só pelo revés que representou aos racistas e à direita mais selvagem e intolerante. Importante também porque consagrou – lembra Haroldo Lima em artigo publicado neste portal – os avanços conseguidos pelos brasileiros no período democrático que antecedeu à ilegalidade do golpe de estado de 2016, atraso confirmado pela eleição do direitista – e racista – Jair Bolsonaro.

A eleição deste domingo (15), diz o TSE, teve, pela primeira vez na história brasileira, a maioria de 49,9% de candidatos negros, e 47,8% brancos. Entre os mais de 4 mil prefeitos eleitos no primeiro turno, cerca de 1.700 (32% do total) são negros. É um recorde, que reafirma o esforço pela igualdade feito nos governos Lula e Dilma – esforço que, apesar de todas as tentativas contrárias da direita, permanece e se mantém.

Há o que comemorar neste 20 de novembro: a luta antirracista, que se fortalece no mundo e no Brasil, a importância da defesa da vida e da igualdade racial, a luta contra a violência que sacrifica principalmente vidas negras. As vidas de todos importam – somos todos iguais, não importa se a cor da pele é clara ou escura. E, para alcançar essa igualdade de forma efetiva, é preciso prestar atenção – e respeitá-lo – o direito dos negros à igualdade, pela qual lutou e morreu Zumbi dos Palmares há 325 anos.

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