Claudio Daniel: Dez poetas brasileiros

Autores vem se destacando pela rica diversidade de temas e pesquisas formais

Os novíssimos poetas brasileiros vêm divulgando seus poemas em blogues, sites, redes sociais, plaquetes e livros impressos por pequenas editoras, contribuindo para a necessária renovação de águas de nossa poesia, que não se resume à diluição da vertente coloquial-cotidiana do Modernismo e da “poesia marginal” praticada na década de 1970.

Há muitas outras linguagens, pesquisas e caminhos estéticos no panorama recente de nossa literatura, apesar do quase silêncio dos cadernos culturais da imprensa diária em relação ao tema. Vamos conhecer um pouco da produção de dez autores que vem se destacando pela rica diversidade de temas e pesquisas formais, desafiando o milk-shake da “poesia-piada” e o conservadorismo cultural de um Brasil cada vez mais autoritário, arcaico e em guerra consigo mesmo.

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ENSAIO
(Márcia Tigani)

Crisântemos amarelos
Desatam nós de memórias:
Como estiletes
Rasgam versos
E me roubam o ar

Na estação do estio
Meus olhos fatigados
Estão assim úmidos
Assim fluidos
Como estuários

Tenho ranhuras
De meus tantos exílios
Que sangram a pele:
Estranhas ramagens
E seus enigmas

O vento serpenteia
Minhas tardes
E vinca a epiderme
Em plena epidemia
Como presente do tempo.

* Marcia Tigani é poeta, nasceu São Paulo (SP) e reside atualmente em São José dos Campos. É médica, especialista em Psiquiatria e divide-se entre a carreira que escolheu por vocação e a poesia. Publicou os livros Caminhante: prosas e rimas ao vento e Navegações e paragens. Participou da antologia 80 balas, 80 poemas, organizada por Claudio Daniel.

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CONFESSO DEVANEAR-ME NOS SEUS DENTES
(Jade Luísa)

Então você olha pras minhas maçãs
e sorri quando percebe que elas ardem
até o pé da orelha,
bem no lugar que você beijou antes de me dizer
mariposas e besouros.
Não sinto dor agora, apenas
quando eu me deitar sob as coxias do inverno.
Elas protegem minhas orelhas da sua saliva
mesmo quando eu não peço, mesmo
quando meu anseio maior é me
embaraçar no vazio entre a sua gengiva e a sua
orelha.
Agora eu falo pelas coxas.
Sigo contando histórias sobre como estou
cega pela luz da sua garganta
surda pelo som do seu tórax
muda pelo eco das suas pupilas
inerte pela lava que escorre das minhas coxas falantes
entoando elegias por detrás do seu pescoço,
como quem enrola a língua ao sussurrar seu nome.
Baixinho, para que só o desejo possa ouvir.

* Jade Luísa é poeta, mora em Brasília (DF), estuda Letras na UnB, gosta de teatro e publicou poemas em blogues e redes sociais. A autora é inédita em livro.

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LETAL
(Vagner Gavião)

Como cabeças de hidras
que ressurgem decepadas
sigo como um vírus,
replicando vez após vez
num toque ou sussurro.

Em voracidade, avanço
programado para procurar
e destruir, inumeráveis
vezes, sem controle.

Transmuto lágrimas
em estocadas.

Torno mais amarga
a desilusão.

Flerto com o ordinário
enterrado nos beijos
e abraços da rotina
calma, exasperante.

Hoje sucumbo ao espelho
e vejo que o vendaval
onde passou, derrubou.
Recordo que a enxurrada
onde correu, escavou.

Força bestial, indomável
alucina em diferente dor
quanto mais esgota
tanto menos a fome sacia.

Janto farrapos de subterfúgios:
choro, me corto, vomito,
ao fim vejo mais um insano
A cavalgar a verdade
que não enxergou.

* Vagner Gavião é poeta, nasceu em Itararé (SP), é funcionário público, atuando na área administrativa da educação. Colaborou em revistas eletrônicas e nas mídias sociais. É inédito em livro.

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PERDIDOS
(Lourença Lou)

todos os sons fogem e nos deixam surdos às vidas lá de fora
o que o mundo diz não nos interessa
não agora
não no momento em que a coragem
nos fecha neste quarto
o desejo
esta ilha que nos separa do racional
desperta-nos feras

:

não há moralidade em nossa fome
não há disciplina
não há fronteiras
na composição do nosso final dos tempos
sua boca faz explodir minhas ansiedades
lava com a língua o ventre à espera
os dedos espalham ardências nos caminhos da madre
desmancho-me em pornografias
grito sussurro grito
falo
todos os lábios se abrem
sedentos como terra à semente
morremos
não há em nós expectativa de vida além deste quarto alugado
a realidade nos vem trazida pelas trágicas sortes
ainda hoje seremos novamente dois seres perdidos em ruídos
fábricas de sonhos roubados à soma de nossas impossibilidades.

* Lourença Lou é poeta, nasceu em Belo Horizonte (MG), foi professora de português, diretora de escola, sindicalista e presidente de uma cooperativa educacional. Publicou três livros de poesia.

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(Flaviano Vieira)

Homens com cheiro de árvore
absorvem bem as alucinações reais das raízes
e os hálitos árperos de disformes galhos
que se propoem a comer gramas nada interessadas em certezas deslizantes.
Homens com cheiro de árvore
preferem os desdizeres que não sabem nem se exigem saber.
No caule mesmo dos encontros inventados da desrazão
presenciam invenções.
Os braços de pegar seguram sentidos
e a busca de reflexos soltos em luz é destino traçado
nessa intimidade se ultrapassa o tamanho das coisas
em busca de seus segredos sem sentido.
O caminho percorrido é sorte de Ulisses em busca de Ítaca depois de Troia incendiada.
As trilhas traçadas envolvem buracos
e deles surgem imagens enigmas que resgatam
e traduzem símbolos invisíveis de matéria
em concertos de poesia
No fim é sempre perseguição de buracos da memória
que abrem e fecham como bocejos da terra.

* Flaviano M. Vieira é poeta, nasceu em João Pessoa (PB) e atua como professor de Teoria e Crítica Literária em Recife (PE). É autor inédito em livro.

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MEJÊ
(José Couto)

sete velas perfumadas pra nanã

sete cantos desconcertantes
na pele da nação yorubá

sete estrelas alaranjadas do kilimanjaro
vão agradar iemanjá

sete flores do manjericão roxo
do sertão vão perfumar xoroquê

sete cores efervescentes girando
nos chakras da paixão

sete caminhos bifurcados
estradas de sim e não

sete silêncios ocos
no voo da meditação

mẹje ao avesso mẹtadilõgún

sete velas desconcertantes pra nanã

sete cantos perfumados
na pele da nação yorubá

sete estrelas do manjericão roxo
lá no kilimanjaro vão agradar xoroquê

sete flores flor da laranjeira vermelha
do sertão vão perfumar iemanjá

sete cores efervescentes
girando caminhos bifurcados

* José Couto é poeta, nasceu em Porto Alegre (RS), onde reside. É professor de geografia, história e sociologia. Publicou três livros de poesia e participou de várias antologias.

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OLHOS NUS
(Mariza Mainieri)

Antes de partirmos
nos despiremos
sem respostas
nem perguntas
Darei a você
o sentido
de meus olhos
translúcidos.
Ignore a razão.
Vibraremos
sem engano
a sós.
Desouviremos
as vozes
bordadas
na pele
Em silêncio
Evocaremos
o que esquecemos
de lembrar.
O aroma
do desejo
que reside
no deleite
da fusão
de nossos
olhos nus

* Mariza Mainieri, poeta e fotógrafa, nasceu em São Paulo (SP). É autora inédita em livro.

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ZUNIDO
(Carvalho Jr.)

Na carcaça da noite me desespero,
ardo em febre, ansiedade e medo.
De pés virados no leito, ao relento,
sou engolido pela angústia do tempo.
Penso na velha Iaiá, rezadeira morta,
e um sussurro atravessa a porta
do meu esconderijo de sombras.
Como se falasse por um cazumbi,
uma voz, caindo-me sobre os ombros,
expele a cólera de um bicho: e daí?

Reviro-me nas camadas do sono,
meus olhos se dilatam em espanto.
Choro, como em esquecidos outonos,
uma dor pronunciada em esperanto.
A agonia se instala nos cômodos da casa
e desmaio no poço de um mito raso.
Que morto é esse que me abraça,
quando se revela um absurdo zunir?
Uma mosca sem mãe cospe no vaso
o ruído sujo, bizarro — e daí?

A desdita da noite se estende,
aves de mau agouro desatam o canto.
Desalumiado, um silêncio geme
e a lágrima desaba em contracanto.
Como se o sonho morresse de pranto
por uma cruel adaga que nos abre aqui:
o inseto do nojo zune na fresta — e daí?

* Carvalho Jr. é poeta e mora em Caxias (MA), onde trabalha como professor e gestor escolar. Publicou cinco livros de poesia, sendo o mais recente O homem-tijubina e outras cipoadas entre as folhagens da malícia (2019).  Colaborou em jornais, revistas e sites de literatura no Brasil e no exterior.

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NÃO TEM KIJILA
(Andrea Moraes)

Malembe
malembe
fui mata-bichando
enquanto contemplava
matubas
de um cão
arrumando
maka
com o mataku
de uma cadela
atrás do imbondeiro.
Então pensei
que quando bate
a vontade
num animal
nessa hora
não tem muxima
não tem kijila
Há somente
um Ngombiri
paiando
pra se tornar
o muata
do tranco

* Andréa Moraes, poeta e contista, nasceu em Recife e reside atualmente em São Paulo, onde trabalhou como professora. É autora inédita em livro.

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HI-BRASIL
(Rosane Raduan)

Pedaço de Pacha Mama.
Dizem que
seu nome
é braseiro
inspirado
na seiva rubra
de ibrapitanga.
Suas cores intensas
sempre vivas
nas flores e pássaros
sob a luz do sol
sempre incidente
como disse
o caraíba
na carta
ao seu rei:
primavera
sem fim.
As ondas
crispadas do Atlântico
contam outra história
para além
do tempo
vinda dos remos
velas ao vento
da nau de
São Brandão,
o Navegador.
Em busca
de lugares míticos
esquecidos
encontrou tambores
ancestrais
tocados por peles
de urucum e jenipapo
enfeitadas por
penas coloridas
celebrando
florestas sempre verdes.
É Pindorama
terra abençoada
de curupiras e iaras
onças jaguares
Jaci Guaraci.
Fáilte go
Hi-Brasil

* Rosane Raduan é poeta, nasceu e reside em São Paulo (SP). Estudou Ecologia na Unesp de Rio Claro e tem mestrado pela USP. Trabalha no IPEN. É autora inédita em livro.

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