24 de Fevereiro de 2017 - 14h10

Uma noite de carnaval na ditadura *

Urariano Mota *

 .


O que dizer de alguém como Vargas, que me fala nesta noite? É simples, absurdo, cheira mal e me dá lição de que bom é o pão para todos. Eu nada sei, e ninguém sabe até aqui, o heroísmo de que será capaz por uma razão fora do manual marxista que ele vulgariza, com o dedo na minha cara. Ele é o herói sem Olimpo, devo dizer, o herói sem Homero, sem um só narrador, mas acima da nossa altura, penso, pela ação que desenvolverá daqui a menos de um ano. Agora, nesta noite da sexta-feira de carnaval, não. Com a cerveja que dá um calor do peito, com a batida de limão, o militante de oculto nome Getúlio parece não gostar de mim. E continua a inquisição:

- Você já leu Trótski? Nem mesmo Isaac Deutscher? Nãão?!

- Eu vi Lênin – me defendo.

- O quê? O Estado e a Revolução? Que fazer? Imperialismo, etapa superior do capitalismo?

E fala uma enxurrada de títulos que me deixam mais tonto que o álcool no Bumba-meu-Bar. Estou diante de um leitor voraz, imagino, que conhece tudo e qualquer obra marxista e a revolução russa. Eu não sei ainda que Vargas alia o fervor ideológico à profissão de vendedor de livros. Um vendedor diferente, que dirige os olhos para os clássicos do marxismo. Então eu lhe falo que conheço Lênin a partir de uma coletânea de textos dele sobre literatura.

- Eu sei qual é – ele me responde. – É muito pouco – fala, como se me dissesse, “ainda se mete a discutir política?”. – Tem que ir na fonte.

- Sim, mas....

- Mas o quê?

Se estivesse em terreno mais próprio, eu diria que leio muito, mas a minha direção vai para a literatura, o romance, o conto, a poesia, que passo noites a ler Scott Fitzgerald, Hemingway, Proust, Manuel Bandeira, Drummond, que leio Marx nas citações dos livros de estética de pensadores como Lukács, mas o terreno é desigual, sei, como falar de cerveja em terra onde falta o pão? Isto é, falo do luxo do espírito em uma guerra. A urgência é a derrubada da ditadura, é a revolução armada, e lá venho eu com essas frescuras pequeno-burguesas. A batalha não é no Parnaso, no excelso das nuvens. É imoral, é uma covardia a ocupação em tais delicadezas enquanto companheiros são massacrados. Como é que alguém pode ser morto por ler Em busca do tempo perdido? "Isso é um escapismo", talvez ele me respondesse. E no entanto, a urgência não lhe deixa perceber que o aprendiz de escritor pode ser útil à revolução, e um dia, quem sabe, escrever a história deste dias. Nesse futuro possível, passará por cima da mágoa deste momento, até descobrir o herói Vargas, que ninguém vê. Mas nós estamos na mesa do Bumba-meu-Bar em 1972, não sabemos o que virá.

Nesta altura, nesta página me divido entre o presente da sexta-feira de carnaval de 72 e o amante da luz de 73 até aqui. No texto mais simples, serei duas faces, do riso e da tragédia. Ou aquela dupla face do deus Jano, uma voltada para trás, outra para a frente. Mas na vida, o deus Jano é unificado na face da história, compreendida nas faces do romance. Um dos erros em nós era pensar que o caminho a trilhar fosse único. Que o de Vargas excluísse o meu. E o que me parece mais grave, o de julgar o mundo da literatura como um desvio, uma vergonha. Era compreensível, eu sei, que na iminência do seu fim, Vargas não entendesse prioridade mais absoluta que os problemas da revolução. Era compreensível que na busca das formas concretas, como uma alma penada e vagando aos 21 anos, eu me perguntasse “qual o sentido da vida?”. Metafísica, responderia Vargas. E penetraríamos numa encarniçada discussão sobre a essência e o circunstancial. Mas na sexta-feira eu nada lhe posso falar do que me oprime, enquanto ele falará da opressão geral, pois seguimos em caminhos que se abrem numa encruzilhada, em que por acaso, por um triz, eu sobreviva ao instante desta noite. E de tal modo é marcante a direção trágica de Vargas, que por método de ferro nada falei até aqui sobre as outras pessoas em nossa mesa.

Já saímos do Bumba-meu-Bar, viemos para o Aroeira, que no Pátio de São Pedro acolhe também a esquerda. Estamos ao redor de uma mesa redonda, sentados em bancos, Vargas, eu, Nelinha e Alberto. Comecemos por Nelinha. Ela mal fala, isto é, ela pouco fala em comparação a Vargas, seu companheiro e marido. Mas é evidente a concordância entre eles pelo sorriso cúmplice e olhar amoroso que dirige ao homem que admira. Vargas, por sua vez, aqui e ali mostra o quanto ela é apoio e senhora de cuidados para ele. Depois do que soubemos adiante, se eu pudesse definir o quanto a ama, eu diria que ele oscila entre o carinho e a extrema atenção, para o que ele julga ser uma pessoa da natureza da orquídea. É como se Nelinha tivesse a aparência exterior do mais fino cristal e a organicidade frágil da orquídea. Daí que o amor por ela vai do zelo à paixão. O desvio de algumas feministas da mais recente geração diria que ele não percebe em Nelinha, neste 1972, a natureza de uma igual, tão ou mais forte quanto ele. Engano injusto e apressado. Se soubessem o terror cruel que Vargas não quer para ela, se soubessem o horror que ele evita para a mulher amada, teriam pudor e vergonha por não perceberem um amor tão cuidado. Nesta noite, a fragilidade que será defendida contra o poder do Estado, como uma cidadela na guerra, possui um bucho imenso, grávida há cerca de 8 meses. E não perguntem se víamos Nelinha, o rosto, a face da mulher que cresce em beleza quando porta a gravidez. Não, víamos o bucho frágil de Nelinha, que mesmo ali pressentíamos a tormenta. Como viria, qual a cara da repressão e da tortura? Nelinha era um contraste absoluto às intervenções bélicas de Vargas:

- Che é o revolucionário dos nossos dias. Ele é a tradução da América Latina para os clássicos, hoje Só partidão não vê. – E me apontando o dedo: - Você é partidão?

Assim, em interpelação direta, de dar vexame. Eu respondo:

- Não. Eu não tenho partido.

- Não tem?! Eu não estou entendendo. Como é possível um socialista sem partido? Algum deve ter.

- Não... pois é, ainda não tenho.

Vargas olha para Alberto, como a lhe exigir explicação, uma vez que o mundo não admite semelhante vacilação, “que só serve aos opressores”, seu olhar diz.

- Ele é um companheiro de AP – Alberto fala. – Militamos juntos no mesmo partido.

Eu fico sem palavras. Aquilo, se por um lado me salva por momentos da condenação de Vargas, por outro me condena frente aos ouvintes das mesas próximas. Cruzo uma vista raivosa para Alberto, que entende e me responde:

- Ninguém sabe o que é AP. É Ana Paula, rapaz. Estamos falando de Ana Paula – e sorri, achando muito engraçado o codinome da Ação Popular Marxista Lêninista do Brasil.

Mas é nada engraçada a ligeireza com que ele disfarça a sua imprudência. Ele fala como se a direita fosse um feixe de porrada. Como se não houvesse infiltração, ou o que o regime batiza com o pomposo nome de Serviço de Inteligência. E por eu me achar petrificado, ele repõe:

- Besteira. É carnaval. Será que não se pode mais falar de Ana Paula?

- Segurismo total – concorda Vargas.

Eu me mordo. Alberto, já vimos, é o militante dono de uma desastrosa precocidade. Ou de um desastre precoce. “Genial e irrefletido”, diria Zacarelli. Nós, que ainda não percebemos a extensão da sua imprudência, o vemos como um gênio, um jovem dos melhores do Brasil. Os sinais da sua precocidade são patentes. Aos 19 anos discute filosofia como se fosse um intelectual experimentado em muitos estudos e pesquisas. É capaz de sustentar a linha justa da revolução segundo AP, ao mesmo tempo que contraria na prática as normas da organização, que a esta altura chamamos de partido. Como agora, neste noite da sexta-feira de carnaval com Vargas, cuja militância vem da VPR. Mas não só pela conversa, a direção falará adiante. É a própria amizade com Vargas, pois AP tem como norma de segurança não manter contato com os companheiros foquistas, como os chamamos, ou da guerrilha urbana, da luta armada, como esses militantes aguerridos se veem. A razão da norma, falam os dirigentes de AP, é que os foquistas atraem a repressão, porque são liberais, irrefletidos, militaristas em vez de soldados da insurreição popular. Por sua vez, os foquistas veem os subversivos da linha de massa como um bando de reformistas, covardes. Mas os partidos não percebem que as pessoas dos militantes são um caráter que se alinha às vezes com organizações impróprias. Assim, Alberto desde os 18 anos era uma natureza foquista, apesar da filiação ao trabalho de agitação popular.

- Está explicado, é de AP. Segurismo total - Vargas fala.

- Isso não é verdade – Alberto responde. – Pelo menos com AP, não é.

Aguento o insulto. E não falo, nada posso falar na mesa, das tarefas inseguras, de risco que tenho vivido. Em parte, eu sei por quê: não poderia falar, evidente, das novas tarefas para as quais serei exigido daqui a menos de um ano. Nem dos desastres amorosos que cometerei em razão da política de massa de AP. Todos cometemos erros, até mesmo os partidos socialistas, que podem ser criticados à distância pelo espelho retrovisor, porque na hora, não, têm o dom da infalibilidade. Mas para todos é impossível esse conhecimento em fevereiro de 1972. Ora, conhecimento, não possuímos nem mesmo a perspectiva de conhecer. No momento, sentimos apenas um desconforto, um mal-estar, enquanto a discussão levanta a voz. Olho para dentro do bar Aroeira que aparece em penumbra, em contraste com as luzes de fora no Pátio de São Pedro. As mesas redondas têm cor negra, um verniz escuro, e nem posso dizer, como um supersticioso, que as mesas fazem um luto prévio. É superstição, eu sei, mas pressinto e fico numa estranha associação entre o que se discute e a cor da mesa. Como podia adivinhar? Se por acaso erguesse a voz do meu pressentimento, receberia de volta a cláusula pétrea dessa hora: “e daí, não vamos fazer nada?”. Então os presságios, as intuições também se calam. Olho para o fundo do Aroeira, recuo da indistinta penumbra, e na volta desse percurso do olhar encontro a Igreja de São Pedro. Tão bela, tão insensível ao drama dos homens.

“O que fazer, meu Deus?”, é o que me dá vontade de falar. Mas eu sou um jovem ateu que afirma ser materialista, um marxista sem ter lido Marx, em resumo, para Deus e para os homens sou nada esta noite. Eu só queria um lugar sozinho para amargar no meu canto a minha nulidade. E nada posso falar, nem de mim para mim. O tempo é de interdição absoluta. Isto é a ditadura mais feroz, a que nega um homem a si mesmo, a que nega até a mais íntima confissão, porque será imprópria, descabida, uma heresia e pornografia cabeluda, pior que foder a boceta da Virgem Maria mãe de Jesus. Então eu me calo e levanto os olhos para a Igreja de São Pedro. Deus, a noite, a felicidade e a beleza, tudo ilusão......

Pregar a revolução com palavras e música é uma coisa, Vargas. Fazer a revolução é outra coisa, eu diria, se soubesse em 1972 os acontecimentos de 1973. Mas ainda ali, percebo agora, eu seria injusto até a estreiteza e maledicência. Então os artistas não podem expressar o sentimento que corre na gente? Então é justo acusar de leviano, de traidor da revolução, quem escrever como homem poético o homem prático? Só a raiva, no que tem de embrutecedora, verá a canção da luta armada no Brasil dessa maneira. Se assim fosse justo e real, o que dizer de Lorca, de Víctor Jara, até mesmo de Neruda? Então eu, que de nada sabia, escuto Vargas cantarolar “estou aqui de passagem, sei que adiante um dia vou morrer de susto, de bala ou vício”. E para ser mais preciso, em meio à intuição do horror, se põem acordes do frevo lá na Dantas Barreto. Meus olhos correm do rosto de Vargas, vão até a barriga de Nelinha, tão desamparada me parece na tormenta. Me dá uma vontade à beira do irreprimível de acariciar o fruto que virá no temporal. Vargas, que é vigilante insone da mulher, flagra o meu olhar nesse instante. Mas o macho vigia da sua fêmea é derrubado pela humanidade que pressente nessa ternura solidária. Assim sei, assim soube, porque a sua voz baixa o tom, e me fala como a um camarada, um irmão de jornada:

- Companheiro, desculpe. Pensamos diferente, mas você é um companheiro. Estamos juntos, não importa o que fazem de nós. O companheiro me perdoe.





*Do romance “A mais longa duração da juventude




* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa juventude”.

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