14 de Junho de 2017 - 13h27

Tatuagem na alma

Jaime Sautchuk *

Chamou atenção do Brasil e do mundo todo o caso do adolescente tatuado na testa por dois facínoras comuns, desprovidos de cargos públicos ou de qualquer autoridade. Apenas acham que fazer justiça é isso, talvez por não verem Justiça neste país. Ou porque veem na TV como são tratados os adolescentes e adultos, homens e mulheres, das cracolândias da capital paulista.


A ação de polícias armadas até os dentes, a mando do prefeito João Dória, também fere pessoas drogadas e desprotegidas. Tatuam a alma daquela gente, pela humilhação e maus tratos. E agridem todo cidadão que tenha alguma sensibilidade, que mereça ser assim chamado, mereça o diploma de cidadania.

Os dois tatuadores (ou torturadores) do rapaz ainda gravaram em vídeo toda sua ação perversa e distribuíram o vt nas redes sociais. Talvez por quererem ser iguais a juízes e procuradores que de igual modo filmam suas perversidades e injustiças e as distribuem fartamente em busca de alguma fama.

Ou quem sabe pra se parecerem com o prefeito emplumado que se arvora a maioral ao brandir o cassetete como forma de solucionar um problema social, de saúde pública. Isso, enquanto a marginalia toma conta da cidade, se aproveitando da falta da vigilância que a polícia deveria assegurar. Mata, furta, rouba e vende drogas à vontade em portas de escolas.

Centenas de soldados se ocupam de expulsar drogados de um local, pra que se mudem a outro canto da cidade, dispensando o trabalho de agentes de saúde, assistentes sociais e a polícia de apoio. Essa soldadesca poderia muito bem estar contendo a bandidagem que age a seu bel-prazer por toda a cidade.

É certo que as polícias quase só prendem arraias miúdas das organizações criminosas. E quando conseguem pôr as mãos em algum chefão, de pouco adianta, pois logo aparece algum juiz pra soltá-lo, seja a hora que for, de dia ou de madrugada.

Também disso os dois criminosos da tatuagem devem saber e acreditam na impunidade, o que talvez não consigam, pela repercussão que o caso teve. Ou podem ter razão, basta que algum juiz lhes dê uma sentença favorável, por considerar que apenas puniram de modo diferente um drogado ladrão de bicicleta.

De qualquer modo, a dor e a vergonha que sente o jovem tatuado é mais visível, mas não mais intensa e forte do que aquelas sentidas todos que estão ali, nas cracolândias, quando agredidos e humilhados. Uma dor que os caminhos da vida produziram ao jogar essa gente ao deus-dará, submetida ao conforto que o crack propicia, ainda que de forma virulenta, letal.
São, contudo, pessoas que têm sentimentos.

* Trabalhou nos principais órgãos da imprensa, Estado de SP, Globo, Folha de S.Paulo e Veja. E na imprensa de resistência, Opinião e Movimento. Atuou na BBC de Londres, dirigiu duas emissoras da RBS.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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